Entre a fome de hoje e a esperança do ontem

A conta de se tentar ignorar a luta de classes chegou, parece que buscamos, de maneira incessante, tapar o sol com a peneira para não ver o que está à nossa frente

Imagem: Kasun Chamara
por Beatriz Cornachin e Vitor Ferreira 

Nosso país contabilizou trezentos mil mortos. Não tem um plano de vacinas adequado. Apenas 5% da população foi vacinada. As mortes na fila dos leitos de UTI seguem crescentes. A fome aumentou. A pobreza aumentou. As exportações aumentaram. Entre uma semana e outra, um despejo aqui, outro acolá. Nos dias 24 e 25 de março, na pior fase da pandemia, uma ocupação foi destruída. Nosso país registrou aumento de alimentos três vezes superior à inflação. Dia após dia, as manifestações de desdém com a vida da população nos enojam. Dia após dia, NADA É FEITO. Dia após dia, sabemos que teremos que responder às gerações futuras as indagações que mais escutamos quando contamos as atrocidades cometidas: “Mas como o mundo reagiu, quando tudo isso estava acontecendo aqui?”

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Dia após dia, 300.000 mil mortos não configuram crime de responsabilidade! Seguimos gritando “FORA!” Mas são gritos individuais, gritos desorganizados e sem penetração na classe trabalhadora. Seria cômico se não fosse trágico recorrermos às diferentes convenções, tratados e pactos para denunciar que os direitos propostos e defendidos há muito tempo não são cumpridos, de maneira geral nunca foram e atualmente parecem sequer terem existido.

Parece que buscamos, de maneira incessante, tapar o sol com a peneira para não ver o que está à nossa frente, mesmo que nosso olfato denuncie a quilômetros o odor putrefato de nossa realidade e que nos impeça o paladar da vida adocicada. Fomos levados, por força da situação paupérrima com que nossos povos vivem, a acreditar que o progresso estava a chegar em cada décimo de estatística reduzida. Vibramos com a diminuição da linha da pobreza, vibramos com a diminuição da fome. Não há erro nisso. Não há erro em ter esperança de que nosso imediato, ao menos, será solucionado.

Por breves momentos, breves anos, parecia que o fardo colonial e imperial pesava menos sobre nossos ombros e parecia que, ao encarar o horizonte, finalmente a utopia parecia parar de dar passos mais largos do que os nossos. Traçamos nossos objetivos e chegamos a definir metas e, quando mal começamos a concretizá-las, “a conta chegou”.

Mas não é somente a conta que disseram que temos que pagar pelos breves anos de esperança, não é somente a conta dos pobres e dos pretos na universidade. É somada a essa conta dos últimos 20 anos de breves melhoras a conta de que nunca nos livramos, a de não encarar de frente nossos algozes históricos, de negar a luta de classes e a busca por sua superação definitiva, a de conviver pacificamente e ingenuamente com nossa classe dominante, dominada pelo imperialismo, que nunca hesitou em banhar nossa pátria com nosso próprio sangue. A conta de não dizer que DEFINITAVAMENTE, O BARCO NÃO É O MESMO. A conta que temos que pagar, não é nossa, mas nos é imposta brutalmente.

Há muito tempo, trabalhamos e dedicamos nossa vida por nossa sobrevivência imediata, desconectados com nosso passado, iludidos por um irônico presente e esperançosos de forma clássica por um eterno futuro que nunca chega, por um país que sempre pode ser mais do que é, mas que nunca é mais do que deixam.

Nossa ilusão de progresso imanente sem base material-histórica, quando descolado do movimento do real atende nossos anseios de curto prazo ao mesmo tempo que estimula uma maximização do poder da classe que se beneficia e vibra com a exploração do homem pelo homem. Nada mais ilustrativo do que as taxas de lucros dos grandes investidores e proprietários em plena pandemia, em plena crise de desemprego que já dura 6 anos, nada mais ilustrativo que os bilionários ficando mais ricos como nunca antes na história enquanto 300 mil vidas e sonhos são apagados. Uma conta curiosa pode dar uma dimensão do que é essa podridão dos bilionários, calcule desde a invasão de Pedro Álvares Cabral por aqui, em 1522, se o mesmo, desde sua chegada, ganhasse de forma limpa e honesta 5 mil reais por dia até esse exato ano de 2021, ainda assim o invasor não seria um bilionário.

Infelizmente, essa exploração é legalizada, nos termos da lei, é totalmente aceitável enquanto o “direito” da propriedade privada dos meios de produção persistir. Assim será enquanto perdurar o sistema e o modo de produção capitalista. As “leis universais” são aquelas que estão sob o controle das classes dominantes.

Seria cômico se não fosse trágico apelarmos para as leis criadas para defender interesses avessos e alheios aos de nossa classe. Especialmente após a guerra fria e em especial os direitos civis e políticos que podem ser fornecidos desde que estejam no limite da legalidade do sistema, que, em outras palavras, significa não ameaçar a capacidade de maximização do próprio capital.

Devemos, sempre que possível, tencionar os legisladores, as figuras de poder no estado burguês. Mas, devemos ter noção dos limites existentes, que estão mais do que evidentes. Apenas a tão aclamada popularidade de Bolsonaro justifica a não abertura do impedimento? 

Ficamos estarrecidos com a quantidade inumerável que determinadas figuras no poder parecem cometer e ainda mais com a falta de resposta dos organismos “democráticos de direito”. Fica evidente a seletividade dos mesmos quando, nas situações que beneficiam determinados atores, a soberania nacional e autodeterminação dos povos é tida como algo leviano e quando, em outros momentos, por mais inescrupulosas e detestáveis que sejam as atitudes de determinado governo, a mesma soberania é tida como justificativa para se isentar de atitudes reais de culpabilização e responsabilização. Exemplos não faltam, no nosso continente, no Oriente Médio…

A cada nova crise, a conta fecha menos, mesmo com diversos mecanismos possíveis, o número de famintos NUNCA chegou próximo de seu fim, nesse país nem o analfabetismo conseguimos erradicar. Ou ainda, no século em que as pessoas deveriam ter carros voadores, existem pessoas que dormem nas ruas, pessoas sem acesso básico a medicamentos e saneamento, pessoas morrendo em campos de batalha sem sequer terem se alistado em um exército.  

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Enquanto tratam de inovar as possibilidades de lucratividade nos deixam, a cada nova crise, face a face com um dos nossos instintos mais primitivos de sobrevivência: a fome. Abandonamos nosso campo de batalha, mas nosso adversário e o campo de batalha nunca nos abandonaram, a luta de classes concreta é em última instância o terreno da sobrevivência e do futuro da espécie humana.

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