Dia 29 é dia de retomar as ruas

Se esse governo continuar à vontade em sua atuação como está hoje, o que teremos pela frente é mais promoção de aglomerações, mais atraso de vacinas, mais auxílio emergencial insuficiente (ou nenhum)

Ilustração: dinholascoski

por William Dunne

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As ruas estão em disputa. A esquerda, de todos os matizes, de um lado, contra a extrema direita bolsonarista, do outro. Ano passado a esquerda impôs uma derrota ao bolsonarismo por ocasião dos protestos contra o racismo e pela democracia. Naquela oportunidade, a iniciativa da esquerda fez com que as manifestações golpistas que vinham sendo promovidas pelo despresidente desaparecessem.

Porém, o tempo passou, o frio está voltando, e trouxe com ele uma nova cepa de agitações fascistoides. É hora de derrotar Bolsonaro outra vez, rumo a uma solução definitiva pela mobilização popular. Existe um tratamento precoce para as centenas de vítimas fatais em potencial que ainda estão por vir, que consiste em colocar o governo nas cordas, obrigando-o a agir sob pena de terminar na lona caso não o faça.

Há, contudo, hesitações quanto à conveniência de se retornar às ruas em um momento como esse, de ascensão da curva de contágios por coronavírus e escassez de leitos hospitalares. As objeções no campo da esquerda a esse respeito não podem ser desprezadas, e demandam exame e consideração. Tanto para dissipar vacilações quanto para evitar que se reproduzam dentro da esquerda narrativas que podem beneficiar a direita.

Legitimaremos aglomerações?

A preocupação mais propriamente política diante das manifestações do dia 29 é a possibilidade de que, indo às ruas, a esquerda empreste legitimidade à ação deliberada da extrema direita de promover aglomerações contra as medidas de isolamento social. Em primeiro lugar, devemos rejeitar que qualquer consideração dessa natureza paute aquilo que a esquerda deve ou não fazer.

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Em segundo lugar, não é de fato comparável um governo promover aglomerações, sendo omisso diante de todas as medidas que poderia tomar, com a revolta de uma população abandonada à própria sorte durante uma pandemia que já matou, no Brasil, mais de 450 mil pessoas. A paciência acabou. O protesto tem, inclusive, o direito ao isolamento social como uma de suas motivações principais, exigindo um auxílio emergencial digno.

Finalmente, o ato não será composto por negacionistas seguidores da seita que se apoderou da presidência, toda convocação da esquerda está chamando a população a ir às ruas de máscara, cada um levando seu frasquinho de álcool em gel, e mantendo distância de um braço aberto entre os participantes, de modo que as próprias manifestações serão uma promoção das medidas de segurança necessárias. Medidas que fazem parte do cotidiano dessa pandemia em ambientes como, por exemplo, o transporte público, que continua funcionando.

E o perigo de se aglomerar?

Deixando as considerações políticas de lado (na medida em que isso é possível), resta a preocupação com o perigo de se contaminar, e contaminar outras pessoas, especialmente próximas. Esse perigo, de fato, existe, embora seja razoavelmente mitigado pela adoção das máscaras apropriadas e de uma certa distância entre os participantes. Quem está em grupos de risco, ou convive com pessoas que estão, tem um motivo para ficar em casa.

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Mas diante desse risco é necessário ponderar outra ameaça relacionada à doença. Se esse governo continuar à vontade em sua atuação como está hoje, o que teremos pela frente é mais promoção de aglomerações, mais atraso de vacinas, mais auxílio emergencial insuficiente (ou nenhum), mais relativização da pertinência das máscaras e do álcool em gel. Portanto, uma epidemia mais duradoura e letal, que pode acabar atingindo mesmo quem está tentando (e que tem o privilégio para tal) ficar em casa o maior tempo possível. Por motivos práticos, não poderemos nos dar ao luxo de esperar que a CPI estabeleça aquilo que já é sabido por todos: a culpa do governo na proporção bíblica que a pandemia de Covid assumiu no Brasil.

Entrar no mapa da revolta

Trump foi derrotado nas eleições porque foi incompetente no enfrentamento da pandemia… e porque teve revolta popular nos EUA. Isso tornou possível derrotar a mobilização da extrema direita norte-americana. Na Colômbia, a greve geral e os protestos por todo o país destruíram as reformas neoliberais de Iván Duque. Na Bolívia, as massas nas ruas reverteram um golpe de Estado, Evo Morales voltou ao país nos braços do povo e a presidente usurpadora, Jeanine Añez, foi presa depois de ser encontrada escondida dentro de uma cama-box. No Chile, uma Constituinte com maioria de esquerda escreverá a Constituição que vai substituir a carta legada pelo ditador Augusto Pinochet.

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Falta um grande país nesse mapa da revolta das Américas: o Brasil. O exemplo dos povos sublevados por todo o continente é inequívoco. É preciso tomar as ruas para derrotar a direita e impor os interesses do povo. Inclusive nossos interesses diante da catástrofe do coronavírus. Vacina, auxílio emergencial, reconhecimento da gravidade da situação e substituição do governo genocida. Basta de Bolsonaro!

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