Fugir, confundir, sabotar: a bolha e o rizoma

A estranha estrutura que frequentemente é chamada de “bolha bolsonarista” consegue unir elementos de vários nichos

por Alexandre Lessa da Silva

Em todas as partes são encontrados conteúdos de mídia, das mais diversas formas, apontando como a bolha deve ser furada. Algumas vezes, essa bolha é aquela da esquerda. Outras, é a bolsonarista. Todavia, a questão central sempre diz respeito ao furo da bolha como estratégia de combate à ideologia de extrema-direita que governa o Brasil. Estratégia essa que não será adotada aqui.

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Bolhas ideológicas, nas palavras de Manuel Castells, são “espaços de comunicação pré-determinados por afinidade”. O risco que se corre, segundo Castells, é a adoção de uma Weltanschauung solipsista, em que o mundo é visto apenas como meu mundo. Diferentemente de Wittgenstein, que aponta com isso que os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo, o sociólogo espanhol aponta para a criação de uma espécie de alteridade extrema, em que o outro é uma espécie de alienígena e, por isso, pode ser destruído, numa escalada de violência construída através da desconsideração do próximo como pessoa. Reforçadas no mundo virtual por algoritmos específicos, também chamados de filtros bolhas, que são capazes de interpretar o que é postado e, assim, alimentar o internauta com aquilo que suas configurações indicam, a internet acaba por virar o auge desse comportamento.

Apesar dessa interpretação dos fatos ser bem tentadora para facilmente analisar a realidade, ela falha em vários pontos. A metáfora da bolha não serve para explicar o que acontece no mundo real ou virtual. Não há apenas uma bolha que cresce  formada por pessoas que dividem as mesmas ideias ou pensamentos semelhantes, não é assim que deve ser descrito.

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Ao examinar, por exemplo, aquilo que chamam de “bolha bolsonarista”, o que se encontra é um conjunto de relações entre grupos que podem ter muito pouco ou, até, nada em comum. São grupos que funcionam e pensam de forma separada. Ainda assim, por algum critério ideológico, ou através de alguma forma discursiva que não precisa ser necessariamente verdadeira, acabam se relacionando. Um relacionamento numa espécie de rizoma, não necessariamente deleuziano.

Sem direção clara e definida

Esses grupos agem como uma espécie de unidade visando um determinado objetivo. Eles também são responsáveis pelo isolamento de outros grupos, enfraquecendo sua relação com os demais. Indubitavelmente, as relações que formam essas estranhas estruturas não são espontâneas e muito menos casuais.

Há todo um direcionamento, já demonstrado pelo estudo dos algoritmos utilizados pelas redes sociais e pela utilização de pessoas chave na mídia tradicional, para que essas relações se dirijam sempre para um só objetivo. Como ocorre com os bonsais, plantados e cultivados para ser a réplica em miniatura de uma árvore natural. A estrutura desses grupos é cortada, orientada e castrada para seguir sempre a orientação daqueles que a manipulam.

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Dessa forma, a estranha estrutura que frequentemente é chamada de “bolha bolsonarista” consegue unir antissemitas e aqueles que idolatram Israel. Une misóginos e mulheres preocupadas com os chamados “valores familiares”. Além de neoliberais e defensores de um estado grande e forte, militares, responsáveis pelo fim do Império, e monarquistas, assim como muitos outros grupos com pouca ou nenhuma coisa em comum.

O segredo, portanto, não é furar a bolha bolsonarista ou tentar convencer os membros dessa bolha de que sua escolha foi errada, até porque a grande maioria é incapaz de ser afetada pelo poder da argumentação racional. Deve-se, portanto, buscar secar esse rizoma, evitar que corra qualquer tipo de seiva entre suas partes e, depois, seccioná-lo.

A estratégia

O bolsonarismo, como mostra uma das últimas pesquisas, fica na casa de 25% dos eleitores. Caso a esquerda consiga isolar esse grupo repleto de contradições, haverá um campo fértil para que possa crescer. Todavia, só há uma fórmula para esse crescimento. Conseguir estabelecer relações com outros espectros políticos e sociais. Essas relações não precisam ser necessariamente partidárias, mas deverão abrir espaço para o diálogo, para que as formações discursivas tenham chance de interpelar os sujeitos de nossa sociedade. Daí a importância de Lula, por exemplo, conceder uma entrevista para Reinaldo Azevedo. Isso faz com que seu discurso abra uma nova ligação com um público que, em muitos casos, não queria nem sequer ouvir seu nome ou do PT.

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Ao final, essa estratégia pede um desmonte do rizoma bolsonarista, demonstrando a exclusão que um grupo representa para outro. Assim, judeus, mesmo pertencendo à elite econômica, não podem ficar ao lado de antissemitas, mulheres não podem dar as mãos a misóginos, todo brasileiro legítimo, chamado de impuro e inferior por grupos que defendem o “poder branco”, não pode ficar lado a lado com racistas.

Evidentemente, a parte final dessa estratégia pede um discurso que demonstre como cada um desses indivíduos é excluído pelo bolsonarismo, transformando em uma espécie de marca, de corte, que possibilite cada pessoa sentir na pele a dor dessa exclusão, já que ela é verdadeira e acontece a cada dia.

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A beleza dessa estratégia é que ela é uma forma de argumentar, dialogar e se relacionar extremamente verdadeira. Não é preciso mentir, caluniar, formular fake news ou apelar para qualquer outro tipo de trapaça. É simplesmente falar a verdade, mas sabendo como falar e, principalmente, agir.

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