Jornalismo ou propaganda de guerra?

O alinhamento cego da grande imprensa brasileira à campanha dos Estados Unidos contra a Rússia desinforma e cria clima de intolerância xenofóbica

Membros do abertamente nazista Batalhão de Azov marchando em Kiev / edaily
por Ivan Conterno

Um lançador de mísseis blindado do exército ucraniano que corria pelas ruas de Kiev deslizou na pista e passou por cima de um carro com um civil dentro. O fato ocorreu no dia 25 de fevereiro, segundo dia da operação russa na Ucrânia. A apresentadora do Jornal Nacional, Renata Vasconcelos, narrou as filmagens na abertura do noticiário daquele dia dizendo que “um tanque russo muda o percurso para esmagar um carro com um homem que tentava escapar dos invasores”. Os russos, no entanto, nem haviam entrado na capital ucraniana.

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A guerra na Ucrânia opõe fundamentalmente os Estados Unidos à Rússia na disputa por narrativas. Por um lado, o governo russo quer garantias de que as tropas ucranianas, armadas pelos americanos, interrompam o genocídio contra a população russófona nos territórios separatistas do leste e que o país não entre para a Otan, o que fortaleceria os grupos neonazistas integrados oficialmente às forças ucranianas. Os articulistas ocidentais argumentam que as acusações de proliferação de grupos neonazistas na Ucrânia são exageradas e que o país teria autonomia para decidir ingressar na aliança militar liderada pelos Estados Unidos.

Impressiona, no entanto, a ênfase dada pela grande imprensa brasileira ao discurso norte-americano. Pode-se argumentar, e com razão, que qualquer operação militar em outro país é condenável, por infringir os tratados internacionais e colocar a população civil em risco. O argumento seria aceitável, não fosse o descaso dado pelos mesmos veículos às diversas violações ao direito internacional empreendidas pelos Estados Unidos e pelas forças da Otan atualmente, como ocorre na Síria, na Somália e no Iêmen, para não falar de outras inúmeras intervenções no passado recente.

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Ademais, a operação russa, ao contrário de outras guerras em que potências militares estão envolvidas, tem mantido certo cuidado até o momento a fim de não acertar alvos civis. Mesmo assim, a ONU calcula que 549 civis foram mortos e 957 feridos em 14 dias de enfrentamentos. Uma questão complicada, porém, é que o próprio governo ucraniano incentiva que a população civil sem treinamento enfrente as forças de ocupação russas com coquetéis molotov.

Apenas para efeito de comparação, nos dez primeiros dias de invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, foram mortos 3977 civis segundo o Iraq Body Count, levantamento coerente com os dados contabilizados pela ONU de que cerca de 151 mil vidas foram interrompidas violentamente no período entre março de 2003 e junho de 2006 no país. A população ucraniana atual é cerca de 40% maior que a população iraquiana em 2003 e, nos primeiros dez dias, o número de mortes entre civis não chegou a 10% se comparado ao mesmo período durante a invasão no Iraque.

Articulistas de canais de notícias brasileiros vergonhosamente alçam o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky à condição de herói, símbolo de uma luta contra a tirania de Vladimir Putin. Enquanto o mandatário faz vídeos para as redes sociais, seu governo prende opositores e assassina supostos traidores. Um membro da equipe ucraniana que negocia o fim da guerra, Denis Kireyev, foi assassinado no dia 5 de março pelo Serviço de Segurança da Ucrânia, segundo informações do deputado ucraniano Alexander Dubinski. No mesmo dia, Mikhail Kononovich e Aleksander Kononovich, da União da Juventude Comunista da Ucrânia, foram presos e o paradeiro dos jovens é desconhecido desde então.

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Caso alguém se atreva a elucidar os fatores que levaram à intervenção russa, logo será acusado de estar defendendo o governo de Vladimir Putin, um conservador que persegue homossexuais, feministas e opositores de seu governo. Foi o que aconteceu durante a participação na Globo News do historiador Rodrigo Lanhez, que foi achincalhado pelo jornalista Jorge Pontual após a sua fala. Até mesmo Guga Chacra, alinhado à narrativa predominante nessa questão, foi acusado de defender a invasão russa ao apresentar uma análise geopolítica realista sobre as tensões entre as potências militares.

Putin é apresentado como um louco, enquanto os líderes ocidentais, inclusive Zelensky, são apresentados como líderes sensatos. Apresentá-lo como louco é parte da construção de um discurso que evita trazer as motivações de ambos os lados à tona e apenas confunde o público que consome informação. É como se existissem governos que fazem guerras do bem e outros que fazem guerras do mal — e, geralmente, as guerras do bem são as que causam mais mortes e destruição.

Aí também entra o componente racista na cobertura jornalística, quando as notícias tendem a considerar vidas europeias mais importantes que vidas de pessoas em outras regiões. Uma guerra na Europa no cenário atual é uma ruptura das expectativas dos colonizadores do mundo, que imaginam o ambiente natural da guerra na África e na Ásia. A exceção foram as guerras iugoslavas, que se encerram há 20 anos. A intervenção da Otan nos conflitos nos balcãs não sofreu propaganda negativa nem de perto comparável à atual campanha contra a operação russa. Diferente de hoje, também, não havia o antagonismo entre as duas maiores potências nucleares tensionando a região, o que facilitou a atuação das forças estrangeiras.

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Vale lembrar que a disputa pela narrativa é parte da guerra. A cobertura de guerra será, portanto, falha em muitos aspectos, já que os governos blefam constantemente e trilham uma estratégia não confessa. Adotar um ponto de vista diante de um conflito não pode significar, porém, deixar de checar detalhadamente os fatos e distingui-los do que é propaganda de guerra.

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Os Estados Unidos intervêm na Ucrânia pelo menos desde 2014, com apoio político e treinamento para os batalhões que atuam contra a população do Donbas. Não existe um lado pacífico nessa história. A enxurrada de propaganda anti-russa nos noticiários serve mais para arregimentar voluntários para as brigadas mercenárias armadas pela Otan do que para propor uma solução para a crise na região.

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