Entrevista │ Dmitri Kovalevich, jornalista ucraniano, sobre Donetsk e Lugansk

Dmitri é um jornalista ucraniano que participava da organização comunista banida Borotba, apoiando ativamente os rebeldes do Donbass no conflito civil

Imagem: Batalhão Azov, grupo paramilitar neonazista que há anos foi incorporado às forças armadas ucranianas
por Cíntia Xavier e Daniel Albuquerque

*Publicado originalmente em A Coisa Pública 

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

A coisa pública brasileira, no intuito de esclarecer sobre o que ocorre na Ucrânia neste presente momento e elucidar mais sobre as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, obteve uma entrevista exclusiva como o ucraniano Dmitri Kovalevich, para que brasileiros possam ter informações relevantes que nos vem sendo negadas, devido ao intenso bloqueio midiático.

Dmitri é um jornalista ucraniano e participava da organização comunista banida ‘Borotba’. Após o golpe pró OTAN, Estados Unidos e União Europeia sofrido pela Ucrânia, a organização foi tornada ilegal em 2014 por protestos ativos contra o golpe e contra a institucionalização do neonazismo na sociedade ucraniana.

Sua organização apoiou ativamente os rebeldes do Donbass no conflito civil que, desde o golpe e a operação militar contra a população das regiões do Leste da Ucrânia por parte das Forças Armadas Ucranianas e sua estrutura paramilitar neonazista, causa uma dolorosa e sangrenta ferida na sociedade ucraniana.


A coisa pública brasileira: Como você definiria o movimento de independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk em termos ideológicos? (muitas pessoas no Brasil tem dificuldade em compreender isso.)

Dmitri Kovalevich: Bem, é apenas um desejo de viver separado de um estado que não gosta. Os motivos podem ser étnicos, religiosos, econômicos (como no caso da independência dos EUA da Grã-Bretanha) ou ideológicos. No caso do nosso conflito civil na Ucrânia podemos ver sim, a questão ideológica. A esmagadora maioria da região altamente industrializada de Donbass preserva principalmente sua mentalidade de classe e pró-soviética.

Historicamente sendo trabalhadores de várias origens étnicas, eles resistem à política de estado mono étnico na Ucrânia e suas tentativas de revisionar os resultados da Segunda Guerra Mundial, visto que as autoridades de Kiev promovem oficialmente o culto de fascistas da Segunda Guerra Mundial e conduzem a política de descomunização (proibição de partidos comunistas, símbolos, materiais, postagens na internet, etc.).

Leia também:  Chavistas recuperam a Assembleia Nacional

O movimento pela independência do Donbass foi desencadeado pelo golpe pró-EUA em 2014. Muitos ucranianos pró-soviéticos ou comunistas/de esquerda se mudaram de Kiev para Donetsk resistindo contra seus antigos vizinhos. Em 2015, foram assinados os acordos de Minsk. Implicaram a reintegração das repúblicas do Donbass de volta à Ucrânia, se isso permitisse que a região possua sua autonomia cultural. Kiev assinou, mas não cumpriu por 7 anos, pois isso seria ruim para impor o nacionalismo étnico.

ACPB: Qual o papel do socialismo/marxismo/comunismo na vida política das repúblicas de Donbass? (alguns dizem se tratar apenas de uma questão de estética)

D. K.: Como eu disse, muitos comunistas ucranianos, marxistas se mudaram para as repúblicas de Donbass do resto da Ucrânia fugindo do terror fascista. Muitos deles se juntaram aos rebeldes do Donbass (então — o exército das repúblicas). Muitos morreram em ações na guerra que dura 8 anos.

Devo enfatizar: nossa guerra começou não em fevereiro de 2022, mas na primavera de 2014 — quando voluntários neonazistas (paramilitares) foram enviados para cidades rebeldes do leste que não reconheciam o governo pós-golpe. E todos os liberais ocidentais que apenas começaram a gritar “Pare a guerra na Ucrânia” agora ignoraram completamente a guerra no Donbass.

Em ambas as repúblicas trabalham partidos comunistas. Você pode visitar o site do partido comunista de Donetsk (www.wpered.su)*. Os comunistas de Donbass são apoiados e auxiliados principalmente pelo Partido Comunista da Federação Russa. E o projeto de lei sobre o reconhecimento das repúblicas em fevereiro de 2022 foi apresentado exatamente pelos comunistas russos e depois adotado pelo parlamento russo.

Leia também:  Seis motivos para a esquerda não ir ao ato do MBL

Na foto acima, você pode ver um tanque sob bandeira vermelha — de comunistas de Donetsk que também participam da operação russa.

ACPB: Ambas as repúblicas possuem o mesmo perfil ideológico? (por exemplo, uma apresenta um brasão de armas com conotação mais nacionalista e outra possui uma simbologia mais soviética).

D. K.: Sim, quase não há diferença entre eles. Surgiram duas repúblicas apenas porque haviam duas regiões rebeldes com seus centros e fronteiras administrativas entre elas.

ACPB: Por último, mas não menos importante: há muitos esquerdistas, comunistas e socialistas no Brasil que se confundem com a propaganda ocidental e não sabem nada sobre o assunto. O que você diria para explicar que precisamos apoiar as forças do Donbass e a independência das repúblicas do Donbass?

D. K.: Muitos esquerdistas estão sob controle total da mídia ocidental. Podemos não saber pessoalmente o que está acontecendo na Indonésia ou na Bulgária — por isso tendemos a confiar na mídia de grandes empresas. E os grandes capitalistas investem bilhões em mídia não é em vão — seus investimentos são pagos quando você confia neles e promove sua política.

Eles têm um número grande de ferramentas para manipulação. Posso ver agora o influxo em massa de falsificações sobre nosso conflito. Você é bombardeado por milhares deles e todos visam pressionar seus profundos sentimentos humanos. Isso é fácil para manipular a moral das pessoas.

Leia também:  Os ricos a salvo do fim do mundo?

Muito provavelmente você não ouviu nada sobre o bombardeio sistemático de Donetsk, que não parou por 8 anos. E muito provavelmente você não ouviu falar sobre o ‘beco dos anjos’ de Donetsk — memorial às crianças mortas pelo bombardeio do exército da Ucrânia. Você ouve sobre a guerra e os sofrimentos apenas quando os rebeldes de Donetsk contra-atacam e um aliado da OTAN pode ser derrotado.

O terror da extrema-direita na Ucrânia deve ser interrompido e nossos camaradas devem ter a possibilidade de voltar para casa e trabalhar aqui legalmente. O fascismo e o racismo são uma característica do nosso regime (bem, o presidente Zelensky é apenas um fantoche, um ator contratado atuando como Presidente). Nossa ideologia nacional desde 2014 é baseada em culpar o comunismo e a ideologia de esquerda.

Mas o fascismo também ajuda a promover reformas neoliberais aqui — aumentando os preços de tudo, enquanto qualquer categoria de protesto contra isso está sendo rotulado como “pró-russo” e impiedosamente agredida por paramilitares fascistas. Este é um modelo para qualquer outro país. O fascismo é apenas uma ferramenta do capitalismo destinada a obter mais lucros. Se perder uma guerra em qualquer lugar — isso o abala (o capitalismo) — e é um alívio para os trabalhadores em todos os lugares.

Contribua com O Partisano - Catarse dO Partisano

*O site do Partido Comunista de Donetsk utiliza o domínio .su (Soviet Union).

Deixe uma resposta