Hoje Gramsci faria 130 anos

As teses de Gramsci somente foram publicadas integralmente em 1975, e constituem referências basilares da literatura política

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por Coletivo Pensar a História

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Há 130 anos, em 22 de janeiro de 1891, nascia o filósofo marxista italiano Antonio Gramsci. Nascido em uma família de classe média da Sardenha, era um dos sete filhos de Francesco Gramsci e Giuseppina Marcias. Seu pai foi condenado e preso por peculato, deixando a família na pobreza. Ainda criança, Gramsci teve de abandonar a escola e trabalhar para ajudar sua mãe, costureira, a sustentar a família. Concluiu anos mais tarde o ensino básico em Cagliari, onde viveu com Gennaro, seu irmão mais velho, que o introduziu aos estudo do socialismo. Aluno exemplar, venceu um prêmio que lhe concedeu uma bolsa de estudos para cursar literatura na Universidade de Turim, cidade que passava por um rápido processo de industrialização e assistia ao surgimento dos primeiros conflitos trabalhistas. Gramsci passou a frequentar os círculos comunistas de Turim e filiou-se ao Partido Socialista Italiano em 1913.

Ainda em Turim, passou a trabalhar como jornalista, ganhando fama por seus artigos bem elaborados e eruditos publicados no jornal “Avanti!”, órgão oficial do Partido Socialista Italiano. Em 1919, ao lado de Palmiro Togliatti, fundou a revista “L’Ordine Nuovo”, elogiada por Lenin como o periódico mais próximo da orientação política dos bolcheviques, e contribuiu para “La Città Futura”. Nesses veículos, dedicou-se a escrever sobre teoria política e, inspirado pela Revolução de Outubro na Rússia, defendeu a centralidade da ação dos conselhos operários surgidos nas greves de 1919/1920.

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Malgrado sua adesão à Terceira Internacional, o Partido Socialista Italiano seguia fragmentado em vários grupos e insistia em uma política de alianças com organizações e partidos burgueses. Frustrado com a liderança centrista da legenda e seu desinteresse em apoiar a radicalização dos conselhos operários, Gramsci e os militantes ligados ao “L’Ordine Nuovo” se aliaram a Amadeo Bordiga para fundar o Partido Comunista da Itália (PCI). Em 1922, viajou para a Rússia como representante do partido. Durante a viagem, conheceu Julia Schucht, uma violinista que viria a ser sua futura esposa e mãe de seus dois filhos.

A viagem à Rússia coincidiu com o advento do fascismo na Itália e a ascensão de Benito Mussolini ao cargo de primeiro-ministro. Gramsci retornou da Rússia com instruções para articular uma frente única dos partidos de esquerda contra o fascismo, mas a coalizão enfrentou resistência de parte dos correligionários do próprio PCI, ao passo que o Partido Socialista Italiano rejeitou a união por receio de se submeter ao controle de Moscou. Entre o fim de 1922 e 1923, Mussolini iniciou a repressão aos partidos de esquerda e prendeu várias de suas lideranças, incluindo Amadeo Bordiga. Gramsci assumiu então função de dirigente do PCI e foi eleito deputado pelo Veneto na eleição de 1924. Enviou sua família para a União Soviética e passou a viver em Roma, enquanto organizava o lançamento do jornal oficial do PCI, denominado “L’Unità”.

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Em 1926, em meio às disputas políticas do Partido Comunista da União Soviética, Gramsci endereçou uma carta ao Comintern criticando os erros políticos da Oposição de Esquerda e seus líderes, Leon Trótski e Grigori Zinoviev, mas apelando para que Stalin não os expulsasse do partido. A carta foi recebida e lida por Palmiro Togliatti, que decidiu não entregá-la ao destinatário, dando origem a um intenso conflito entre os dois líderes do PCI.

Gramsci foi preso pela polícia política de Mussolini em novembro de 1926 e levado à prisão de Regina Coeli, em Roma. Foi posteriormente condenado a cumprir uma pena de cinco anos de confinamento na Ilha de Ústica. No ano seguinte, foi sentenciado em outro processo a mais 20 anos de detenção. Após passar onze anos na prisão, sua saúde se deteriorou gravemente. O economista Piero Sraffa e acadêmicos da Universidade de Cambridge montaram uma campanha internacional em favor de sua libertação. Gramsci obteve liberdade condicional e passou por tratamento em hospitais de Civitavecchia, Formia e Roma, mas sua saúde já estava muito debilitada. Faleceu em 1937, aos 46 anos.

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Gramsci é considerado um dos grandes filósofos marxistas do século XX, particularmente influente no desenvolvimento do marxismo ocidental. Sua obra é marcada pela independência na interpretação de acontecimentos como a Revolução de Outubro, pelo aprofundamento da noção de Estado e pela criação de conceitos-chave como a ideia de hegemonia cultural, compreendendo que o proletariado deve ocupar simultaneamente as funções de classe dirigente e dominante. Também teorizou sobre a necessidade da criação de alianças para a tomada do poder no Ocidente e estabeleceu o conceito de “bloco histórico”, preconizando que o trabalho da classe revolucionária deve ser, primeiramente, político e intelectual. As teses de Gramsci somente foram publicadas integralmente em 1975, sob o título de “Cadernos do Cárcere”, que constituem referências basilares da literatura política italiana.

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