Expurgo da biblioteca da Fundação Palmares: um retrato da ignorância

A ameaça de descarte de mais da metade do acervo é testemunho surrealista da política cultural racista e unilateral que o governo Bolsonaro vem implementando no país

Imagem: O Partisano
por Danilo Matoso

No último dia 11, Sérgio Camargo anunciou que excluiria a maior parte do acervo de 9.000 obras da biblioteca da Fundação Cultural Palmares, da qual é presidente. Cerca de 5.300 livros seriam descartados, a partir de uma lista elaborada por Marco Frenette, coordenador-chefe do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (CNIRC). Na última quarta (23), a partir de uma petição do Coletivo Direito Popular – uma organização do movimento negro –, uma decisão da Justiça Federal do Rio de Janeiro proibiu a Fundação de doar os livros.

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Criada em 1988, quando do centenário da abolição da escravatura no país, A Palmares é uma fundação pública, ligada hoje ao Ministério da Cidadania, criada para promover e preservar os valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira. À frente da instituição desde novembro de 2019, Sérgio Camargo é um negro que já se posicionou publicamente contra todas as políticas de redução da desigualdade e contra todas as bandeiras do movimento negro.

Camargo é o “capitão do mato” clássico, o negro que persegue outros negros e cuja missão é na verdade desmontar a Fundação. Ele vem conseguindo. Retirou de seu site as biografias de artistas homenageados como Gilberto Gil, Elza Soares, Zezé Motta, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Sandra de Sá e Paulo Paim; demitiu funcionários do quadro; inventou um “Selo de Não Racista” bisonho para “certificar” que brancos racistas não o são; mudou a marca da Fundação para retirar o machado de Xangô de sua simbologia; inventou uma mudança de sede que, na prática, deixou todo o arquivo e biblioteca da Fundação encaixotados, os servidores sem instalações e a iminência real de destruição.

É um caso especialmente extremo e grotesco numa política mais ampla do governo Bolsonaro de “desidratação por escárnio” de instituições culturais, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), hoje dirigido por turismólogos, blogueiros e pastores evangélicos.

Blackface

Expurgar a biblioteca da Fundação Cultural Palmares – que já está em perigo num depósito – é uma maneira de apagar a memória da própria instituição encarregada de preservar a memória. É, portanto, um passo decisivo rumo à sua extinção e à extinção das políticas de redução das desigualdades raciais.

Com menos de 10 mil obras, o acervo da Biblioteca Oliveira Silveira não é grande para um órgão público da importância da Fundação – e poderia facilmente ser abrigado numa sala com 100m². Os títulos ali guardados, porém, representam os interesses não de um ou dois projetos de governo, mas os múltiplos interesses de milhares de pesquisadores do movimento negro que acorreram ao órgão nesses 32 anos. A demanda pelas pesquisas foi a motivadora das aquisições. Um acervo conta também uma história. Um catálogo de uma biblioteca é o retrato de quem a formou. É um retrato que hoje se procura apagar.

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Na via inversa, a lista de livros selecionados para descarte forma um retrato. Não um retrato da instituição, mas um retrato colorizado, um blackface grotesco, daqueles que estão promovendo a sua demolição hoje. Marco Frenette – branco, coordenador-geral do CNIRC –, publicou um relatório público batizado justamente de “Retrato do acervo: a dominação marxista na Fundação Cultural Palmares, 1988-2019”. Além de Frenette, assinam o documento também Guilherme Bruno, Isabella Maria Silva Barbosa e Gustavo Carvalho da Silva.

Num mal-redigido prefácio, Sérgio Camargo promete mais. Afirma que é “o primeiro volume de dois relatórios que descortinam o acervo da Fundação Cultural Palmares”, esclarecendo que “o primeiro aborda o material bibliográfico, e o segundo abordará o museológico e o iconográfico”. Ao final, o presidente da Fundação diz que “somos um só povo, e são o caráter, o esforço e a honestidade que devem nos definir, e não a cor da pele”: ou seja, na visão canhestra e mal-formulada de Camargo, não há identidade a ser preservada na cultura negra.

Bandidolatria e outras bizarrias

Os autores do relatório propõem inicialmente que a biblioteca não mais seja batizada de Oliveira Silveira, pois o poeta e militante negro foi do Grupo Palmares de Porto Alegre, considerado “um movimento datado, de mentalidade revolucionária e marxista”. Seu nome passaria a ser “Machado de Assis” – uma homenagem a um desconhecido autor negro do século 19, que carece de outras deferências.

Segundo o documento, 54% dos títulos são de “temática alheia à missão institucional”, dividindo-se em 8% de “temática claramente marxista (765 títulos), 20% de “temática geral com viés marxista (1.913 títulos), 16% de “temática geral” (2.487 títulos). Mais ainda, nesse conjunto encontram-se os seguintes temas – não quantificados: “sexualização de crianças”; “ideologia de gênero”; “pornografia e erotismo”; “manuais de guerrilha”; “manuais de greve”; “manuais de revolução”; “bandidolatria”; “bizarrias”.

Debalde buscamos tais temas sem sucesso na classificação de Dewey – o padrão tradicional de classificação bibliográfica –, bem como na Classificação Decimal Universal (CDU) – o padrão internacional atual. É evidente: os técnicos criaram essa classificação baseados em seu arbítrio. Talvez baseados nas teorias de Olavo de Carvalho, julgam estar extirpando da biblioteca todo o “marxismo cultural” – uma contradição em termos talvez baseada em certas interpretações de escritos de Antonio Gramsci.

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A título de ilustração, caso invertêssemos a lógica do “relatório”, seria como se – sabendo que a história da fundação do Iphan esteve ligada inicialmente a um profundo conservadorismo – a administração petista houvesse optado por excluir da Biblioteca Noronha Santos todos os temas ligados ao nativismo. Seria, e é, um ato de incompetência e ignorância tão crassos que somente pode ser comparado ao surrealismo ou ao realismo fantástico da ficção literária.

O escritor argentino Jorge Luís Borges, no conto “O idioma analítico de John Wilkins” (1952), lembra de certas “ambiguidades, redundâncias e deficiências” encontradas pelo tradutor Franz Kuhn em “certa enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos”. Borges relata que “em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um finíssimo pincel de pelo de camelo, (l) etcétera, (m) que acabam de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas”.

O escritor registrou as arbitrariedades do “desconhecido enciclopedista chinês” para ressaltar um ponto: “notoriamente, não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo”. É uma dúvida metodológica justa. Por isso mesmo, bibliotecários e arquivistas costumam manter respeito aos fundos documentais e bibliográficos: se as coleções não dão conta de toda a matéria dedicada a um tema, são no mínimo um testemunho do que se investigou e se inquiriu acerca daquele assunto – no caso, a luta do movimento negro. A ordem dos livros traz em si uma narrativa: a da instituição. Uma narrativa de suma importância numa instituição cuja finalidade é preservar a memória da luta do movimento negro contra a discriminação racial, contra a opressão secular, e que clama pelo seu justo quinhão na construção de nossa identidade.

Caros inimigos

No sentido inverso, a classificação burlesca inventada pelos “técnicos” diz muito não sobre o acervo, mas sobre as predileções, perversões e idiossincrasias de seus autores. Inconformados com a presença do pensamento marxista no movimento negro do século 20, encarregam-se de extirpá-lo – por enquanto apenas por canetadas. Se um líder revolucionário negro do século 20 era homenageado no nome da biblioteca, por que não voltar a apagá-lo? Talvez mudar o nome da própria fundação: do escravo insurreto Zumbi dos Palmares, por que não alguém mais integrado ao mundo branco – talvez até mesmo um branco, um monarca? Princesa Isabel? Quem sabe? Se o marxismo está presente na história da instituição, por que não arrancar fora suas páginas? Pior ainda – e aqui recuperando o argumento de Borges – se um tema qualquer não se encaixa na visão parcial de mundo dos brilhantes gestores atuais da Fundação: por que não classificá-los de “espúrios”, listá-los e excluí-los?

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index librorum prohibitorum da Fundação vale aqui como um atestado de ignorância: tudo o que consta na lista é desconhecido ou incompreendido pelas pessoas à frente da instituição. O documento é um retrato colorido de sua incultura, de sua incapacidade em lidar com a diversidade, com a contradição. Com medo do desconhecido, buscam livrar-se dele, e fica bem claro que o que desconhecem é a história da luta popular do movimento negro – a mesma que nos trouxe a débil democracia que hoje vivemos. São intermediários da opressão de classe e de raça, encarregados de mandar 80% da população do país de volta à senzala. Seguramente, é como inimigos do movimento negro e da luta popular que serão tratados quando saírem da ribalta, porque o mundo dá voltas.

Marco Frenette que o diga. Ele teria sido no passado um dos editores da revista de esquerda Caros Amigos, juntamente com Renato Rovai – hoje à frente da revista Fórum. Rovai lamenta a conversão de Frenette à extrema direita: entre decepcionado e desiludido: “É muito triste vê-lo comandando essa ação de perseguição a livros e autores, defendendo a liberação de armas e chamando progressistas de quadrilha, gangue e assassinos. É algo que supunha impossível quando tomávamos cerveja e outras bebidas e falávamos de cultura e política nos bares da Vila Madalena”.

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A desilusão de Rovai é uma demonstração crua de que em política a luta de classes fala mais alto que as relações pessoais. Os livros, e a Fundação Cultural Palmares em seu conjunto, continuam sob ameaça. Estão encaixotados em algum porão da Capital Federal, aguardando sua incineração ou sua reabilitação como acervo. Talvez saiamos dessa. Não terá sido a primeira vez que os escritos de Marx e Engels terão sobrevivido à crítica roedora dos ratos.

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