Elon Musk: um convite ao ódio de classe

Bilionário dono da Tesla admitiu seu interesse no lítio boliviano e no golpe que derrubou Evo Morales, e aproveitou para dizer que magnatas como ele darão quantos golpes forem precisos para garantir seus interesses

Imagem: reprodução
por Danilo Matoso

No último sábado (25) o multibilionário Elon Musk declarou no Twitter: “nós vamos dar golpes de Estado em quem quisermos! Aceitem isso”. Referia-se ao golpe civil-militar ocorrido na Bolívia em novembro de 2019, respondendo ao questionamento de um seguidor, que afirmara: “o governo dos Estados Unidos organizou um golpe de Estado contra Evo Morales na Bolívia para que você pudesse ter acesso ao lítio ali”.

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O episódio demonstra pela enésima vez o que é comprovado historicamente e, quando acontece, é tratado com descrédito: o governo norte-americano, a serviço de grandes corporações, dá as cartas na política global e promove a ascensão de regimes brutais em função de seus interesses. E essa foi apenas mais uma dentre as muitas barbaridades que abundam nas declarações públicas de Musk – usualmente frutos de uma sinceridade inconsequente cada vez mais comum em milionários desde que as redes sociais passaram a conectar as alcovas de suas almas diretamente ao mundo exterior, colocando definitivamente em xeque o secular discurso meritocrático do capitalismo. Como não desprezar uma figura assim?

Para o infinito, e além

Mais que um bom nome de perfume do Boticário, Elon Musk é um bilionário extravagante típico de nosso tempo. Nascido em 1971 em Pretória, África do Sul, Musk é filho de um empresário do ramo da mineração de Esmeraldas e de uma modelo Canadense. Mudou-se para a pátria materna aos 18 anos, e para a Pensilvânia, Estados Unidos, três anos depois. Embora tenha estudado Administração e Física, destacou-se desde cedo no ramo da informática. Em 1995, criou com seu irmão a Zip2 Corporation, especializada em sistemas online de anúncios em jornais, vendida quatro anos depois por US$ 307 milhões para a Compaq. Fundaria então, com o nome de X.com, a PayPal, especializada em pagamentos online, vendida à eBay em 2002 por U$ 1,2 bilhão.

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Naquele ano, Musk mudaria radicalmente de ramo, fundando a SpaceX – Space Exploration Technologies Corporation –, voltada ao transporte comercial de cargas e passageiros. Após uma década, a empresa logrou disparar um foguete com uma cápsula não tripulada para o espaço, passando a transportar satélites no ano seguinte. A empresa então lançaria o projeto Starlink, que objetiva formar uma rede de nada menos que 42 mil satélites ao redor da terra, com a finalidade declarada de prover acesso à internet mais rápido e barato em todo o mundo. Em fevereiro de 2018, foram lançados os primeiros satélites do Starlink, mas a empresa pretende chegar às dezenas de milhares por meio de lançamentos com 66 satélites por foguete, numa rotina de voos espaciais já iniciada no ano passado.

Talvez o empreendimento mais conhecido de Musk seja a Tesla Motors, uma indústria de carros elétricos que adquiriu em 2004 e passou a impulsionar. Com grande apelo ambiental e tecnológico, a empresa até aqui priorizou veículos esportivos e de luxo vendidos por algo da ordem de US$ 100 mil. Vendendo expectativas mais do que carros, a empresa superou a Toyota em julho, tornando-se no mercado de ações a empresa mais valorizada do mundo, avaliada em nada menos que US$ 209,47 bilhões. Segundo a revista Forbes, a fortuna pessoal de Musk é hoje de quase US$ 70 bilhões.

É aí que entra a Bolívia.

Yes, we can

O país afirma ter 70% das reservas mundiais de lítio, principalmente no Salar de Uyuni. Com amplo apoio popular, o governo de Evo Morales vinha aplicando uma ampla política de nacionalização dos recursos naturais, forçando a repactuação dos acordos com gigantes globais da mineração, o que permitiu a aplicação em políticas sociais e uma redução da taxa de pobreza no país sul-americano de 38,2% para 15,2%. O lítio é um dos principais componentes das baterias usadas em celulares, computadores e… carros elétricos.

A Tesla, juntamente à Pure Energy Minerals (canadense) e à ACI Systems (alemã), vinha manifestando interesse direto na exploração do lítio boliviano, sem conseguir acordo. Desde 2018, o governo boliviano vinha avançando em acordos mais vantajosos com empresas chinesas como a TBEA Group e a China Machinery Engineering. Segundo o historiador Vijay Prashad, em matéria no Brasil de Fato, “tanto o investimento chinês quanto a empresa boliviana de lítio estavam experimentando novas formas de extrair e compartilhar os lucros do lítio. A ideia de que se pudesse ter um novo pacto social para explorar o lítio era inaceitável para as principais empresas de mineração transnacionais. Para o indiano, “o próprio Morales foi um impedimento direto à aquisição de campos de lítio pelas empresas transnacionais não chinesas. Por isso, ele precisava sair. Após o golpe, as ações da Tesla subiram astronomicamente”. Vale lembrar que a própria Bolívia produzia um carro elétrico: um miniveículo popular de três lugares com 60% das peças importadas da China.

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O imperialismo então fez o que sempre fez na América Latina: fomentou, financiou e legitimou o brutal golpe militar, com todos os elementos clássicos: generais fardados nas fotos, soldados armados e milícias fascistas nas ruas, racistas e fundamentalistas religiosos no poder, o ex-presidente Morales ameaçado de morte e exilado, dezenas de mortos, perseguição às organizações populares. Se no Brasil e no Paraguai o golpe foi “parlamentar”, na Bolívia foi com coturno e tudo. Afinal, o país tem uma das mais organizadas e politizadas classes trabalhadoras do continente: melhor garantir. A Organização dos Estados Americanos prontificou-se a avalizar a barbárie. Daí a provocação do seguidor de Musk no Twitter, que foi acertada – a julgar pela reação do bilionário, agora um golpista assumido.

“Mim dá isso de graça”

Musk, na verdade, é um cretino inveterado – sobretudo nas redes sociais, onde se comporta como um anarco-capitalista adolescente. Em 15 de junho de 2018, por exemplo, publicou no Twitter: “Marx foi um capitalista. Ele até escreveu um livro sobre isso [o capitalismo]”. Na última segunda (27), publicou uma foto do socialista alemão com a citação “mim dá isso de graça – [assinado] Papai Noel faminto”.

As presepadas do bilionário não se limitam a tretas em redes sociais. Ele já dispensou jornalistas por fazerem “perguntas de cabeças ocas, chatas”, ameaçando-os em seguida de constrangimento público por meio de um site que avaliaria a credibilidade dos profissionais. Tentou ainda dar alguns golpes no mercado de ações, envolvendo os ativos da própria Tesla; causou instabilidade diversas vezes com declarações enganosas sobre os seus investimentos. Diz-se que as ações da Tesla se valorizam “apesar” de seu CEO. Suas polêmicas são similares às que qualquer Trump ou Bolsonaro: diz, desdiz, se desculpa, volta a dizer etc..

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Se outrora os chamados “donos do mundo” logravam voar abaixo do radar por obra de assessorias competentes e de famílias zelosas, hoje ocorre o contrário com boa parte deles. Essas figuras não apenas exibem publicamente sua sociopatia, como se tornam ainda mais célebres por seu descaramento. Que dizer da campanha aberta contra o isolamento social na pandemia, disparada por Roberto Justus, Luciano Hang, Junior Durski et caterva em defesa de seus lucros? É possível acreditar que o enriquecimento do indivíduo, qualquer indivíduo, mas normalmente bem nascido, seja mais que fruto do acaso? Que o sistema não funcionaria “apesar” de sua inépcia?

A máquina capitalista de formar opiniões é eficiente em despersonalizar e desumanizar as barbaridades que pratica com a maioria absoluta da população global. É assim que ocultam a brutal exploração envolvida no processo produtivo. Por outro lado, para manter o “sonho” vivo, volta e meia promovem publicamente algum magnata de tez plastificada, bochechas rosadas e nome estranho como Eike ou Elon. E isso para deleite dos taxistas que gostam de mostrar seus imóveis aos visitantes das cidades em que moram: “ali fica uma das mansões de fulano”.

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Esses bilionários parecem ter outros planos para si, estimulando em suas redes sociais o bom e velho ódio de classe – o que seguramente ocorreu agora com os mineiros bolivianos. Talvez finalmente acabem tornando verdade o argumento bizarro do psicólogo conservador canadense Jordan Peterson, para quem os socialistas “não gostam de pobres, eles apenas odeiam os ricos”.

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