“Let’s burn, baby!”: quatro revoltas negras que abalaram os EUA

Da “revolta esquecida” em Tulsa, 1921, até a quase guerra civil em Los Angeles, 1992, entenda a evolução da rebelião negra contra as autoridades racistas contra o Estado norte-americano

Imagem: Mtkang
por Diego Abrahão

Sempre que um distúrbio ocorre por conta de uma agressão violenta da polícia, como no caso de George Floyd, nos EUA e mesmo no Brasil, sempre temos o argumento do exagero, da selvageria e do vandalismo contra o patrimônio público. Como se a vida das pessoas valesse muito menos que isso. E os fatos são geralmente vistos de forma isolada sem nenhum contexto histórico, desconsiderando a realidade dos negros e das comunidades pobres.

Para entender o quadro geral das lutas dos negros vamos dar uma olhada rápida nas quatro maiores revoltas dos EUA do séc. XX. Elas mostram um desenvolvimento dessas batalhas, e cada uma delas é uma resposta ainda mais violenta contra o abuso e a brutalidade das forças de repressão.

Distúrbios raciais de Tulsa | 1921 – O primeiro bombardeio de avião dentro dos EUA

O primeiro voo do 14 Bis, em Paris, aconteceu em 23 de outubro de 1906. A Itália foi a primeira que usou aviões para atacar o império Otomano em 1911, logo depois seria usada mais amplamente na primeira guerra mundial por diversos países. Ok, mas você me pergunta, o que tem a ver aviões com os distúrbios de Tulsa? Muito, em poucos anos esses recursos sofisticados de guerra seriam usados para matar negros! Mas vamos ao começo da história.

Os distúrbios raciais de Tulsa são desconhecidos até mesmo para os norte-americanos. Muitos descobriram sua existência por causa do seriado Watchmen da HBO. Uma das atrizes da série, Regina King, chegou a tuitar uma matéria sobre o assunto depois de tantas pessoas relatarem que nunca tinham ouvido falar dessa história. Conhecida como a “Wall Street Negra”, Greenwood, um distrito de Tulsa, era um local onde os negros estavam prosperando economicamente após a guerra civil que pôs fim à escravidão nos EUA. Com lojas especializadas, consultórios médicos, dentistas e até mesmo uma sala de cinema, Tulsa florescia no meio de um país com conflitos raciais graves. Em 1915 a segunda versão do grupo de extermínio de negros Ku Klux Klan tinha sido refundada.

Dentro desse contexto Tulsa era uma heresia para grupos brancos racistas. Sua prosperidade era malvista e era preciso um motivo para destruí-la. E esse pretexto apareceu com um incidente banal. Sarah Page, uma garota de 17 anos, operadora de elevador, começou a gritar histericamente por causa de um jovem engraxate chamado de Dick Rowland, negro de 19 anos. Os relatos dizem que Dick Rowland tropeçou no pé de Page. Mas a gritaria da moça foi o suficiente para que ele fosse acusado de tentativa de estupro.

Preso, Dick Rowland foi ameaçado e teve que ser colocado em uma das selas mais seguras do tribunal para evitar linchamento, pois estava cercado por um grupo de brancos racistas atiçados por um jornal local que tinha como manchete “Negro ataca garota em elevador”. Para tentar conter as ameaças, alguns negros veteranos da primeira guerra foram armados em frente ao tribunal para protegê-lo. No meio da confusão um homem branco tentou desarmar um dos veteranos, o que resultou em um tiro e no início de um conflito generalizado.

Na madrugada de 1º de junho de 1921 milhares de racistas se dirigiram para Greenwood e começaram a colocar fogo em casas, atirar em mulheres e crianças e pilhar objetos de valor. Foram 18 horas de ataques em que os racistas usaram até aviões particulares, segundo relatos, para bombardear e destruir o patrimônio dos negros e alvejá-los com tiros de rifle. Os números de mortos são contraditórios, a imprensa noticiou 39, sendo 26 negros, mas relatos de um funcionário da Cruz Vermelha dizem que mais de 300 negros foram assassinados. O distrito de Greenwood foi completamente destruído, mais de mil casas foram queimadas, entre escolas, igrejas e hospitais. E quase 200 lojas foram varridas. Esse foi um capítulo “esquecido” da história dos EUA que fará 100 anos em 2021. Nesse momento documentários e estudos estão sendo preparados para relembrar esse período.

A rebelião de Watts | 1965 – Os negros alvejam um helicóptero

Entre janeiro de 1962 e julho de 1965, o aparato policial de Los Angeles matou pelo menos 65 pessoas. Destas, 27 vítimas foram baleadas pelas costas. A soma desses acontecimentos está ligada à rebelião de Watts, mas era preciso uma faísca para deflagrá-la e isso aconteceu em um tráfego de carros. 

Às 18h do dia 11 de agosto de 1965, Marquette Frye, de 21 anos de idade, dirigia seu carro perto da casa de sua família, quando foi parado por um policial da Patrulha Rodoviária da Califórnia. Seu irmão mais novo Ronald Frye estava junto e tinha acabado de ser dispensado da Força Aérea dos EUA. Curiosos com a discussão uma multidão preocupada foi se aglomerando ao redor, incluindo a mãe de Marquette, Rena. Com o aumento do bate-boca mais policiais foram chamados. Logo, um grupo com mais de duas centenas de pessoas se formou deixando todos agitados quando deliberadamente um policial esbofeteou Rena Frye com um cassetete e torceu seu braço para trás. Watts explodiu!

Em 12 de agosto às 09h30 da noite, um grupo identificando-se como seguidores de Malcolm X chegou ao Avalon Boulevard, gritando “vamos queimar… baby, queimar!”. No dia seguinte o diário do Centro de Controle de Emergência registrou: “seis negros do sexo masculino em um veículo alvejaram um helicóptero com tiros de rifles, na 109 com Avalon.” O governador Edmund Brown interrompeu uma excursão aérea pelo sul de Los Angeles por causa do medo dos atiradores. A Delta Airlines redirecionou seus voos sobre a cidade, porque os rebeldes estavam “atirando em aviões.”

No segundo dia da rebelião, de acordo com o Los Angeles Times, mais de sete mil pessoas estavam saqueando lojas, em particular para roubar pistolas, facões e outras armas. Rebeldes enchiam garrafas de vidro com gasolina e lançavam coquetéis molotov em carros e lojas. Muitos também disparavam tiros contra policiais. Caminhões de bombeiros e ambulâncias que tentaram entrar na área também foram atacados.

Durante o calor da batalha, o chefe de polícia Parker declarou: “esta situação é muito semelhante a lutar contra Vietcongs.” Enquanto o fogo ainda queimava, a estação de rádio local CBS relatou: “Este não foi um motim. Foi uma insurreição contra toda autoridade… Se tivesse ido muito mais longe teria se tornado uma guerra civil.”

A rebelião se espalhou e 34 pessoas foram mortas, muitas pela polícia, quase todas negras, mais de 1.032 foram feridas; 3.952 pessoas foram presas. A rebelião causou mais de US$ 40 milhões em danos à propriedade de mais de seiscentos edifícios, sendo que duzentos deles foram completamente destruídos. Cheios de raiva pelas condições precárias, em choque contra a repressão policial os rebeldes de Watts, incapazes de mudar a sua condição, procuraram agir por suas próprias mãos, rejeitando a liderança moderada dos direitos civis.

A situação era tão tensa que após a rebelião, Martin Luther King Jr. foi para Watts para acalmar os ânimos. Em 18 de agosto, ele falou para um grupo de cinco centenas de pessoas na Associação de Moradores de Westminster. Ele começou seu apelo moderado: “em todos os EUA, os negros devem juntar as mãos…”, mas um membro da plateia logo gritou “e queimar!” Durante toda a noite, o público várias vezes desafiou e ridicularizou o apelo de King. A política da não-violência fracassara.

A morte de Martin Luther King Jr.  | 1968 – O exército vai para a rua

Alguns anos depois da morte de Malcolm X era a vez de Martin Luther King Jr. ser assassinado em 4 de abril de 1968. Mesmo pregando o pacifismo seu destino foi o mesmo de Malcolm X, sendo executado por tiros. A morte de King foi um ponto de virada na luta dos negros, que entenderam que mesmo um líder pacifista não seria poupado pelo sistema racial norte-americano.

Horas depois do assassinato o povo norte-americano radicalizou, as revoltas se espalharam por Washington DC, Chicago e Baltimore, e em cidades de menor dimensão como Flint, no Michigan; Hartford, no Connecticut; Jackson, no Mississippi; e em muitas outras. Durante as semanas seguintes, os negros sublevaram-se numa convulsão nacional sem precedentes que se propagou para mais de 120 cidades em 28 estados norte-americanos.

Nem a polícia e a guarda nacional foram capazes de conter a insurreição e o presidente norte-americano Lyndon Johnson colocou mais de 50 mil soldados do exército nas ruas. Uma medida inédita desde a guerra civil. Foram mais de mil incêndios só em Washington DC, onde o presidente e outros responsáveis da Casa Branca podiam ver das suas janelas a fumaça que se alastrava, uma cena de guerra. Oficialmente foram contadas 46 mortes e 20 mil feridos, mas ninguém sabe ao certo quantos negros foram assassinados pelas forças de repressão. 

Distúrbios de Los Angeles | 1992 – Uma guerra dentro dos EUA

Alguns afirmam que os distúrbios de Los Angeles foram os mais radicais das quatro revoltas, apesar de não se espalharem pelo país. Ela começa em 29 de abril de 1992 por conta da absolvição dos policiais que espancaram Rodney King e da morte da menina Latasha Harlins em 16 de março do ano anterior. Na noite de 3 de março de 1991 quatro policiais param o carro de Rodney King a pretexto de que ele estaria dirigindo em alta velocidade. Após tirarem-no do veículo eles começam a espancá-lo violentamente com cassetetes. As imagens, filmadas por um cinegrafista amador, acabaram sendo divulgadas nos jornais gerando a revolta de milhares.

Muitas pessoas entrevistadas pelos jornais afirmaram que essa era a maneira da polícia de Los Angeles agir com pessoas negras, e os próprios comentários dos policiais conversando por rádio naquele dia confirmaram tal fato. O julgamento dos policiais fora marcado para dali a um ano. Mas antes de entrar nos detalhes do julgamento vamos falar um pouco sobre outro caso que também revoltou a comunidade negra.

Latasha Harlins era uma menina de 15 anos, que fora morta pelas costas com um tiro na nuca por uma comerciante coreana, Soon Ja Du. Apesar das filmagens das câmeras de segurança a juíza Joyce Karlin, em 15 de novembro de 1991, condenou Soon a cinco anos de liberdade condicional e 400 horas de serviço comunitário. No documentário LA 92 é possível ver a revolta dos negros com a juíza. Em uma das entrevistas um homem negro fala que por muito menos estaria preso. O caso, apesar de não ser o estopim das revoltas, acabou criando muita indignação, o que se somaria com o resultado do julgamento dos policiais do caso Rodney King.

O julgamento dos policiais que espancaram Rodney King polarizou Los Angeles. Com medo do resultado, eles foram transferidos para a jurisprudência em Simi Valley, no condado vizinho de Ventura onde havia predomínio de jurados brancos. A manobra acaba dando certo e os quatro policiais são inocentados. A desolação das comunidades negras é evidente.

Aos poucos a inconformidade vai dando lugar a uma revolta que em poucos dias toma conta de toda Los Angeles. Carros e lojas são queimados e a polícia é expulsa e suas viaturas também queimadas. Milhares de pessoas vão às ruas em uma cena que lembrava uma guerra ou revolução. Os nomes de Rodney King e Latasha Harlins são escritos em diversos locais.

Apesar de começarem com os negros os protestos acabam atraindo latinos e brancos norte-americanos que apoiam a causa. Diversas reivindicações são levantadas, aquele era o cume de anos de repressão, descaso, subempregos e jornadas de trabalho de até 80 horas semanais. Houve também um enfrentamento com os coreanos, mas era um sintoma secundário do racismo estatal. O saldo final foi de 63 pessoas mortas, 2.383 feridas e mais de 12.000 presas. De forma geral, o que podemos concluir é que os negros sendo pacíficos como Martin Luther King, ou radicais como Malcom X, isso não muda a violência do Estado contra eles, e o povo negro norte-americano entendeu o recado.

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