É mais fácil imaginar o fim da sua vida do que o fim do capitalismo

A depressão tornou-se a “doença do século XXI” e o suicídio tornou-se epidêmico, sintomas catastróficos de um mundo em que interditado imaginar alternativas políticas

Imagem: Pavel Chagochkin
por Vitor Ferreira

O título dessa reflexão faz referência à frase atribuída a Fredric Jameson e Slavoj Zizek, de que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo”. Essa frase ganhou ainda mais repercussão quando utilizada pelo brilhante Mark Fisher em sua fabulosa obra “Realismo Capitalista”, descrita por ele como “a difundida sensação de que não apenas o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também de que agora é impossível até mesmo imaginar uma alternativa coerente a ele”. Diferente, porém de maneira alguma oposta ao debate de Fisher e à frase original que propõe uma dimensão mais ampliada e talvez mais subjetivada no campo ideológico-cultural, a reflexão que proponho aqui tentará abarcar de maneira mais simples e mais direta este “jogo” quase imperceptível da ideologia dominante que nos cerca e, pior, nos adoece física e psicologicamente nos limitando e nos impedindo de ir além desse capitalismo morto-vivo.

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Exercício 1

Para começar proponho aqui o simples exercício de buscarmos em nossa memória todas as vezes que imaginamos nosso futuro, tanto de forma positiva quanto de forma negativa. O resultado ao fazer esse primeiro exercício da imagem do futuro positivo muito dificilmente não estará completamente associado a ter dinheiro, à posse de bens materiais comprados pelo dinheiro ou ainda viagens compradas pelo dinheiro. Já a imagem do futuro negativo estará associada à miséria financeira, o baixo ou nenhum salário. Neste primeiro exercício o elemento dinheiro é o ser determinante em nossa condição de felicidade ou de falência, nossa imaginação negativa ou positiva está completamente associada a esse sujeito nos deixando como simples predicado em nossa própria vida.

Exercício 2

Quero propor ainda um segundo exercício: imaginarmos nossa própria morte. Creio que com certa facilidade será possível imaginar diversos tipos de morte, das mais comuns como acidente de trânsito e atropelamento, das mais difíceis como por queda de avião, das ocasionadas pela natureza como ser atingido por um raio ou a mais desejada, dormindo sem sentir dor alguma. Neste segundo exercício acredito que todos e todas conseguiram tristemente visualizar claramente cada forma de perder sua vida e acredito que isso já foi imaginado diversas outras vezes ao longo de toda sua vida e de diversas outras maneiras para além das citadas aqui.

Exercício 3

Por fim um terceiro exercício, imaginar viver em um mundo sem o dinheiro, sem a divisão de classes, um mundo onde não haja presença do Estado, de governos, de fronteiras entre estados-nação, sem nenhum pobre e nenhum rico, onde você trabalha no máximo, quando muito, 6 horas por dia, onde você terá acesso a qualquer bem material produzido pelo trabalho humano sem precisar pagar ou trocar por algo de sua posse, um mundo em que você poderá conhecer outros continentes sem nem se lembrar de dinheiro e se preocupar com burocracias como o visto que barre sua entrada por lá, e ainda nesse mundo, você não ouvirá nunca mais nenhuma notícia de que outro ser humano morreu de fome.

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Este último exercício sem sombra de dúvidas é o mais difícil de se realizar, talvez um ou outro ponto consigamos imaginar com certa frequência, mas e todos eles juntos? Quantas vezes ao longo de nossas vidas paramos para pensar num mundo, num futuro parecido com este? Eu aposto que muito menos do que qualquer um dos outros dois exercícios, e ainda aposto que é mais fácil imaginar um raio caindo sobre você, do que você indo à padaria recebendo pão e leite sem pagar ou trocar qualquer coisa por eles. É mais fácil imaginar um suicídio do que a vida sem um estado governando, é mais fácil imaginar o desenvolvimento de uma mutação criando zumbis e lhe causando uma morte distópica, do que imaginar a sua vida puramente feliz sem a mediação do dinheiro e de mercadorias, chamando esta vida possível de utópica.

Suicídio e depressão

O resultado dessa realidade trágica e mofada que a sociedade burguesa e o modo de produção capitalista nos impõe, limitando nosso pensamento de uma outra perspectiva de vida, e de uma outra sociabilidade, contra essa podridão atual, se reflete não somente neste campo do imaginário, mas também no campo material, como por exemplo nos dados da OMS mostrando que 800 mil pessoas se suicidam por ano, sendo a grande maioria de jovens entre 15 a 29 anos de idade, ou seja, uma faixa-etária de pessoas no auge do desenvolvimento das capacidades físicas, motoras, cognitivas e de relação social.

Ou ainda em outro relatório, que apresenta o dado de que no mundo 322 milhões de pessoas sofrem de depressão, no caso do Brasil são 12 milhões de pessoas vítimas dessa doença, colocando nosso país como o país mais depressivo da América Latina e tendo uma média de 12 mil suicídios por ano. A depressão é popularmente conhecida como “a doença do século XXI”. Será mera coincidência essa doença ter ganho tanta presença no mundo e ser chamada como a doença do século XXI depois da derrubada da União Soviética no fim do século XX? Ou da queda do muro de Berlim e o fim do chamado bloco socialista no final do século passado? De não termos tido ainda no século XXI nenhuma revolução no mundo onde se iniciou uma ruptura com o capitalismo e a sociedade burguesa? Estou convencido de que esses questionamentos estão completamente associados a essa doença aliada à própria forma estagnada da sociabilidade atual onde toda forma de evolução e mudança está apenas resumida no desenvolvimento de tecnologia voltada ao lucro burguês-capitalista.

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Diagnóstico

A depressão impede o ser de ser, impede o ser de tentar ser, impede qualquer movimento de força do ser e de avanço do ser, a depressão bate quando a vida parece não ter mais alternativa a se seguir. E com o fim do bloco socialista no século XX como uma possibilidade real de alternativa e de ruptura a esta realidade atual o horizonte imaginário das pessoas se reduziu drasticamente. Não é à toa que a depressão está muito mais presente dentro desta faixa etária extremamente jovem de 15 a 29 anos, que não sentiu, não viu e não viveu no mundo chamado bipolar, dividido entre o bloco socialista em contraponto ao bloco capitalista, uma faixa etária que não experenciou nenhuma revolução, uma faixa etária que foi privada de um pensar alternativo à sua realidade.

A mão invisível do mercado venceu a queda de braço no século XX e hoje é praticamente impossível imaginar um mundo com a livre circulação de pessoas, o que se vê são milhares de imigrantes jogados ao mar, ao lixo e ao cemitério, o crescimento da xenofobia como se fosse a imigração a causa dos problemas nacionais e, em contrapartida, a livre circulação de mercadorias reina, as transações continentais de dinheiro em todas as suas formas (papel, moeda, ouro, crédito, digital e etc.) são cada vez mais rápidas, eficaz e maiores, além é claro da grande circulação de mísseis e drones bombardeando milhares de cabeças mundo afora em prol da exploração de petróleo e outros recursos naturais/minerais. Mais uma vez o capital é o sujeito da frase escrita pela burguesia capitalista e a humanidade trabalhadora é o predicado.

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Assim como Fisher em Realismo Capitalista quero citar aqui o mesmo trecho do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels: “A burguesia onde passou a dominar afogou na água fria do cálculo egoísta todo o fervor próprio do fanatismo religioso, do entusiasmo cavalheiresco e do sentimento pequeno burguês. Dissolveu a dignidade pessoal no valor de troca e substituiu as muitas liberdades, conquistadas e decretadas, por uma determinada liberdade, a de comércio. Em uma palavra, no lugar da exploração encoberta por ilusões religiosas e políticas ela colocou uma exploração aberta, desavergonhada, direta e seca.” Talvez esse trecho possa ser visualizado de maneira concreta no Brasil, onde é mais fácil imaginar um novo caso de Mariana e Brumadinho matando centenas do que imaginar o fim da VALE, é mais fácil imaginar a terceira guerra mundial do que o fim do trabalho assalariado, é mais fácil imaginar pessoas morrendo de fome do que a reforma agrária.

A história não acabou

Faz-se extremamente necessária essa tentativa de reflexão levantada aqui, pois como disse Antônio Gramsci: “É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é, se se quer transformá-lo. Pessimismo da razão e otimismo da vontade!” É preciso romper com essa dominação subjetiva, destruir as barreiras ideológicas da classe dominante e lutar. Só a luta muda a vida, a história não acabou e o mundo todo clama por uma transformação radical da realidade.

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Não se pode mais aceitar classificar o comunismo como utópico, pois um presente/futuro distópico e a nossa própria morte é facilmente imaginada nos dias de hoje, a revolução socialista das classes trabalhadoras em direção ao comunismo é a única alternativa possível se se quer destruir esse mal pela raiz. Se queremos uma cura a essa depressão profunda em que o mundo se encontra, é preciso atacar a causa dessa doença profunda e parasitária, e não somente seus efeitos. Destruir a causa e tomar a história com nossas próprias mãos, e a causa chama-se: capitalismo.

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