José Genoino e o fim das ilusões

Como sustentar a naturalidade das instituições com a perseguição e prisão infame a que foi submetido, posteriormente abatendo também Lula?

por Diogo Fagundes

Um vídeo do Genoino dando um pescotapa verbal na esquerda brasileira e, em particular, no PT, foi bastante divulgado e comentado na semana passada — ainda bem. Uma crítica dura mas com um tom “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” para não cair na melancolia deprê.

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O mais interessante, no entanto, é a trajetória muito singular do cearense. Ela fornece material pra muita reflexão.

Genoíno ocupou sucessivamente os papéis de esquerda, depois direita, para então retornar à esquerda novamente, dentro das coordenadas políticas internas à esquerda brasileira. Ele era um dos constituintes mais radicais do PT, tornando-se depois a expressão mais visível da crítica ao socialismo e aos cânones do marxismo-leninismo dentro do partido, um social-liberal aberto e bastante coerente. Agora cumpre novamente o papel de agitador radical.

No período da ditadura militar, após participar da Guerrilha do Araguaia e ser torturado (em exposição pública) e preso por uns anos, Genoino fez parte da chamada “esquerda do PCdoB”. Alguns quadros importantes da esquerda brasileira vieram daí, incluindo Wladimir (o coordenador nacional da campanha de Lula em 89) e Valter Pomar. Era uma turma descontente com os rumos do partido de João Amazonas que resolveu embarcar no PT.

Junto com outros, compôs um racha do PCdoB chamado de PRC (Partido Revolucionário Comunista), uma organização clandestina que encontrou guarida no PT.

O PRC foi uma das mais interessantes e originais organizações da esquerda brasileira. Por ela passaram Tarso Genro, Aldo Fornazieri, Chico Mendes e até Marina Silva. O principal intelectual, no entanto, era o irmão de Tarso, morto precocemente, Adelmo Genro Filho.

A organização tinha fama de “cabeçuda” e metida a debates intelectuais: não à toa, quando da vinda do filósofo francês Alain Badiou para o Brasil, foi Ronald Rocha, um ex-integrante da organização e membro da direção nacional do PT, que resolveu encará-lo para um debate.

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Consistia, portanto, em um agrupamento altamente intelectualizado — editavam uma revista teórica de nível bem alto, com pendor para a filosofia — que professava um marxismo-leninismo bastante único. Criticavam duramente Stálin e o “stalinismo” como deturpações, a partir de um legado que incluía o maoísmo (presente desde os tempos de jovens no PCdoB) e uma absorção de Gramsci. No entanto, não eram apenas um bando de nefelibatas: tinham expressão de massa e capacidade eleitoral, como atestam as vitórias de Maria Luíza Fontenele em Fortaleza (primeiro prefeito do PT em capitais) e os sucessivos cargos legislativos ocupados pelo combativo e popular deputado Genoino.

Para vocês terem noção daqueles tempos, basta dizer que Genoino, um constituinte, em pleno Roda Viva, diz, sem meias palavras, que a luta armada ainda não estava descartada no país! A visão de que a revolução era uma possibilidade colocada após as Diretas Já e o ciclo de ascensão de movimentos populares os colocava muito à esquerda do núcleo duro do PT.

Com a queda do muro e o fim da URSS – que taxavam de “social-imperialista”, no esquema maoísta bem antissoviético —, a organização racha entre uma ala que busca rever o passado ideológico e se comprometer integralmente com a democracia liberal e o capitalismo, chegando ao ponto até de questionar não apenas Lênin mas o próprio marxismo como um todo (alguns foram mais longe e colocaram até Hegel e Rousseau no banco dos réus) e outra, bem menor, que defendia a manutenção do ideário e programa revolucionários. O contexto deste debate é muito interessante: para quem se interessar vale a pena pesquisar como o tema do socialismo foi um vetor de polêmica no 1º Congresso do PT, em 1991.

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Nosso Genoino fez parte da primeira ala, assim como Tarso Genro. A conversão foi integral e sincera: PT não tinha que buscar hegemonia, isto faz parte do passado autoritário do leninismo; a mídia, em especial a Folha de São Paulo — com quem Genoino tinha ótimas relações e onde publicava vários artigos, para a raiva de seus colegas no partido — era o espaço de debate saudável de ideias na opinião pública; o Estado não tinha caráter de classe, era uma instituição neutra; não cabia fazer oposição radical ao PSDB, aliás o PT deveria ser até próximo dos tucanos em várias ocasiões, por isto era preciso defender certas privatizações e reformas do aparelho administrativo encampandas pelo FHC.

O ex-radical e deputado de conduta e capacidade invejáveis — tinha fama de saber de cor o regimento do Congresso e atuar lá como poucos — foi longe ao ponto de pressionar para que o PT abandonasse até a mesma a referência genérica ao socialismo em suas resoluções e estatutos, no contexto do II Congresso do PT, em 1999.

Até que veio a avalanche do chamado mensalão. O escândalo de corrupção foi pegar justamente um dos homens mais honestos e defensores da “ética na política” do partido — não à toa sua popularidade na classe média. É uma das mais tristes, injustas e irônicas quedas da política brasileira: Genoino, presidente do PT à época, nunca foi da “operação financeira” da máquina partidária e não só não enriqueceu na política — a casa modesta no Butantã é um atestado disto — como também tinha hábitos moralistas completamente estranhos ao habitat parlamentar, a ponto de negar receber emendas parlamentares para não reforçar a lógica clientelista do “toma lá, dá cá”.

Temos, depois de tantas turbulências na política brasileira, uma terceira versão de Genoino: uma retomada do passado. Numa palestra em que ajudei a organizar assisti a um emocionado Genoino citando Mao Tsé-Tung, falando que era um homem comunista, defendendo a herança do legado do marxismo e pedindo por um partido comprometido com a superação do capitalismo. Giro de 180 graus!

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Mas aí entra a questão: qual o motivo de tão radical mudança? Ora, o próprio Genoino explicava: ele era o homem que havia de fato acreditado em toda a ideologia dos anos 90. Não é exagero considerá-lo, de fato, um renegado do comunismo. Mas agora, como sustentar a naturalidade das instituições com a perseguição e prisão infame a que foi submetido, posteriormente abatendo também Lula? Como acreditar que evoluiríamos gradativamente para uma sociedade melhor e mais justa, num clima pacífico e moderado, com a reação tão forte ao petismo, bastante tímido nas reformas mas taxado de bolivariano e comunista por parte dos endinheirados e da imprensa?

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É bastante emocionante ouvir Genoino hoje, um dos homens mais simples e mais cativantes que já conheci pessoalmente. É um emblema da força das ideias e convicções, da capacidade de continuar lutando e contagiando a todos com seu espírito mesmo quando até os mais jovens já se esgotaram. Mas também é um indicador poderoso de como “devemos jogar fora todas as nossas ilusões”, para citar o Mao novamente caro ao velho petista, pois os nossos democratas não hesitam em recorrer à “turma do porão”, aos seus capangas da caserna e do judiciário, quando a democracia se torna vermelha demais.

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