Da varíola ao Covid-19, a guerra biológica contra os indígenas

Varíola, sarampo, rubéola e coqueluche são algumas das doenças disseminadas pelo homem branco entre os indígenas. Hoje, a arma é o coronavírus

Imagem: Ingrid Ãgohó Pataxó
por Bibi Tavares

Não é de hoje que a ganância e desonestidade do homem branco trazem muitos danos e infortúnios ao meio ambiente e aos povos originários ao redor do mundo. Através da colonização, processo violento baseado em estupros, saques, terrorismo, mortes e falsificação da realidade, os europeus sentenciaram a população indígena das Américas – em especial a do Brasil – às mais terríveis experiências travestidas de progresso, envernizadas de caridade.

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No país liderado por um inimigo declarado das minorias, a população indígena hoje é de quase 900 mil índios, distribuídos em cerca de 305 povos, segundo o senso de 2010 do IBGE. Esse valor é equivalente a 10% da população inicial no Brasil, que contava com 8 milhões de nativos distribuídos em mais de 1.000 tribos quando os portugueses chegaram aqui, em 1500. Hoje, um dos principais inimigos dessas comunidades indígenas é a Covid-19, doença fatal às populações mais vulneráveis.

Mais uma vez o responsável por propagar esse tipo de patologia entre essas comunidades é o homem branco, tomado por ideologias que nem sempre representam sua classe social. Através da escravização, do garimpo, dos danos psicológicos, do desmatamento, da contaminação de rios e solos e impelindo os índios às áreas urbanas, os europeus e seus descendentes ideológicos, até hoje e muitas vezes de forma voluntária, adoeceram e dizimaram centenas de tribos indígenas.

Alberto Eckhout (1610-1666)
Alberto Eckhout (1610-1666)

De forma menos ruidosa, causaram o genocídio gradual de diversas etnias com doenças que seus corpos desconheciam por completo; soma-se a isso o comprometimento da fauna e flora que impossibilitava até uma possível busca de tratamento natural dessas patologias ainda desconhecidas. Peste bubônica, sarampo, febre amarela, rubéola, varíola, pneumonia e diversos tipos de gripes são algumas das enfermidades introduzidas e disseminadas entre os índios. Atualmente, a diabetes também faz parte desse quadro.

No livro “Os índios e a civilização”, Darcy Ribeiro relata um dos episódios mais conhecidos de contaminação como arma biológica contra os indígenas, dos fazendeiros contra os índios Timbira. Os capangas dos fazendeiros davam roupas contaminadas aos índios, que acabavam por contrair a doença e espalhar em suas aldeias. Esse genocídio ocorreu em 1816 em Caxias, no Maranhão, e alcançou tribos quase 2 mil quilômetros de distância da vila:

“O plano era atrair os índios para a vila, então atacada por uma epidemia de bexiga (varíola). Uma vez ali, as bexigas dariam conta deles.”

Enfermidades e religião como arma de dominação 

Os colonizadores souberam explorar muito bem as novas doenças trazidas às Américas e suas consequências. Segundo o historiador Warren Dean, para se compreender os desdobramentos imperialistas no Novo Mundo é necessário entender que essas doenças foram peça-chave no processo de dominação, sendo muito mais mortais do que as armas trazidas nos navios. Num curto espaço de tempo, epidemias dizimavam grandes contingentes. É claro que enfermidades locais já existiam pelas Américas, mas nada que não fosse de conhecimento dos indígenas.

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A partir de suas crenças religiosas e estando diante de patologias misteriosas com sintomas assustadores, os indígenas acreditavam terem sido alvos de castigos divinos, tornando-os mais dóceis frente às armadilhas dos europeus. Estes usaram o fato de os índios serem politeístas para culpá-los pelas epidemias alastradas pelas tribos, incutindo em suas mentes que eles não possuíam alma e que somente a religião cristã poderia salvá-los de tal infortúnio. Assim, os jesuítas entram em cena como médicos e salvadores de almas; por já terem alguma noção dessas doenças, uniram o discurso religioso com habilidades médicas duvidosas e através do medo, fortaleceram o processo de dominação desses nativos. Sobre o que os padres da Companhia de Jesus faziam em suas missões entre 1600 e 1609, um padre chamado Fernão Guerreiro relatou:

“Porque não somente os curam nas almas como pastores, pregando-lhes a doutrina duas vezes no dia, confessando-os e administrando-lhes os sacramentos, enterrando os que morrem, ajudando-os a bem morrer, mas os padres governam ainda no temporal e lhes dão ordem de como hão de negociar suas roças e lavouras e remédio de vida e quando estão doentes, os padres são os seus médicos e enfermeiros e enfim se hão com eles como pais com filhos e tutores com pupilos…”

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“Primeira missa no Brasil”, de Victor Meirelles

Epidemias e pestes introduzidas desde o Brasil Império até hoje

A varíola foi uma das primeiras doenças altamente contagiosas a afetar os corpos indígenas, em especial aqueles que haviam sido capturados e viviam em condições extremamente convidativas às moléstias europeias em seus cativeiros. Até 1588, a quase totalidade da América do Sul foi contaminada pela varíola, matando de 30% a 50% dos indígenas que a contraiam e num curto espaço de tempo. O botânico e naturalista August Saint-Hilaire descreveu o que observou em uma de suas viagens ao Sul do Brasil, em 1821:

Desde o tempo dos jesuítas, ela vem de três em três anos, arrebatando vidas. Sabe-se que essa moléstia, em geral, poupa menos os índios que os homens doutras raças. […] O Marechal Chagas jamais procurou introduzi-la (vacina) entre os índios das Missões e mesmo após haver testemunhado o mal causado pela varíola não se preocupou em antecipar-se contra o retorno do flagelo” 

Os colonos que foram se fixando em terras brasileiras estavam cientes de que essas moléstias serviam muito bem para render de uma vez aqueles índios mais ariscos, a ideia era deixar roupas e comidas contaminadas perto dessas aldeias:

Cientes que roupas de variólicos podiam transmitir o mal, os colonizadores propositadamente deixavam-nas próximo às aldeias cuja população queriam destruir. Deram origem a uma arma biológica das Américas e estas práticas nefastas, longe de serem exceções, perpetuaram-se nos séculos seguintes.” (GURGEL,2009)

Outro episódio marcante se deu com a etnia Xokleng, também conhecidos como “botocudos”, originários de Santa Catarina. Esses foram acometidos pela malária em 1917, pela coqueluche em 1918 e pela gripe espanhola em 1919, além de diversos tipos de gripe, pneumonia, bronquite e tuberculose. Sobre esse cenário, Darcy Ribeiro escreveu que tamanha:

“foi a mortalidade que nem se davam conta de enterrar os mortos; os cadáveres eram deixados insepultos, servindo de pasto à cachorrada da aldeia”

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Família de botocudos, Wied-Neuwied (Löschner, 1988)

Ao longo dos anos, essas práticas foram se tornando cada vez mais comuns. Já no século XX,  entre 1957 e 1963, existem denúncias de que as tribos que dividiam forçadamente a área com a extração de borracha no Mato Grosso, foram contaminadas por diversas patologias. Na verdade, segundo a Comissão Nacional da Verdade, foi a partir de 1950, ainda no Mato Grosso, e em algumas regiões de Rondônia, que a etnia Cinta-Larga foi duramente reduzida pelos fazendeiros; esses davam alimentos envenenados com arsênico aos indígenas, além de passar com aviões pelas tribos jogando brinquedos e outros objetos contaminados com vírus da gripe e sarampo.

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Na Bacia Amazônica, nos primeiros dois anos de ditadura, a tuberculose foi inserida de forma premeditada em diversas tribos locais também. Nos anos 80 e 90, em Roraima, foi a vez da malária ser levada por garimpeiros aos indígenas, que a essa altura já dividiam um solo contaminado de mineração, garimpo, queimadas, escassez de alimentos e animais para caçar.

Atualmente, é a Covid-19 uma das responsáveis por causar o adoecimento e morte indígenas, já tão afetados pelas doenças do Velho Mundo. Inclusive, até a obesidade e diabetes os alcançou, graças à invasão das áreas urbanas em suas terras, esses povos começaram a ingerir grandes quantidades de alimentos industrializados com alto teor de sal e açúcar, afetando drasticamente seus organismos. No Mato Grosso, cerca de 100 indígenas Xavantes já foram a óbito após contraírem coronavírus.

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De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) 383 indígenas morreram com Covid-19 em todo o Brasil até o momento. Distribuídos em 119 tribos por todo o país, há pelo menos 9.294 índios contaminados. É a mais nova doença sendo utilizada como arma para “passar logo a boiada”, como afirmou o atual ministro do Meio Ambiente e aliado dos grandes fazendeiros, Ricardo Salles.

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O governo Bolsonaro nunca escondeu sua aversão pelos povos indígenas. No vídeo da polêmica reunião ministerial, o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmava categoricamente que odeia “o termo povos indígenas”, repetindo mais de uma vez. Nesse cenário de pandemia, enquanto os fascistas herdeiros dos escravocratas estiverem no poder, essas minorias serão sempre os maiores alvos.

 

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