Estados Unidos: o pau ainda está quebrando e vem aí uma greve geral

Conflitos raciais são antes de tudo conflitos de classe. Apesar do enfraquecimento de seus sindicatos, os norte-americanos vêm logrando canalizar politicamente a rebelião

Imagem: Alessandro Biascioli
por Danilo Matoso

Existem milhares de movimentos sociais e dezenas de partidos políticos socialistas nos Estados Unidos. Uma presença invisibilizada pelo sistema na prática bipartidário da maior potência do mundo. Alguns deles vêm conseguindo dar um viés político de classe ao chamados “protestos raciais” que tomaram conta do país nos últimos meses. Sim, os protestos continuam acontecendo. Eles só estão sendo invisibilizados pelas corporações da imprensa, assim como é via de regra omitida a presença de diversas organizações socialistas que vêm ajudando a impulsionar as mobilizações.

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Você provavelmente não tem visto isso nos principais jornais, mas a onda de convulsões sociais iniciada no fim de maio nos Estados Unidos ainda não acabou. Tudo começou quando George Floyd morreu asfixiado em Minneapolis, Minnesota, ao ter o pescoço comprimido pelo joelho de um policial branco. Floyd era negro, e sua morte assemelhou-se à de Eric Garner que morrera estrangulado pela polícia em Nova York em 2014 enquanto gritava “eu não consigo respirar”. A súplica ganhou novo significado em meio à pandemia de Covid-19, e se tornaria a palavra de ordem de milhares de levantes populares em todos os cantos do país, sob a bandeira do movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam] – criado em 2013 a partir de sucessivos episódios de brutalidade policial contra negros.

Nesses quase três meses de levantes, houve centenas de conflitos espalhados pelo país: o pau quebrou todo dia. As chagas abertas da racista sociedade norte-americana voltaram a sangrar com recrudescimento da brutalidade policial – à medida em que as comunidades predominantemente negras, latinas e pobres se levantam –, resultando em mais mortes e mais protestos. No final de julho, por exemplo, Trump ameaçou enviar as tropas da Guarda Nacional para conter os protestos de Portland, Oregon, – que ocorriam sem cessar noite após noite havia dois meses.

Na última sexta (21), Trayford Pellerin, 31, negro, foi morto a tiros em frente a uma loja de conveniência em Lafayette, Louisiana, por estar portando uma faca enquanto se afastava de um grupo de policiais. No último domingo (23), Jacob Blake, 29, negro, foi alvejado com diversos tiros pela polícia de Kenosha, Wisconsin, quando abria a porta de seu próprio veículo, em que seus filhos de 2, 5 e 8 anos se encontravam. Blake está em estado grave. Os episódios deram novo vigor aos protestos nos últimos dias, com conflitos em todo o país.

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Assim como no Brasil, a imprensa norte-americana tenta mudar de assunto, voltando o foco para as eleições presidenciais, em que a supostamente maior democracia global pode “escolher” entre um neoliberal e um neonazista, por voto indireto, para comandar o país e o mundo. Mas segue a vida, ou a morte, sua gêmea. A polícia continua matando os pobres e a Covid-19 já chega a seis milhões de casos e 202 mil mortes. Também como aqui, a responsabilidade recai sobre a ausência de política coerente do Governo Federal, também comandado por um fascista; os governadores do Partido Republicano insistem em reabrir o comércio e retomar as aulas. Ao contrário do Brasil, porém, os Estados Unidos não contam com um sistema público universal de saúde. A internação por Covid-19 é cara e a imensa maioria da população, 15% da qual desempregada, não pode pagar por isso. E morre mais gente.

Desde maio, os protestos do movimento Black Lives Matter vêm ocorrendo como movimentos espontâneos de revolta, nos chamados “conflitos raciais”. Conflitos raciais, porém, são antes de tudo conflitos de classe. Apesar do enfraquecimento e da criminalização de seu movimento sindical, os norte-americanos vêm logrando canalizar politicamente a rebelião, impulsionando uma série paralisações com vistas a uma greve geral programada para o dia 1º de cada mês. A próxima, em setembro, chegou aos trending topics no Twitter em agosto com as hashtags #GeneralStrike e General Strike 2020. As principais demandas são serviço público de saúde universal, renda básica universal, cancelamento dos aluguéis durante a pandemia, moradia segura, educação igualitária e justiça racial e criminal.

Por meio da estratégia de plataformas, algumas organizações de fundo anarquista e socialista vêm assumindo a dianteira na convocação da greve geral, cuja meta seria a paralisação de pelo menos 30% dos trabalhadores norte-americanos no próximo mês, conclamando todos a “não comprar” e “não trabalhar” em 1º de setembro.

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A plataforma General Strike 2020 [Greve Geral 2020] foca suas pautas na supressão de aluguéis e dívidas, bem como na manutenção dos empregos – suas palavras de ordem são Rent, Debt, Labor. Afirmam ter sido criados após os levantes de 2020, e exortam no vídeo de entrada de seu site: “não aja sozinho” porque “você não está sozinho”. “Plataforma”, aqui, tem duplo sentido de programa político e de estrutura organizativa, capaz de unir todos aqueles que concordem com seus princípios – segundo os quais não se busca ali “dirigir, apropriar-se ou direcionar” os movimentos espontâneos da população, mas sim “apoiar, promover, encorajar, amplificar a comunicação e ajudar materialmente” o movimento popular.

Grande parte dos chamados vêm da plataforma chamada People’s Strike [Greve do Povo], “uma coalizão de organizações políticas, de trabalhadores e comunidades confrontando a pandemia de Covid-19 por meio da luta contra um governo corrupto e inepto e as forças do capital (bancos, corporações, corretores etc.) que colocam o lucro antes do povo e do planeta”. Segundo o site do movimento, ele busca combater “a tentativa de nos forçar de volta ao trabalho contra as recomendações da ciência e da razão. Eles tentam retomar seus lucros e suas relações desiguais que tornaram a pandemia pior para indígenas, negros, latinos e outras comunidades vulneráveis”. Na pauta positiva, o People’s Strike diz estar organizando “assistência emergencial e diversas formas de ajuda mútua para prover os trabalhadores e comunidades de recursos necessários à sobrevivência” durante a pandemia. Além disso propõem “novas formas de produção cooperativa e comunitária”, capaz de construir “autonomia política e organizações comunitárias para criar uma sociedade mais igualitária e justa”.

Já a plataforma Corona Strike surge como um ramo da People’s Strike mais claramente ligado ao Party for Socialism and Liberation [Partido para o Socialismo e a Libertação], a partir de um chamado por uma federação de cooperativas do Mississipi chamada Cooperation Jackson que, em 1º de abril, conclamou à greve geral, granjeando a adesão da Black Socialists in America [Socialistas Negros na América] – numa coalizão que aparentemente foi o embrião da General Strike 2020. O Partido é uma dissidência do sexagenário Workers World Party [Partido Mundial dos Trabalhadores].

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Essa rede de plataformas comunga de uma estratégia internacionalista, que incluem desde o apoio à Venezuela contra o boicote coordenado pelo governo dos Estados Unidos até a defesa de pautas ambientais como uma maneira de incentivar a economia comunitária e local. Apesar do anonimato das “plataformas”, em seus vídeos surgem lideranças, pessoas reais que podem ser capazes de canalizar e impulsionar as demandas populares. A professora negra Rose Brewer, por exemplo, coordena uma live de quatro horas feita no último 1º de agosto por meio da People’s Strike. Brewer, uma veterana ativista de Minnesota, foi uma das organizadoras do Forum Social dos Estados Unidos em 2015. O Party for Socialism and Liberation, coligado ao Peace and Freedom [Paz e Liberdade], lançou sua própria candidata à presidência dos Estados Unidos, a ativista Gloria la Riva.

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A emergência do chamado de greve geral no último mês nos Estados Unidos pode ser o início de uma virada numa série de movimentos de insurreição popular que vêm eclodindo em todo o mundo – como na França ou no Chile – em que as organizações de esquerda ainda não lograram canalizar politicamente a insatisfação popular rumo a projetos de poder mais próximos aos anseios do povo. Enquanto no Brasil a imprensa se esforça por invisibilizar a esquerda socialista sob rótulos de viés liberalizante como “campo democrático” e “campo progressista”, nos Estados Unidos felizmente os socialistas voltam a levantar a cabeça após décadas de esmagamento e boicote sistemático.

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