Fogo e revolta nas ruas: pra onde vai a luta popular?

Como explicar o recuo de movimentos que colocam o poder em xeque no mundo inteiro mas esfriam gradativamente até a restauração plena da “normalidade”? Confira nesta série d’O Partisano

por Alexandre Flach

Multidões com sangue nos olhos. Alvos fundamentais da burguesia sistematicamente atacados. Bancos, corporações, meios de comunicação, repressão policial, propriedade privada e o próprio Estado, tudo lançado às fogueiras de poderosa rebelião popular. Para muitos, este é o único caminho viável para resolver de vez os enormes problemas que pesam sobre todos nós. Fome, miséria, violência policial, risco permanente para alguns, dura realidade para a maioria. E isso sem falar do racismo, do machismo, da intolerância religiosa, política e sexual. Ver a vida passar sem perspectiva de nada, e por aí vai.

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Uma rebelião que se transforme em revolução. Uma revolução que destrua por completo o poder opressivo da grana, responsável por essa vidinha em que a exploração brutal é anestesiada por pílulas de consumismo. Fogo nas ruas que libere todo o poder popular para que ele, por suas próprias mãos, construa uma nova sociedade, em que todos cuidem de todos sem ter que gerar lucro nem acumulação de dinheiro para ninguém no processo, por isso mesmo capaz de voos bem mais altos que a nossa, permitindo-nos ser muito mais do que essas pessoas medrosas, limitadas, isoladas, alienadas, patologicamente individualistas, que nos tornamos quase inevitavelmente. Doentes não só por conta de uma grave pandemia, como agora, mas pela epidemia crônica de depressão e solidão.

Poderosos acuados

O melhor é que estamos vendo essa rebelião popular acontecendo nos EUA, e vimos acontecer no Chile e na França, tendo chances de contagiar o Brasil de uma hora para outra. Mas o problema é que o povão vai para a rua, cria uma mobilização imensa e poderosa, coloca de joelhos o poder da burguesia, chega a mandar até chefe do maior poder militar do planeta para um búnquer, mas depois os dias vão passando, o processo começa a girar em círculos, passeatas sucedem passeatas, as coisas vão gradualmente esfriando, até tudo se esvaziar e a vida voltar ao “normal”. 

E isso quando não acontece o que houve aqui em junho de 2013, que na verdade ninguém sabe definir direito nem mesmo o que aconteceu. A esquerda mais moderada e próxima do PT em geral vê ali, desde o princípio, apenas e tão somente o início do golpe. Para grupos mais radicais, foi um vacilo da esquerda que deixou uma legítima revolta popular cair no colo da direita. A única certeza é que o Brasil segue não sendo um país para iniciantes.

E notem: são rebeliões de imenso poder, que mostraram com toda a clareza força popular que dá e sobra para derrotar o poder central burguês, até com alguma facilidade. Nós vemos o povo rapidamente colocar de joelhos as forças de repressão da burguesia, reduzida à sua natural impotência diante da força das multidões. Mas ainda que existam vitórias pontuais, como o recuo ou adiamento da reforma previdenciária na França ou a promessa de instauração de uma constituinte no Chile, a burguesia sempre retoma o seu posto de dominância, a ordem capitalista ressurge e a velha sociedade se perpetua.

O que está parando as massas?

E aí é inevitável uma enorme inquietação: o que está parando estas massas e fazendo-as voltar à sua vidinha miserável de sempre depois de elas terem experimentado, na prática, o seu imenso poder, sua capacidade óbvia de colocar abaixo a força de repressão do Estado burguês, e de, por isso mesmo, terem visto por seus próprios olhos os caminhos livres para tomar fábricas, meios de comunicação, meios de distribuição, a produção de energia, em suma, o poder integral sobre a própria sociedade, e em última análise, sobre suas próprias vidas? 

E pior ainda: que fragilidade é esta que torna movimentos tão poderosos suscetíveis a uma tal  degradação das pautas a ponto de transformar forças de fato revolucionárias em movimentos reacionários, fascistas até, como aconteceu no Brasil, levando inclusive a entrar em contradição consigo mesmo e suas próprias organizações, como aconteceu naqueles absurdos episódios de “abaixar bandeiras”?

Certo é que poderíamos continuar a nos contentar com explicações ocasionais e certezas dogmáticas, limitando toda a discussão a simples ações de infiltrados, de agentes do imperialismo ou à dominância ideológica da burguesia, “disputa de narrativa”, para usar uma expressão mais gourmet.

Mas tudo indica que a questão é mais complexa e o buraco é mais embaixo. O problema não se limita a simplesmente apontar agentes ocasionais. Precisamos compreender essa contradição grotesca entre o imenso poder de um povo, que faz recuar até os mais poderosos meios de repressão da burguesia, chega a colocar “de quatro” o poder concreto que o sistema tem de nos coagir, mas até mesmo uma ridícula “disputa de narrativas” é capaz de fazer o serviço sujo que soldados, armas, balas e canhões foram incapazes de realizar.

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Sim, partisanos, tem um papo bom aí. E quando aparece uma boa e longa conversa, dessas que justificam a existência dos botecos e cervejarias espalhados pelos quatro cantos do planeta, é que O Partisano produz mais uma de suas séries. Bora lá! Da rebelião à revolução: quem é que vai segurar essa bandeira?

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