Corrupção, vacinas e o governo Bolsonaro: o caso CanSino Biologics

A vacina tinha um custo apontado na imprensa de 4 dólares, muito abaixo dos 17 pretendido pelo governo

Imagem: Miguel Noronha
por Alexandre Lessa da Silva

Em 18 de maio, às 11 e 26 da noite, a Anvisa recebe o pedido de autorização para uso emergencial da vacina Ad5-nCoV, nome comercial Convidecia, contra a Covid-19. A vacina em questão foi desenvolvida pelo laboratório chinês CanSino Biologics, tendo como parceiro o Instituto de Biotecnologia de Pequim e a Academia de Ciências Médicas Militares da China, para ser aplicada em dose única e que utiliza uma plataforma vetorl viral não replicante, com base em um adenovírus (como a vacina da AstraZeneca). A Convidecia tem eficácia na prevenção de sintomas moderados da Covid-19 de 65,7% e 91% na prevenção de doenças graves e já foi aprovada emergencialmente por diversos países, tendo sua aprovação plena somente concedida na China. Há, ainda, uma versão em spray nasal da vacina em duas doses, mas que ainda se encontra na fase 1 de testes.

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Apesar de a vacina ser apresentada em dose única, há um debate sobre a necessidade ou não da aplicação de uma segunda dose. Esse debate começou com um questionamento sobre a redução da eficácia da vacina depois de seis meses. Entretanto, a Cansino desmentiu a perda de eficácia, mas defendeu uma segunda dose como reforço no México. Portanto, o mais provável é que seja necessária a aplicação de duas doses dessa vacina para uma imunização completa.

O preço médio, informado pela Deutsche Welle, é de quatro dólares, o segundo preço mais barato das vacinas aplicadas nas Américas, perdendo apenas para a AstraZeneca. O mesmo valor é dado por um artigo mais recente, o que coloca a vacina em debate como altamente competitiva no campo econômico, conforme também demonstra a Forbes.

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Tudo andava bem para o governo brasileiro até a publicação de um aviso a CPI da Covid e à imprensa, realizado pelo jornalista Hugo Souza, conforme informado pela Fórum. Na advertência, Souza diz que o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, o mesmo apontado pelo deputado Luis Miranda – e seu irmão – como o político que está sendo acobertado por Bolsonaro (prevaricação) na negociata envolvendo a vacina Covaxin, é próximo do empresário Francisco Feio Ribeiro Filho, conhecido como Chiquinho Ribeiro.

O acordo de intenção de compra da vacina da Cansino foi realizado com a Belcher Farmacêutica do Brasil, representante da farmacêutica chinesa, e assinado pelo secretário em Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros. A Belcher está localizada em Maringá (PR), reduto político de Ricardo Barros que, por sinal, já foi prefeito da cidade. Um de seus sócios é Daniel Moleirinho Feio Ribeiro, filho de Chiquinho Ribeiro, empresário muito próximo de Barros.

Chiquinho Ribeiro foi presidente da empresa de urbanização de Maringá (Urbamar) quando Barros era prefeito, foi citado no Imposto de Renda de Barros e, durante o curto governo de Cida Borghetti (esposa de Barros) como governadora do Paraná, esteve na direção da Companhia de Saneamento do estado (Sanepar).

Estranhamente, foi aberta, em seis de janeiro do ano vigente, a empresa Rcy Brasil & Belcher Spe LTDA, com sede no mesmo endereço da empresa anteriormente citada, com capital social de um milhão e cem mil reais, novecentos mil reais a menos que a primeira Belcher. Entre os sócios dessa nova empresa, a Belcher Farmacêutica do Brasil é listada. Ambas as empresas têm, portanto, um capital social somado de três milhões e cem mil e Emanuel Ramalho Catori no quadro de seus administradores, assim como a presença da família Ribeiro.

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Segundo a Reuters, o Brasil planeja pagar 17 dólares por dose da vacina da Cansino, comprando ao todo 60 milhões de doses, um contrato de mais de um bilhão de dólares. Pagando 17 dólares por dose, a vacina chinesa Convidecia será a mais cara do Brasil para a Covid, mais cara até que a Covaxin do escândalo dos irmãos Miranda, com preço de 15 dólares.

Por mais inverídico que possa parecer, junto com Emanuel Catori, por trás do pedido de liberação da Convidecia estão: Carlos Wizard e Luciano Hang, dois dos mais conhecidos bolsonaristas.
Leonardo Rossato, pelo Twitter, desenrola o modus operandi utilizado por Ricardo Barros e o governo Bolsonaro. Primeiramente, Rossato ressalta que a lógica aplicada no caso Cansino é a mesma da Precisa e Covaxin e seria repetida no caso da Sputnik V – algo que possivelmente foi inviabilizado pelo Consórcio Nordeste e seus governadores, na minha visão.

Seguindo o roteiro do Centrão, apresentado por Rossato, constata-se que todas as empresas citadas não têm representação no Brasil, num primeiro momento arranja-se, então, empresas para representá-las com dirigentes e sócios ligados a Ricardo Barros: Francisco Maximiano (Covaxin), que foi levado ao BNDES por Flávio Bolsonaro, Fernando de Castro Marques (Sputnik V), CEO da União Química, e Chiquinho Ribeiro e seus sócios (Cansino). As vacinas são aprovadas, de uma forma ou de outra, pela Anvisa. O negócio é fechado.

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Duas coisas importantes deverão ainda ser lembradas no caso Cansino: a primeira, a vacina tinha um custo apontado na imprensa de 4 dólares, muito abaixo dos 17 pretendido pelo governo e, não menos importante, é bem provável que haja a necessidade de uma segunda dose, o que dobrará o prejuízo.

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As vacinas contra o Sars-CoV-2 não podem parar de chegar, mas todos os contratos feitos por Bolsonaro necessitam ser revistos, sem exceção. O que ocorreu em muitos estados com os respiradores, ano passado, agora se repete com as vacinas e o Governo Federal. Pior ainda, pois a escala é bem maior e os governadores, por sua vez, ainda podem apelar para a desculpa da pressa e da urgência da compra. Bolsonaro, está provado, não teve nenhuma pressa em comprar vacina, pelo contrário, retardou ao máximo, talvez buscando o melhor esquema para fazer a compra. Como os próprios bolsonaristas afirmaram, “corrupção durante uma pandemia é o pior dos crimes”. Agora, que respondam por suas cobranças de corrupção.

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