Já é hora de intensificar os protestos nas ruas?

Protestar, tomando todos os cuidados possíveis, mas tendo em mente que a aglomeração necessária de uma manifestação representa um mal menor diante de todas as crises que explodem no país

Ato contra o governo Chileno em Buenos Aires, em outubro de 2019. Foto: Ronaldo Schemidt
por Alexandre Lessa da Silva

Há duas teses no momento sendo discutidas pela esquerda brasileira e grupos de oposição ao governo Bolsonaro. Pautada principalmente pelo risco de proliferação da Covid-19 e no horror de uma possível contradição no interior de um discurso contrário ao negacionismo defendido pela extrema-direita bolsonarista, a primeira tese é contrária à saída às ruas em grandes manifestações. A segunda, por sua vez, defende protestos ao ar livre contra o maior responsável pela proliferação do vírus, com base na ideia de que há um mal maior que qualquer possível contaminação durante as manifestações.

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Duas teses opostas que paralisam a práxis da esquerda atualmente e não deixam a oposição seguir um único caminho, conforme acontece com aqueles que apoiam cegamente o governo. Entretanto, essa discussão já está prestes a fazer aniversário. No início de junho do ano passado, lideranças do PT já recomendavam a ida às ruas, enfrentando a oposição de outros partidos alinhados, assim como de alguns membros do próprio PT. Já não havia, portanto, unidade entre as esquerdas sobre um direcionamento único a respeito das manifestações. Como a tese da inércia é beneficiada com o conflito, a esquerda manteve-se fora das ruas, na maioria das vezes que teve uma oportunidade para ocupá-las.

Evitando aglomerações, a resistência passou a ser feita através de outros meios. Panelaços e ações virtuais passaram a dominar o dia a dia dos militantes da esquerda. Uso do WhatsApp para marcação de panelaços, críticas ao governo utilizando as redes sociais, abaixo-assinados eletrônicos, sugestões para criação de aplicativos. Foi criado, até mesmo, um “Gabinete do Amor” para ajudar os chamados “militantes pandêmicos”, que figuram entre as tentativas de desestabilizar o governo e defender a democracia, evitando qualquer tipo de aglomeração presencial. Todavia, todas essas alternativas não conseguiram atingir o objetivo desejado, deixando Bolsonaro numa posição confortável para continuar ameaçando o resto de democracia que porventura ainda reste em nosso país.

Enquanto isso, o gado continua com suas manifestações antidemocráticas, uma vez que é incapaz de entender qualquer coisa mais complexa, como a própria noção de “vírus”. Mas, não só é incapaz de um raciocínio um pouco mais abstrato, como também é facilmente manipulado e movido por preconceito, mentira e uma inexplicável fé nas palavras de seu mito. Em função disso, as manifestações bolsonaristas ganham as ruas e, embora menores do que o esperado por seus líderes, fazem barulho no meio de ruas desertas de outros manifestantes.

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O gado não teme a falta de vacina, ele não quer a vacina, seguindo os passos de um ídolo de pés de barro que o alimenta com suas mentiras. Por outro lado, a esquerda clama pela vacina, única resposta verdadeira para o combate dessa pandemia que assola o país e impede a muitos de lutarem com todas as suas forças em defesa das principais causas sociais e contra a injustiça de um governo autoritário. Em virtude disso, uma hipótese precisa ser levantada. Bolsonaro atrasou a vacinação não por incompetência, mas por estratégia política. Sendo essa hipótese verdadeira, a estratégia escolhida foi a de atrasar ao máximo as vacinas, mesmo tendo consciência que isso acarretaria, como aconteceu, a morte de milhares de pessoas e a promoção de uma necropolítica que afetava diretamente a população mais velha e doente, os mais pobres, os negros e os indígenas. Outros, fora dessas parcelas, também morreriam, mas são considerados efeitos ou “danos colaterais” no centro de uma guerra para manutenção do poder.

Aqueles que defendem que ainda não é hora de a oposição ir às ruas também têm como argumento a escalada autoritária de Bolsonaro e suas relações, inclusive afetiva, com as forças de repressão. Isso poderia gerar confrontos entre manifestantes e essas forças de repressão, algo que seria aproveitado por Bolsonaro no sentido de um endurecimento do regime.

Entretanto, não há como combater o bolsonarismo utilizando apenas meios virtuais. É importante sempre continuar lutando nessa trincheira, mas nela há uma vantagem natural da extrema-direita, uma vez que as redes sociais são estruturadas para a construção de um falso mundo, sendo a mentira sempre muito mais eficaz do que a descrição da realidade. Daí, a dificuldade da esquerda de ter sucesso com seu discurso, uma vez que a mentira tem um apelo muito maior aos olhos e ouvidos. Já a verdade está deslocada num mundo de fantasia barata, em que a criação não passa de variações sobre o mesmo tema, produzindo uma verdadeira imaginação de rebanho. Apesar disso, as redes não podem, em nenhum momento, ser esquecidas. A esquerda precisa procurar lutar contra essa natureza perversa e irreal das redes, tentando moldá-las como ferramentas políticas, mas tendo em mente que apenas isso nunca será o suficiente.

E nos outros países?

As forças populares na América Latina já acordaram para a necessidade prática de ir às ruas. Em outubro de 2019, a população chilena começou uma série de protestos contra as políticas neoliberais de Sebastian Piñera. Os povos do Paraguai, Colômbia, Equador, Guatemala e tantos outros também optaram por enfrentar o vírus e lutar por seus direitos. O Brasil, antes do anúncio da pandemia, também foi sacudido por um conjunto de manifestações pedindo a saída de Bolsonaro e a volta a um estado mais democrático. Entretanto, após esse anúncio, a população, em especial aqueles da esquerda, começaram um estado de letargia, o que permitiu um fortalecimento de um governo que busca o autoritarismo e, quiçá, um totalitarismo.

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Timidamente, as manifestações capitaneadas pela esquerda e por setores populares começam a ressurgir. O MTST, que tem entre seus líderes Guilherme Boulos (PSOL) já começou a ocupação das ruas. Cerca de 5 mil manifestantes, em oito estados, protestaram contra Bolsonaro e reivindicando moradia e auxílio emergencial de 600 reais. No Rio de Janeiro, manifestantes do Movimento Nacional das Favelas, em união com vários partidos políticos, tomaram a frente da Cidade da Polícia (CIDPOL), protestando contra a Chacina do Jacarezinho , uma ação policial que, de alguma forma, funciona, dentro da necropolítica vigente, como um aceno para o núcleo duro do bolsonarismo e o fortalecimento de sua base armada, através de um governador que não passa de um fantoche e, em razão disso, atende qualquer desejo do presidente, apesar de poder ser descartado, caso a situação assim favoreça.

Ficar em casa, portanto, já não é mais uma opção, pois o Brasil precisa, o mais rápido possível, de uma mudança total de política, especialmente no âmbito sanitário e econômico. Com Bolsonaro no comando, não há como garantir o mínimo de combate à pandemia e, em função disso, também não há como ter qualquer auxílio social digno. A luta virtual tem seus limites, o que favorece a inércia e, então, a manutenção do status quo.

Ir às ruas é necessário, pois até o isolamento social, agora, só é possível através das ruas. Também a vacina, tão necessária durante essa crise sanitária sem precedentes em nossas vidas, só será garantida através de uma nova forma de governo, aquilo que só se tornará rapidamente possível através de um impeachment.

Mesmo que o impeachment não aconteça, o processo, ou mesmo a luta por ele, é fundamental para enfraquecer a extrema direita na próxima eleição presidencial. Bolsonaro encontra-se acuado pela CPI do Genocídio e pelo posicionamento atual do governo estadunidense, o que dificulta uma reação violenta contra seu próprio povo, ainda mais quando esse povo pede apenas o que está escrito na Constituição, ao contrário de seus partidários que desejam violentá-la.

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A União Europeia fechou a compra de 1,8 bilhão de doses de vacina da Pfizer/BioNTech. Por incrível que pareça, é mais um motivo para manifestações. A população de todos os 27 países que compõem o bloco é de 445 milhões de pessoas, o que garante quatro doses da vacina para cada habitante durante dois anos ou duas doses durante quatro anos. Só há uma explicação para uma compra tão grande, ainda mais quando já se tem uma carteira de vacinas 2,6 bilhões de doses, a expectativa que a pandemia possa durar anos e de que as vacinas, pelo menos aquelas apresentadas até o momento, não ultrapassem o prazo de imunização de um ano. Em março, a Fundação Oswaldo Cruz apresentou uma previsão de dois anos e meio para a vacinação de toda população brasileira acima de 18 anos. Mesmo que o ritmo tenha aumentado, a população adulta levará mais de um ano para ser totalmente imunizada, o que ultrapassaria o prazo de uma nova vacinação, caso a imunização dure somente um ano, acabando com a ideia de que é preciso esperar a vacina para protestar em espaço público.

É preciso, portanto, ir às ruas e protestar em busca de nossos direitos e de um Brasil que respeite seus cidadãos, sabendo que isso só será possível com o afastamento de Bolsonaro do poder. Protestar, tomando todos os cuidados possíveis, mas tendo em mente que a aglomeração necessária de uma manifestação representa um mal menor diante de todas as crises que explodem no país. Esse tipo de aglomeração representa um sacrifício, mesmo assim é menor que o sacrifício diário nos transportes públicos ou locais de trabalho.

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Quanto à contradição no discurso, a esquerda não tem o que temer, uma vez que ela é só aparente e a contradição, enquanto tal, sempre foi amiga da esquerda e um motor para o avanço da história.

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