Crime, repressão e sociedade: a caçada a Lázaro Barbosa

O poder público envolvido diretamente por meio das secretarias de segurança de DF e GO e do Ministério da Justiça também não perdeu a sua chance de mostrar sua limitação estrutural

Policiais passam dias e mais dias procurando Lázaro na mata. Foto: Gabriela Biló
por Matheus Dato

A sequência do caso envolvendo a escalada de crimes violentos e fugas consecutivas praticadas por Lázaro Barbosa deixou a população do Distrito Federal atônita e atingiu repercussão nacional. É visível, entre outras coisas, o choque geral com a capacidade de cometimento de ações bárbaras pelo indivíduo em questão e a sua habilidade em se evadir do cerco policial montado para a sua captura, que conta atualmente com o efetivo de aproximadamente 250 agentes.

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Em 9 de junho de 2021, Lázaro Barbosa invadiu a residência de Cláudio Vidal no INCRA 9, zona rural de Ceilândia-DF. Em uma rápida ação, executa Cláudio e seus dois filhos, além de tomar a esposa de Cláudio, Cleonice, como refém. Pouco tempo depois, realiza outra incursão em chácaras da região, pilhando dinheiro, mantimentos e implantando profundo terror nos moradores que permaneceram sob seu poder. A fuga prossegue ao mesmo tempo em que a polícia encontra o corpo de Cleonice no Sol Nascente, região administrativa vizinha ao local em que o triplo homicídio ocorrera.

O rumo imediato da fuga é o entorno mais distante da parte oeste da capital federal, primeiramente em Edilândia e cercanias e, posteriormente, em Girassol, ambos distritos do município de Cocalzinho de Goiás-GO. Neste ínterim, Lázaro furtou munições, armamento, veículos, dinheiro e foi capaz de travar confrontos contra chacareiros da região e contra forças de segurança do Estado. Após quase vinte dias de busca, o criminoso ainda não foi capturado. A polícia realiza operações no intento de desbaratar pontos de apoio em propriedades rurais locais, embora o secretário de segurança de Goiás, Rodney Miranda, não se pronuncie oficialmente desde o dia 21 de junho.

Uma série de análises supostamente técnicas podem ser encontradas na grande mídia, além de notícias verdadeiras e falsas que não param de surgir. Não há grande espaço para reflexões originais neste caso, sob ameaça de incorrer no erro ou no senso comum (que parecem cada dia mais próximos um do outro), porém três fatores provocam a necessidade de pensarmos as consequências desta caçada humana que já se arrasta há longos dias.

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Em primeiro lugar, a sociabilidade capitalista foi colocada diante do seu distintivo mais perverso e visível: a barbárie. De maneira especial, um triplo homicida com tendências psicopatas capaz de matar e provocar o terror com relativa facilidade abre uma janela do absurdo que a visão de mundo contemporânea se acostumava a fingir inexistência. É certo que vivemos em um país que mata 500.000 pessoas por uma doença prevenível, além de contarmos todos os dias com massacres em comunidades pobres e a fome regressando ao seu papel homicida, porém os agentes do Estado e os mortos de tais expedientes aparecem aos nossos noticiários como números, estatísticas, artigos de lei e cifras muito distantes da realidade imediata.

Lázaro Barbosa, por sua vez, possui um rosto e uma ficha criminal personalizada. Aos residentes do DF e adjacências, suas vítimas também são triste e violentamente palpáveis, próximas, reais.

A sociedade de classes é o reino da violência e da necessidade. É um universo governado por uma única lógica – o lucro individual, que precisa ser garantido a todo custo por outra lógica – o monopólio do terror de Estado. Nosso país não sofre de violência, não sofre com a violência: ele é violento.

O caso de Lázaro Barbosa alcança uma visibilidade plenamente justificável, mas está longe de ser um caso isolado, sob qualquer perspectiva que se olhe para a questão. A loucura social do capitalismo subdesenvolvido é produzida como excedente e rejeito da produção da mercadoria que surge em nosso contexto rodeada por miséria, desigualdade, criminalidade e destruição, ao passo que a circulação desse mesmo bem é capaz de garantir lucro a poucos. As situações destrutivas e lamentáveis causadas por elementos antissociais levantam o véu dessa barbárie que é regra, e não exceção no Brasil, ainda que esta tome outras formas muito mais brandas no convívio comum.

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Para além disso, o caso Lázaro descreve outra realidade: a situação tática das forças de segurança acostumadas à repressão e investigação urbanas. O Departamento Penitenciário Nacional (Depen) levantou em fevereiro de 2020 que o número de pessoas presas por crimes relacionados ao tráfico de drogas chegaria a 39,4% da população carcerária então contabilizada. A massiva maioria dos presos no Brasil contrasta com apenas 11% presos por crimes contra a vida.

Percebe-se, sem grandes esforços, que as forças de segurança possuem pouco preparo e experiência para lidar com um criminoso de alta capacidade e periculosidade em uma região rural lindeira ao mato fechado. O aparato repressivo estatal está profundamente direcionado ao controle social em regiões urbanas de periferia que apresentam características físicas, sociais e históricas profundamente diferentes da conhecida dinâmica do tráfico nas regiões mais pobres. O genocídio da população negra e periférica obedece a um preparo já replicado quase instantaneamente nos meios policiais, ao passo que a missão da força-tarefa envolvida no caso ora discutida é radicalmente distinta.

A desorientação das forças de segurança diante do caso é notória a qualquer um que esteja acompanhando o desenrolar das operações. Da mesma forma, o poder público envolvido diretamente por meio das secretarias de segurança de DF e GO e do Ministério da Justiça também não perdeu a sua chance de mostrar sua limitação estrutural.

Em terceiro lugar, e encerrando este panorama geral sobre o caso, que procurou explorar a discussão de fundo que pode surgir do caso Lázaro, vemos que as consequências econômicas de todo o aparato colocado em funcionamento para a captura do fugitivo não podem ser desprezadas. E neste ponto podemos constatar que não se trata de mero acaso que assim seja.

Lázaro Barbosa cometeu determinadas atitudes típicas de ações terroristas. Obrigou o uso de drogas por uma moradora da região em conjunto com um trabalhador doméstico da propriedade em determinada ocasião; em outro momento, incendiou uma casa sem razão aparente.

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Ao mesmo tempo que a construção de sua imagem como elemento cruel perante as suas vítimas serve de motivação para que as polícias ofereçam rápida resposta à opinião pública, Lázaro também promove a anomia na região em que está supostamente escondido, não somente dificultando a sua captura mas debilitando emocional, psicologicamente e economicamente as populações locais.

Os horários de funcionamento do comércio se alteraram radicalmente nas regiões de Cocalzinho de Goiás, ao passo que a movimentação local tenha se reduzido em aproximadamente 60%, segundo comerciantes da região. Além disto, o sucessivo abandono total ou temporário de propriedades nas cercanias produziu uma profunda desvalorização de terrenos e propriedades rurais na localidade; embora não seja possível coletar dados específicos sobre o caso no atual momento, é possível que a produtividade do campo também tenha sido afetada no atual momento.

Não é possível negar que o modo de ação de Lázaro prioriza os pontos fortes do fugitivo ao mesmo tempo em que paralisa de terror os moradores da região. Cada vez mais afetados, a população local tende a se distanciar da área enfraquecendo ainda mais as cadeias sociais economicamente estabelecidas no espaço da cidade e dos povoados. Indiretamente, também restou exposta a fragilidade do fundamento das relações de trabalho e comércio capitalista, profundamente sociais e condicionadas à ação de uma classe produtora.

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Independente de qual seja o desfecho da atual questão, é provável que não sejam esquecidas as marcas e sequelas que um verdadeiro teatro de guerra deixou no coração do Brasil.

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