Facebook contrata assessor de imprensa da OTAN

Está cada vez mais difícil distinguir onde termina o deep state e onde começa o Quarto Poder. A transferência de Ben Nimmo da OTAN para o Facebook é apenas um exemplo

por Alan Macleod para o Mint Press New, com tradução de Danilo Matoso

Ben Nimmo, ex-assessor de imprensa da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e atual membro sênior do Atlantic Council, anunciou que foi contratado pelo Facebook para “liderar uma estratégia global de threat intelligence contra operações de influência”. Nimmo mencionou especificamente a Rússia, o Irã e a China como ameaças à plataforma.

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Seu anúncio foi saudado positivamente por diversos diretores da OTAN, e não tanto por outros. Para o repórter investigativo Max Blumenthal, “é mais censura a caminho, já que agora vai para a Big Tech o antigo assessor de Imprensa da OTAN que se tornou um ‘pesquisador’ financiado pelo Pentágono, que marcou pessoas reais como bots [robôs] russos e espalhou desinformação para associar Jeremy Corbyn às Medidas Ativas russas”.

O passado questionável de Nimmo levanta dúvidas se sua influência nas Timelines de 2.8 bilhões de usuários do Facebook seria um passo positivo para um intercâmbio de informações livre e aberto.

“Agentes de desinformação”

Em 2019, por exemplo, o líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, revelou documentos do Partido Conservador mostrando as negociações que o governo tivera com os Estados Unidos sobre a privatização do Serviço de Saúde Nacional (NHS). A somente dois dias das eleições gerais no Reino Unido, o escândalo poderia ter derrubado governo, levando ao poder o governo mais antiguerra e anti-establishment da história do país. As grandes corporações de imprensa trabalharam intensamente para manipular as notícias, e Nimmo foi uma peça-chave na operação, anunciando imediatamente — sem provas — que os documentos “se parecem muito com uma operação Russa”. Sua suposta opinião de especialista transformou a história em “A ligação de Corbyn com a Rússia” ao invés de “Conservadores privatizam o NHS em segredo”. O trabalho de Nimmo auxiliou na vitória eleitoral dos Tories [membros do Partido Conservador] e mandou Corbyn para escanteio.

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Isso para alívio do Atlantic Concil de Nimmo, que havia estigmatizado Corbyn como o “Cavalo de Troia russo” – alguém conduzindo a agenda de Moscou no estrangeiro. Um general do exército britânico tinha opinião similar, afirmando que, se Corbyn vencesse a eleição, os militares reagiriam. O secretário de Estado Mike Pompeo também disse que o governo dos Estados Unidos estava “fazendo o seu melhor” para evitar que um esquerdista radical chegasse ao poder no Reino Unido.

Nimmo tem sido extremamente abrangente quanto ao que classificou como agentes de desinformação russos. Em 2018, sua pesquisa identificou o usuário do Twitter @Ian56789 como um “troll do Kremlin”. Na verdade, o usuário, Ian Shilling, era um aposentado britânico — conforme a emissora Sky News pôde confirmar com facilidade, entrevistando-o ao vivo e absurdamente perguntando-lhe se ele era realmente um bot russo ou não. Apesar de ser claramente um ser humano de carne e osso, a conta de Shilling foi depois ainda assim excluída.

Anteriormente, Nimmo também insistiu que Ruslana Borishova seria um influente bot Russo. Na verdade, ela é uma pianista internacionalmente conhecida, conforme pode-se verificar com uma simples busca no Google. Esse tipo de comportamento não é bom presságio para os críticos da política externa ocidental, que têm enfrentado constante assédio, suspensão ou total banimento de redes sociais.

Golpe belicista

O Atlantic Council começou como um ramo da própria OTAN e mantém estreitos vínculos com a aliança militar, continuando a receber recursos de governos ocidentais e compradores de armas. Sua diretoria está cheia até o topo de veteranos políticos norte-americanos, como Colin Powell, Condoleezza Rice ou Henry Kissinger. Também constam na direção nada menos que sete ex-diretores da Agência Central de Inteligência (CIA) e diversos generais de alto escalão, como Jim “Mad Dog” Mattis, Wesley Clark, e David Petraeus.

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Nos últimos anos, empregados do Atlantic Council penetraram fundo nas companhias de Big Tech e de redes sociais. Em 2018, anunciou-se uma parceria com o Facebook para auxiliar na curadoria das Timelines dos usuários de todo o mundo, adquirindo poder considerável sobre que tipo de opiniões seriam reforçadas ou invisibilizadas. Um ano antes, Jessica Ashooh trocara o cargo de Vice-diretora de Estratégia do Oriente Médio pelo de Diretora de Políticas no Reddit, o oitavo site mais visitado nos Estados Unidos. Em todo caso, assim como em muitas agências de inteligência, nunca está bem claro se alguém realmente “sai” do Atlantic Council.

Não somente a Rússia está na mira da OTAN. Na última semana, o Atlantic Council publicou um relatório anônimo de 26 mil palavras declarando que seu objetivo para a China seria a mudança de regime e aconselhando o presidente Biden a desenhar uma série de “linhas vermelhas”, cuja ultrapassagem ensejaria resposta militar dos Estados Unidos. Enquanto isso, o chefe do StratCom [Centro de Comunicações Estratégicas da Otan], almirante Charles A. Richard, escreveu que os Estados Unidos devem se preparar para uma potencial guerra nuclear com Pequim.

Maior controle

A escalada militar teve seu reflexo na intensificação de propaganda de guerra online, em que o os Estados Unidos vêm tentando isolar a China economicamente, detendo o avanço de tecnologias chinesas como a rede 5G da Huawei, a fabricante de celulares e semicondutores Xiaomi, e o app de compartilhamento de vídeos TikTok. Nimmo desempenhou seu papel alavancando suspeitas de atividades online ilegais chinesas, alegando existir uma rede global de bots pró-Pequim, levando os estadunidenses a crer que a China havia lidado com a pandemia de Covid-19 muito melhor que os Estados Unidos. A possibilidade de que os estadunidenses chegassem a essa conclusão por conta própria aparentemente não foi considerada.

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Há um gigantesco esforço governamental para convencer sua população da existência de esforços governamentais estrangeiros para manipular pela internet suas opiniões. Num caso de projeção em massa, as organizações governamentais ocidentais apontam o dedo para seus inimigos ao mesmo tempo em que garantem para si mais acesso e controle sobre os meios de comunicação – a um ponto em que não se distingue mais onde termina o deep state e onde começa o Quarto Poder. As transferências de Ben Nimmo da OTAN para o think tank da OTAN e em seguida para o Facebook são apenas um exemplo desse fenômeno. Talvez Nimmo não procure quaisquer operações ocidentais de influência online por ser ele mesmo parte de uma delas.

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