Folha fez 100 anos com corpinho de 64

Frequentemente a Folha busca se apresentar como isenta e moderada, este é um bom momento para recordar o apoio do jornal à ditadura e seu legado pernicioso na vida nacional

por Coletivo Pensar a História

Ontem, 19 de fevereiro, completaram-se 100 anos de existência da Folha de S. Paulo. É uma data oportuna para relembrar o apoio do jornal à ditadura militar. Em 21 setembro de 1971, veículos pertencentes ao jornal Folha de S. Paulo são incendiados por opositores da ditadura militar brasileira. O ataque aos veículos foi uma reação à colaboração de Octávio Frias de Oliveira, proprietário da Folha, com os órgãos de repressão do regime militar. Conforme apurado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), Octávio Frias de Oliveira foi um dos financiadores da Operação Bandeirantes (Oban) — um centro de informações mantido pelo regime militar, responsável por capturar, torturar e assassinar os opositores da ditadura.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

O relatório da CNV também aponta que veículos pertencentes à Folha de S. Paulo eram utilizados para transportar opositores do regime militar até as dependências da Oban ou do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), onde eram então torturados e assassinados.

Octávio Frias de Oliveira era amigo pessoal do delegado Sérgio Fleury, apontado junto com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra como comandante das operações de repressão, tortura, execução e ocultamento de cadáveres de militantes contra a ditadura. Além de entregar seus funcionários opositores do regime aos órgãos repressores, o dono do Grupo Folha costumava colocar policiais infiltrados na redação dos jornais do seu conglomerado e contratava jornalistas ligados ao regime militar, mantendo uma linha editorial subserviente aos interesses da ditadura.

Leia também:  Dia 29 é dia de retomar as ruas

Testemunhos

Publicado por um colegiado de onze especialistas em dezembro de 2014, após três anos de investigações, diligências técnicas e perícias, o relatório da Comissão da Verdade confirmou o que já havia sido apontado por um ex-agente da ditadura — o delegado da Polícia Civil Cláudio Guerra, autor do livro Memórias de uma Guerra Suja e ex-funcionário do Serviço Nacional de Informações (SNI), que afirmara ter visto inúmeras vezes o dono da Folha visitando as dependências do DOPS e que o publisher era amigo pessoal do torturador Sérgio Fleury. Também endossou as informações que haviam sido reveladas pela pesquisadora Beatriz Kushnir no livro Cães de Guarda e os depoimentos de militantes de esquerda torturados pelo regime, como Alípio Freire e Ivan Seixas, que afirmam ter visto em diversas oportunidades os carros da Folha sendo usados por agentes da repressão.

O apoio servil da Folha ao regime militar foi fartamente recompensado. Apadrinhada pela ditadura, a empresa passou a receber diversos incentivos financeiros e uma enxurrada de verbas governamentais em publicidade. Os investimentos permitiram a expansão e a renovação tecnológica do conglomerado. No fim da década de 60, a Folha já era um dos jornais de maior circulação paga do Brasil. Nos anos 70, o jornal não poupava elogios aos ditadores. Em um editorial de 1974, por exemplo, afirmava que o general Ernesto Geisel estava “construindo uma grande nação, próspera e coesa, generosa e justa”. Ainda mais constrangedoras eram as matérias enaltecendo a condução do Ministério da Fazenda por Delfim Neto durante o período do “milagre brasileiro”, bem como as tentativas de relativizar o fechamento do Congresso Nacional em 1977.

Leia também:  Domésticas: ainda os mesmos alojamentos de 4m² (no Brasil)
Imagem: reprodução / Facebook

Reciclando a imagem

No começo dos anos oitenta, a crescente pressão pela redemocratização, a deterioração galopante dos indicadores sociais e o fracasso do projeto econômico apontavam para a inviabilização do governo militar. A Folha resolveu então se adiantar à queda do regime, desvencilhando-se de sua imagem de apoiadora da ditadura e encampando a bandeira das Diretas Já. A Folha propunha a unidade das classes dominantes em torno de um novo projeto, igualmente calcado no liberalismo econômico, na defesa do modelo agroexportador e na submissão da agenda nacional ao capital estrangeiro, mas sob a aparência da institucionalidade democrática.

Malgrado a nova fachada, a natureza antidemocrática da empresa continuava a transparecer em momentos-chave, como ocorreu quando o jornal se opôs ao fim do bipartidarismo, insistindo em um modelo político onde o poder fosse alternado entre a ARENA e MDB. A Folha também criticou fortemente a Constituição de 1988, por considerar que os novos direitos assegurados pela Carta Magna conduziriam o país “ao atraso econômico, por defender a autarquização e o estatismo”.

Um legado nefasto

A Folha de S. Paulo detém há décadas o título de jornal de maior circulação do Brasil. O Grupo Folha, mantenedor do periódico, é administrado pelo herdeiro de Octávio Frias de Oliveira, o bilionário Luiz Frias. A empresa engloba, além da Folha de S. Paulo, o portal de internet UOL, as editoras Publifolha, Plural e Três Estrelas, a gráfica Transfolha, o instituto de pesquisas Datafolha e a empresa de serviços financeiros PagSeguro. O faturamento anual do conglomerado é superior a 2.7 bilhões de reais. Luiz Frias é um dos homens mais ricos do Brasil, com uma fortuna pessoal estimada em 3 bilhões de dólares — aproximadamente 15 bilhões de reais.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

Vez ou outra, a Folha continua revelando sua face reacionária, oculta sob o véu do discurso institucional de defesa da “imparcialidade”, da “pluralidade” e do “apartidarismo” — como se viu no caso do editorial em que o jornal chamou o regime militar de “ditabranda”, ou quando publicou em primeira página uma ficha policial falsa de Dilma Rousseff. E assim como fez nos anos oitenta, ela continua simulando um suposto espírito cívico, encampando iniciativas vazias, pedindo que se “use amarelo pela democracia”, enquanto publica editoriais insinuando a necessidade de união das forças políticas em torno da candidatura do protofascista Sérgio Moro, vendido como a solução para a corrosão dos pilares institucionais do sistema que ele mesmo atacou. A única certeza é que tanto a empresa como seus donos, como bons bilionários que são, jamais responderão pelos crimes, torturas e assassinatos que financiaram durante a ditadura militar.

Deixe uma resposta