Estados Unidos pressionam Brasil a não usar a vacina Russa

Questionada sobre lobby, Embaixada dá a entender que exerce pressão junto à Anvisa pelo retardamento da aprovação da Sputnik V no Brasil

Imagem: Oliver Bunic / AFP
por Danilo Matoso

Segundo revelado pelo Brazil Wire, o governo estadunidense pressionou o Brasil a rejeitar a vacina russa Sputnik V — a primeira a ser registrada contra o novo coronavírus no mundo, com os testes concluídos em 11 de agosto do ano passado. Até a presente data, a Sputnik V não teve seu uso emergencial no Brasil aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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A operação foi divulgada num relatório anual do US Department of Health and Human Services [Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos] (HHS), publicado no último mês, em que revela que seu Escritório de Assuntos Globais (OGA)

usou de suas relações diplomáticas nas américas para mitigar os esforços de estados — incluindo Cuba, Venezuela e Rússia — que vêm operando para aumentar sua influência na região em detrimento da segurança dos Estados Unidos. Nosso Escritório se articulou a outras agências governamentais para reforçar laços diplomáticos, oferecendo assistência técnica e humanitária para dissuadir países do continente a aceitar ajuda daqueles países mal-intencionados. Exemplos nesse sentido incluem o uso de nosso Adido de Saúde [na Embaixada] para persuadir o Brasil a rejeitar a vacina Russa contra a Covid-19, além de oferecer assistência técnica dos CDCs [Centros para Controle e Prevenção de Doenças] para que o Panamá não aceitasse uma oferta de médicos cubanos.

Um trabalho dos “Adidos de Saúde”

O Brasil Wire ressalta ainda que os “Adidos de Saúde” foram enviados para diversos países, como China, Índia, México e África do Sul, fazendo o mesmo tipo de lobby. Enquanto isso, os Estados Unidos vacinam em média 2,2 milhões de pessoas por dia, já tendo coberto com ao menos uma dose cerca de 65 milhões de cidadãos. As vacinas produzidas nas plantas estadunidenses da indústria AstraZeneca ainda não tiveram sua exportação autorizada para outros países — nem mesmo da União Europeia.

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A Embaixada dos Estados Unidos declarou que “nunca desencorajaram o Brasil a aceitar vacinas contra Covid-19 que foram autorizadas por seus respectivos órgãos reguladores”, ressaltando: “respeitamos o processo de aprovação da Anvisa”. Um malabarismo retórico de pé-quebrado que acaba dando a entender que os esforços da Embaixada se concentram na verdade em evitar ou retardar a aprovação da vacina pela agência reguladora.

Farinha pouca, meu pirão primeiro

Como se sabe, o Brasil é hoje um dos países mais atrasados do mundo em termos de vacinação contra o novo coronavírus. Após 60 dias de uma campanha marcada por diversos desvios de material, fraudes na fila e falta de material, o País logrou aplicar a primeira dose da vacina em 4,6% da população — menos de 10 milhões de pessoas. Desnecessário lembrar que tal atraso se deve à negligência do governo Bolsonaro em providenciar a compra tempestiva de vacinas, inicialmente abrindo mão mesmo das cotas a que teria direito no consórcio Covax Facility de fornecimento de imunizantes, coordenado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), onde optou pela cobertura mínima.

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Obcecado por sua suposta disputa eleitoral com João Dória, Bolsonaro passou a rejeitar sistematicamente a vacina de tecnologia chinesa que vinha sendo desenvolvida em São Paulo em parceria com o Instituto Butantã. A opção inicial exclusiva de Bolsonaro foi pela vacina Oxford AstraZeneca. Em julho do ano passado, chegou a dizer: “se fala muito sobre a vacina da Covid-19. Nós entramos naquele consórcio de Oxford, e pelo que tudo indica vai dar certo e 100 milhões de unidades chegarão para nós. Não é daquele outro país, não. Tá ok, pessoal?”. A restrição à vacina russa entraria no mesmo discurso.

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Driblando a omissão genocida de Bolsonaro e do lobby dos “Adidos de Saúde” da HHS, um consórcio de governadores do Nordeste — batizado de Consórcio Nordeste — anunciou há três dias a compra de 37 milhões de doses da Sputnik V para o Brasil. A negociação foi feita diretamente pelos governadores com o Fundo Russo de Investimentos Diretos. Em meio a uma crise de confiança da vacina da AstraZeneca na Europa, devido a supostos efeitos colaterais, o imunizante russo vem ganhando aprovação de cada vez mais países em todo o mundo. Resta apenas sua aprovação pela Anvisa, se os norte-americanos deixarem.

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