Contra o golpe, é Boulos ou nada!

Esquerda tem chance de derrotar os tucanos na maior cidade do país, é hora de se mobilizar para tirar Covas e Doria da prefeitura

Imagem: Diego Abrahão
por Alexandre Flach

Com o Brasil no bolso dos EUA, o golpe de 2016 segue firme em sua terceira fase: a consolidação. As eleições de 2020 dizem muito sobre o que vai bem e o que vai mal nesta tarefa da burguesia, revelando, principalmente os caminhos de resistência popular e das suas lideranças, com todas as naturais contradições, acertos e erros. Sem esquecer, é claro, dos pseudo-radicais, que não disputam seriamente os postos de poder existentes na democracia burguesa nem trabalham seriamente para a construção de novos lugares de poder, pela via revolucionária. Sectários, eles serão sempre divisionistas.

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Tarefa 1: dar o golpe

2016 foi o ano do golpe. Foi uma paulada na esquerda com toda a força que a burguesia tem: imprensa, Judiciário, poder econômico, militares. Tudo junto, coordenado. Colocaram o Temer, “com STF, com tudo”. Ou quase tudo: faltava a legitimidade do voto popular, mesmo que de mentirinha. 

Ainda assim, o projeto do Nosferatu brasileiro prestou um belo serviço golpista. Livrou uma boa grana do orçamento público para os bancos através do teto de gastos, liberou a mão-de-obra brasileira para ser devidamente escravizada pelas rappineiras do Vale do Silício, através do desemprego e da reforma trabalhista — que tira grana do mercado interno e enfraquece a empregabilidade — e iniciou o processo de doação de petróleo aos EUA através das concessões do Pré-Sal e da paralisação das nossas refinarias. Mas, faltava ainda o fator Lula. 

Tarefa 2: passar o golpe a limpo

2018 foi o ano de passar o golpe a limpo. A burguesia precisava de uma eleição que lhe desse, finalmente, tudo. Não precisava ser uma eleição limpinha (se é que isso um dia existiu), podia ser com fake news, com candidato coletado no esgoto e imundo até o buraco da orelha.

Eleição sim? SEM Lula ou NADA. O “sem” e o  “nada” eram processos em pleno andamento. Condenações sem crime, sem prova e sem juiz. Ou, nada de eleição, e um golpe militar já estava prontinho na manga da burguesia. Ou Moro ou Mourão. A intensidade seria ditada pela história.

Com a baioneta no pescoço, Lula e o PT abriram mão da eleição de 2018 e o golpe foi passado a limpo pela mais suja de todas as já miseráveis eleições brasileiras, com candidato bolsonarista ganhando milhões de votos por hora e petista despencando por todo o Brasil. Foram as 48 horas mais ridículas que um sistema eleitoral totalmente eletrônico seria capaz de produzir.

Tarefa 3: limpar as evidências, “normalizar” o golpe

Agora, com Paulo Guedes no poder (apesar de Bolsonaro), e o Brasil definitivamente no bolso dos EUA, chegou a hora de limpar as evidências, sumir com o corpo, limpar o sangue, esconder as armas. Caserna feliz nas tetas do Estado —  com cargo novo para garantir o leitinho do povo… (lá da casa deles) — pra quê os militares iriam largar mão do carpete e ar condicionado do poder em Brasília para se incomodar agora em mexer com esse negócio de tortura, DOI-CODI, censura etc?

Fechar o regime? Larga mão disso… Fascismo? Nunca! Claro que se a burguesia precisar, um bom capacho fardado não foge à luta. Mas tudo indica que não… Estão bem assim mesmo. Milícias verde-amarelas agora inúteis, Damares malucas e Bolsonaros ridículos atrapalhando a sustentabilidade do golpe, com ódio e polarização, chegou a hora de ensaiar um pseudo “Ele-não” global e de soltar o Lula. Vamos para o centro.

Lula solto mas não livre. Até razoavelmente influente, mas elegível, de jeito nenhum. Assume-se o risco de Lula na rua para permitir uma contínua exposição do ex-Presidente como a outra face da mesma moeda do Bolsonaro, e de quebra ir aos poucos deixando o povo esquecer a enorme injustiça da qual ele foi vítima, com a sua prisão  mantendo uma incômoda indignação entre o povo. Melhor cuidar logo desse vazamento de gás, antes que uma fagulha (chilena ou boliviana, quem sabe?) o fizesse explodir. 

A burguesia confia na plena capacidade da sua imprensa de convencer o povo de que, entre Lula e Bolsonaro, o melhor mesmo é uma terceira via. Terceiras vias são sempre bem-vindas para maquiar a cisão invencível da sociedade do 1% contra os 99%.

Centro, volver: hora de guardar o fascismo na jaula e isolar a esquerda

A esquerda comemora o recuo do bolsonarismo nesta última eleição esquecendo de duas coisinhas: a mais intensa campanha anti-Bolsonaro foi a Globo quem fez, e o crescimento da direita tradicional, estilo DEM, REPUBLICANOS, entre outras aberrações (o PSDB parece que será mesmo canonizado como o mártir do golpe) é inegável. O recuo do fascismo é muito mais uma opção da burguesia do que um avanço da esquerda. E isto é extremamente preocupante.

Preocupa porque começa a pintar um clima ingênuo de otimismo entre os companheiros da esquerda, e este clima é necessariamente desmobilizador. Com o bandido na sala, de arma na mão, achamos que estamos mais tranquilos porque, no momento, ele não está apontando o trêsoitão para nossas cabeças. O perigo está ali, exatamente como antes, mas agora estamos desatentos, relaxados.

Preocupa, também, porque podemos pensar que temos mais poder do que realmente temos, que estamos voltando a reconquistar o terreno perdido no meio do povo, que 2022 será vencido até mesmo sem Lula, que podemos nos dar ao luxo de voltar a colocar nossos pequenos projetos partidários acima da briga contra a burguesia, acima da luta de classes. Podemos pensar até que já estamos ficando “bem na fita”, “vamos comemorar!”. 

Um PT sem Lula, tipo PDT sem Brizola

Em resumo, preocupa porque passamos a achar que no jogo da burguesia pós-golpe, enfim, há um lugarzinho ao sol reservado para nós vermelhinhos da esquerda dos anos 80 do século passado. Só que não.

No futuro pós consolidação do golpe não há lugar para a esquerda tal como a conhecemos hoje, ou seja, para tudo aquilo que surgiu em decorrência das lutas proto-revolucionárias contra a ditadura militar de 64, que engloba desde o mais moderado petista até o mais aguerrido trotskista do PSTU, que sabe que a revolução vai começar amanhã, às seis. E isto, passando por todas as gradações do PCdoB, PSOL, do PCB e até mesmo pela nascente — e bem-vinda — UP.

A consolidação do golpe é a implantação de um “fascismo soft”, como nos EUA. Ou seja, um fascismo que deixa a classe média tranquila, na ilusão de um mundo livre, enquanto desce o cacete na cabeça do trabalhador rebelde, dos favelados e dos negros em geral, e, de quebra, isola totalmente o povo e suas organizações dos espaços reais de poder. Neste admirável novo mundo que a burguesia zelosamente nos prepara, a esquerda será no máximo o PDT, CIDADANIA, PROS. 

O resto vai tudo pro nicho, isolado e autoiludido, onde hoje já se encontram os trotskistas, maoístas, foquistas etc. E o PT? Pode continuar a existir se seguir o exemplo do PDT. Um PT sem Lula, do mesmo jeito que ficou o PDT sem Brizola.

Triste fim de Policarpo Quaresma? Opa! Nem tanto!

Mas esse plano pra lá de horrível pode dar errado, e estas eleições demonstraram um pouco dos riscos que a burguesia corre. Principalmente através do avanço das candidaturas que estão claramente fora do enredo da burguesia, como a do Boulos, Marília Arraes e Manuela D’Ávila. 

Claro que sempre vai existir aquela análise pouco marxista que julga as pessoas pelo viés da moral e dos bons costumes. Gente “de bem” da esquerda, que, no melhor estilo monsenhor-padre do interior do sertão, fica dizendo que Boulos não presta porque “apoiou o golpe” (e já escreveu pra Folha!), a Manuela também não, uma simples “oportunista” de carreira, e a Marília Arraes nem precisa explicar pois seu sobrenome já diz tudo.

Mas fora desse pântano triste de opiniões morais sem esperança, o que há de objetivo é que os três são notoriamente ligados a Lula, que é o grande alvo político do golpe desde sempre e para sempre, e disputam seriamente importantes cargos de poder. Tudo o que a burguesia não quer neste momento.

 

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Um socialista em São Paulo?

Boulos, por sua vez, faz o que nem mesmo Lula teve condições ou quis fazer até hoje: se declara abertamente socialista. E tem como negar? Líder do MTST, com suas ocupações batendo de frente no sagrado direito de propriedade burguês, Boulos não tem outro caminho a não ser assumir-se como socialista. E faz isso muito bem, como se vê no vídeo aí em cima. E isso é bom para toda a esquerda, pois não existe processo político sustentável para uma esquerda de verdade que não tenha o socialismo no horizonte. 

A luta contra a burguesia dentro do Estado burguês, da sociedade burguesa, imersa na ideologia burguesa, sempre será uma luta por algumas concessões aqui e ali, pois, nesta situação, a burguesia manda e desmanda. Claro que não é onipotente, mas manda. Por isso, sem uma perspectiva socialista, mais cedo ou mais tarde, quando a burguesia inevitavelmente cansa da brincadeira e toma a bola da esquerda, o povo se sente traído por suas lideranças e passa a ser profundamente tentado a saídas de extrema… direita. 

Sim, pois a extrema-direita sempre se apresenta como a solução radical e não institucional que a esquerda somente pode evocar para si quando se assume socialista. Exatamente o que o MTST faz “invadindo” prédios por aí para pobre morar. Olha que horror o Boulos parece a um almofadinha champagne-français-foie-gras da burguesia.

Agora, é todo mundo Boulos!

Se já no primeiro turno era hora de ver a esquerda agindo como um único partido, todo mundo lutando junto com Boulos em São Paulo, com Benedita no Rio e com Manuela em Porto Alegre, neste segundo turno, e na maior capital do país, terra da nata da burguesia nacional, todos que não sejam obstinadamente divisionistas — ou que queiram desesperadamente ajudar a burguesia a consolidar o golpe — deveriam ter em mente que é hora de apoiar o companheiro socialista que disputa o governo na capital paulistana.

É hora de militante ir pra rua em São Paulo, de mandar brasa em redes sociais pelo Brasil afora, de falar com amigo, parente e vizinho sobre o que está em disputa na capital paulista, de juntar toda a esquerda, polarizar com a direita, vencer essa batalha e colocar um socialista no centro nervoso do poder econômico do país.

A não ser quem trata a política como uma religião, com seus santos e pecadores, não dá para dizer que Boulos fez um “bom trabalho” para o golpe e será agora recompensado, como alguns arrotam por aí.

Tudo o que a burguesia não quer mais é um regime político politizado pela polarização. Ou seja, tudo o que o grande capital não quer é exatamente o que ocorre hoje em São Paulo. E justamente em São Paulo! 

Um prefeito de São Paulo assumidamente simpático a Lula e mais assumidamente ainda socialista, com poder de fogo para, em 2022, colocar no centro da disputa eleitoral a esquerda-raiz, com possibilidade de até mesmo trazer o socialismo para o debate, é uma estaca fincada no coração dos planos de consolidação do golpe.

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E não duvide: em anos vindouros, de pandemia e crise econômica, a ideia de uma sociedade socialista pode acabar se tornando irresistivelmente sedutora.

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