Greve geral: das fábricas para a quarentena

Enquanto os grandes capitalistas vão agindo sorrateiramente para ganhar dinheiro às custas de uma epidemia, entre os trabalhadores algumas ideias “bóias de salvação” navegam entre os diversos setores. Organizar uma greve-geral é uma dessas ideias, afinal, qual outra linguagem senão a dor no bolso é entendida pelos ricos?

Imagem: FUP
por Alexandre Flach

Pode ter vírus, pandemia, gente morta nas ruas de lugares que não levaram a sério o isolamento, como no Equador, não importa: Bolsonaro e sua turma só pensam mesmo no lucro dos bancos e das grandes empresas. Mas no mundo inteiro os trabalhadores se organizam para parar tudo.

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E se for necessário, também para tomar o controle das fábricas e produzir respiradores, máscaras, material de proteção para os trabalhadores da saúde, material sanitário e hospitalar. É a chamada “reconversão industrial”, onde a fábrica muda a sua produção para o que realmente importa agora.

Europeus defendem a paralisação

O IndustriALL Global Union, sindicato global de trabalhadores da indústria, está orientando todos os seus filiados para parar toda a produção imediatamente. Eles têm sede em Genebra, na Suíça, e representam cerca de 50 milhões de trabalhadores em 140 países. Para os companheiros do IndustriALL, se o empresário não aceitar por negociação que os empregados façam o isolamento, e isso sem perder empregos ou diminuir salário, a única solução é a greve. Na Itália, por exemplo, os trabalhadores tiveram que partir mesmo para a luta. 

Em março, quando eles estavam na mesma fase da pandemia que o Brasil está passando agora — com a curva de mortes começando a subir e ainda fazendo uma quarentena de mentira — os trabalhadores perceberam o perigo e começaram a fazer greves e protestos muitas vezes sem nem esperar a decisão de algum sindicato local, de forma espontânea. Fábricas de metais, siderúrgicas, químicas, têxteis, empresas aeroespaciais levaram avante uma verdadeira rebelião operária contra a Cofindustria — equivalente italiana da Fiesp, Fiemg etc — que não queria parar a produção e os lucros dos grandes empresários.

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No Brasil, os trabalhadores também querem parar

Os petroleiros já defendem uma greve contra as ameaças de demissão e de punições por faltas na pandemia. Em nota da FUP, afirmaram que “enquanto a diretoria e as gerências da Petrobrás estão de quarentena, no aconchego de seus lares, os petroleiros devem manter a produção a qualquer custo”. O sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista está divulgando seu telefone (11 97407-3791) para denúncias, para quem estiver sendo obrigado a trabalhar em atividade não-essencial.

Os metalúrgicos de São José dos Campos e região do Vale do Paraíba/SP defendem a greve geral, e já paralisaram 44 fábricas da região, reivindicando a liberação de todos os trabalhadores, com licença remunerada e estabilidade para todos. Luciene da Silva, diretora do sindicato, afirma: “a verdade é que não podemos esperar do governo federal qualquer medida em defesa da classe trabalhadora. Só nossa luta pode garantir a preservação de nossa saúde”.

Greve Geral no Brasil

Enquanto não sair uma vacina ou remédio comprovadamente eficaz contra a pandemia, só o isolamento protege a vida das pessoas. Além disto, é hora de o povo mostrar a sua força e parar as empresas. Esse é o grande poder do povo trabalhador. Quando a produção, o comércio e o transporte param, isso dói no bolso dos grandes empresários. E não tem dúvida: essa é a única “mensagem” que eles entendem. 

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Com tudo parado, o poder de barganha do povo cresce. Aí sim é possível pressionar empresas, bancos e governo para manter o emprego de quem está empregado e colocar dinheiro no bolso do trabalhador desempregado ou que hoje depende de aplicativo para sobreviver.

E isso leva ao terceiro ponto: o dinheiro que sustenta o pequeno e médio comércio não vem dos grandes empresários, vem do bolso do trabalhador. Para a padaria do bairro não fechar as portas, quem mora lá é que precisa ter dinheiro na mão para comprar o pão. Se o desempregado ficar sem nenhum dinheiro e se não proteger o emprego e o salário de quem está empregado, o pequeno e o médio empresário também vão quebrar. 

E como é o pequeno e médio quem emprega a maior parte do povo, uma quebradeira geral deste setor vai produzir a uma onda enorme de desemprego, e isto vai levar a mais e mais quebras. É uma situação muito pior do que um banco falir, sem dúvida.

Enfim, a pressão de parar tudo pode levar à concretização de reivindicações mais amplas, como locais para abrigo do pessoal das favelas ou os moradores de rua que muitas vezes não têm condições de se isolar, a melhoria da rede de proteção pública de saúde, a aprovação da renda mínima cidadã e do imposto sobre grandes fortunas, e assim por diante.

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Quem produz a riqueza?

Não tem nada melhor para mostrar o poder do povo do que uma boa greve. Quando o povo fica muito “comportado”, só obedecendo ordens, trabalhando de cabeça baixa, e não mostra a sua força, os grandes empresários passam a se achar os donos do mundo e destroem, em pouco tempo, os direitos que várias gerações de trabalhadores lutaram muito para conquistar.

Mas em momentos como este, em que eles estão fracos perante um inimigo mais forte que veio da própria natureza, é hora do povo mostrar que a sua força é ainda maior do que a dessa meia dúzia de ricaços que acham que podem tudo. 

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Uma greve geral agora vai deixar claro para esses banqueiros falidos e empresários exploradores que quem deve mandar na sociedade não é o dono do dinheiro, que não produz nada, mas sim a classe que com sua mão e com o seu suor produz a comida, a roupa, a casa, o remédio, a tecnologia, a infraestrutura, enfim, tudo o que existe: a classe trabalhadora.

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