É Flórida: Biden garantiu que é mais golpista que Trump na América Latina

Campanha oficial dos Democratas na Flórida abraçou a causa dos imigrantes de direita e prometeu dar golpes de Estado. E perdeu

Imagem: O Partisano
por Danilo Matoso

Donald Trump, do Partido Republicano, deve vencer as eleições presidenciais estadunidenses na Flórida conforme as apurações já realizadas. Com 29 delegados no colégio eleitoral, o estado é considerado “oscilante” a cada eleição: não é majoritariamente Democrata ou Republicano. Isso tornou a disputa de 2020 especialmente acirrada e peculiar. Com 21 milhões de habitantes, a comunidade da Flórida tem uma expressiva representação de latinos que – principalmente em Miami – possui influentes emigrados de países da América Latina opositores de regimes de esquerda do continente. Sobretudo os cubanos – chamados de gusanos [vermes] em sua pátria mãe – e venezuelanos antichavistas cobraram dos candidatos posturas anticomunistas, produzindo durante a campanha uma curiosa escalada de viés macarthista e decididamente intervencionista que o Partido Democrata não se constrangeu em fazer.

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Apurados mais de 11 milhões de votos, Trump está na dianteira com 51,2%, contra 47,8% do segundo colocado, Joe Biden, do Partido Democrata. Conforme o sistema de eleições indiretas dos Estados Unidos, o vencedor leva todos os 29 votos do Estado ao colégio eleitoral que escolherá o presidente em dezembro.

Com grande afluxo de imigrantes da América Latina, a Flórida tem nos hispânicos cerca de um quarto de sua população. É menos que o Novo México (48%), a Califórnia (39%), ou o Texas (39%), mas ainda é uma expressiva parcela, que por sua vez se divide meio a meio entre Republicanos e Democratas – embora entre aqueles com filiação partidária predominem os Republicanos, com 67%. Segundo o Pew Research Center, o estado tem 5,8 milhões de latinos – 2,8 milhão de imigrantes e 3 milhões nativos – com 1,5 milhão de habitantes de origem cubana, 1 milhão colombiana, 936 mil porto-riquenha, 634 mil mexicana, 262 mil dominicana, 104 mil guatemalteca e 1,3 milhão de outras procedências. O censo dos Estados Unidos aponta ainda 403 mil habitantes de origem colombiana e 237 mil venezuelanos. Muitos deles são imigrantes ilegais, e portanto não puderam votar. A pressão política dessas comunidades, em todo caso, é muito significativa. Sobretudo a dos cubanos e venezuelanos, que fizeram uma vigorosa campanha por uma política intervencionista estadunidense, capaz de instalar na América Latina governos de direita, anti-socialistas e subordinados aos Estados Unidos.

Desenvolveu-se na Flórida um debate político acusativo, paranoico e permeado de boatos e notícias falsas, em que qualquer viés progressista passou a ser visto como “comunismo”.

A pressão pela direita dos imigrantes coxinhas

Republicanos e de origem cubana, o deputado federal Mario Díaz-Balart e o senador Marco Rubio, exasperaram-se com uma matéria do jornal The New York Times, publicada no último dia 27, mostrando os planos de Biden de restabelecer negociações com o presidente da Venezuela Nicolás Maduro. Dias depois, o candidato foi forçado a ressaltar publicamente que ele fora o primeiro candidato Democrata a reconhecer Juan Guaidó como representante da Venezuela. Guaidó foi o líder de uma tentativa fracassada de golpe de Estado em seu país em abril do ano passado. Desde então, perambula pelo mundo arvorando-se comandante da nação, como um Napoleão de hospício – é claro, devidamente financiado e apoiado pelos Estados Unidos, Inglaterra, Brasil, e outras nações com governantes de direita. Ainda sobre Guaidó, em artigo do El País, o professor da Georgetown University, Hector Schamis, acusou o Partido Democrata de hipocrisia por haver reconhecido que o célebre episódio de incêndio das “tropas de ajuda humanitária” em Cúcuta, Venezuela, fora causado pelos próprios militantes de oposição a Maduro. É como se hoje Rodrigo Constantino acusasse o PMDB de comunismo por haver condenado o atentado do Riocentro em 1981, em que militares morreram quando da detonação acidental de uma bomba que levavam a um show, visando a culpar a esquerda.

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O jornal Diario Las Américas, publicado desde 1953 em castelhano na Flórida, deu recorrentemente voz à extrema direita. Uma coluna de setembro do jornalista e escritor espanhol Itxu Díaz afirmou que a escolha de Kamala Harris como vice-presidente pelo Partido Democrata teria sido “louquíssima”, representando “uma ameaça real de chegada do socialismo à Casa Branca”. A conhecida blogueira cubana Yali Nuñez recomendou: “Em novembro, os latinos deveriam dizer NÃO à esquerda radical”. Para ela, Biden sinalizou que “voltaria à era Obama-Biden, forjando vínculos diplomáticos mais estreitos com o regime comunista de Cuba; ignorando assim a crise atual na Venezuela e os abusos aos direitos humanos na Nicarágua”. Em sua visão, por outro lado, “o presidente Trump defendeu os direitos humanos e os valores democráticos no hemisfério ocidental, ele compreende a dor daqueles que foram impactados negativamente por regimes socialistas”.

O jornal ultraliberal PanAm Post, sediado em Miami mas de alcance internacional, também reforçou o alarmismo anticomunista. Um artigo de Andrés Villota, por exemplo, afirma que os movimentos Antifa (Ação Antifascista) e Black Lives Matter [Vidas Negras Importam] teriam sido apoiados por Biden desde seu surgimento e “o Partido Democrata tem a dupla e difícil tarefa de convencer o eleitorado de que eles não são da mesma estirpe de Stálin, Mao, Fidel Castro ou Nicolás Maduro, sem que isso signifique perder os votos dos marxistas radicais liderados por Bernie Sanders e a candidata à vice-presidência, Kamala Harris”. A China, aliás, não poderia ficar de fora. Um artigo de Emmanuel Rondón mostra como Hunter Biden, filho do candidato democrata, teria negócios pouco esclarecidos com o gigante asiático, que “beneficiaram o Partido Comunista daquele país e o exército chinês”. Para o venezuelano Guillermo Rodríguez González, “houve um esforço gigantesco de agitprop do totalitarismo socialista chinês para ocultar sua responsabilidade criminal na pandemia. Esforço de desinformação amplamente apoiado – de modo aberto ou velado – pela quase totalidade do socialismo em sentido amplo do Ocidente”.

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E não só os políticos foram vítimas das campanhas de difamação comuns à direita. Quando a comediante venezuelana Érika de la Vega apoiou publicamente a candidatura de Biden, por exemplo, foi bombardeada nas redes sociais até afirmar: “Eu não serei comunista. Nem nessa vida nem em vidas futuras”.

Quem dá mais golpes de Estado?

Um dos trunfos dos Democratas foi sua política pró-imigração – contraposta à xenofobia e ao racismo declarado de Trump. A campanha de Biden na Flórida, porém, parece ter colocado foco justamente em sua predisposição para intervir na América Latina e promover golpes de Estado nos países de origem de seus eleitores. O grupo Venezolanos con Biden 2020, por exemplo, editou um Guia para combater a desinformação, para combater as notícias falsas sobre a ideologia de Joe Biden e suas intenções para com a América Latina.

Preliminarmente, o documento apresenta um esclarecimento ideológico: Joe Biden é um socialista/comunista – Falso: “Joe Biden é um democrata ‘moderado’. Joe nunca apoiou políticas comunistas ou socialistas”. Fazem questão de ressaltar inclusive que o democrata teria apoio de um grupo de 300 líderes do Partido Republicano. Em seguida, partem diretamente para as relações internacionais. Trump vai ajudar a Venezuela – Falso: “Donald Trump nunca teve uma estratégia consistente ou viável em relação à Venezuela, e até duvidou em apoiar Juan Guaidó, que considerou ‘fraco’, enquanto se referiu a Maduro como ‘forte’. Contraditoriamente, Donald Trump debilitou a imagem e o poder de Juan Guaidó no hemisfério, devido a sua estratégia falida e inconsistente na Venezuela”. Trump iniciou as sanções contra a Venezuela – Falso: “As sanções individuais iniciais a membros do regime de Maduro foram por meio de uma ato do Executivo assinado pela governo de Obama-Biden em 9 de março de 2015. Ao Departamento de Tesouro foi delegado o poder de impor sanções econômicas de ordem executiva”. Afirma-se ainda que Maduro teria financiado a campanha de Trump.

Mas o que Joe fez ou fará pela Venezuela? Segundo o documento: “Biden mobilizará a comunidade internacional em busca dos fundos necessários aos venezuelanos à reconstrução de seu país”. Não teria sido melhor simplesmente não impor sanções econômicas? Aparentemente não. “Biden continuará a sancionar os responsáveis pelo tráfico de drogas, violações de direitos humanos e corrupção – e pressionará outros países da região e da Europa a fazer o mesmo”. Afinal, em 2014, Joe denunciou Maduro por “ter inventado teorias da conspiração totalmente falsas e estranhas sobre os Estados Unidos”. Além disso o documento destaca que, em 2015, Joe reuniu-se com a oposição golpista venezuelana, incluindo Lílian Tintori, tendo articulado desde os Estados Unidos apoio a candidaturas de direita que garantiram naquele ano “a eleição da Assembleia Nacional, uma vitória para a democracia”. Na qualidade de presidente da Casa Parlamentar, Guaidó lideraria a tentativa de golpe de Estado em 2019.

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Deu errado, e agora?

Em suma: o Partido Democrata concentrou seus esforços em convencer o eleitorado latino que seria mais direitista e pró-imperialista que os próprios Republicanos. De fato, enquanto os Republicanos construíram, literalmente, um muro entre seu país e a América Latina, os Democratas via de regra praticam a política de golpes de Estado generalizada – como fizeram no Brasil em 2016. Os setores à esquerda do Partido, em todo caso, não pouparam críticas à campanha de viés conservador que levou à derrota dos Democratas na Flórida.

A deputada federal Alexandria Ocasio-Cortez apressou-se em fazer duras críticas à política de Biden ainda em meio às comemorações por sua vitória. Para a parlamentar, a estrutura do Partido foi “incompetente” em sua campanha ao secundarizar o ativismo progressista e as campanhas paralelas nas redes sociais – como as que levaram Obama ao poder há 18 anos – renegando oficialmente sua relação com os movimentos de rua como o Black Lives Matter, responsáveis pela virada dos Democratas na Pensilvânia ou em Michigan, por exemplo.

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Talvez a campanha abertamente antipopular e intervencionista da Flórida tenha surtido o efeito contrário naquele estado, levando à vitória de Trump – ainda que por uma apertada vantagem. Fato é que, por outro lado, mesmo a “radical” Ocasio-Cortez não se furta a caracterizar o regime chavista da Venezuela como “autoritário” e “antidemocrático”, assim como o faz a estrela da esquerda democrata, Bernie Sanders. Em suma: o Partido Democrata dá carta branca a qualquer ação de viés intervencionista que Trump possa ainda tentar perpetrar contra a Venezuela, Cuba ou qualquer país da América Latina no apagar das luzes de seu mandato. Apertemos os cintos.

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