Comunismo: uma terra sem patrão, um mundo sem Estado

Quem não quer Estado vai ter que lutar para acabar com a burguesia que usa os impostos que tiram do seu bolso para garantir a segurança do lucro deles

Comunismo uma terra sem patrao um mundo sem estado - O Partisano
por Alexandre Flach

O texto abaixo é a terceira parte da série Fogo e revolta nas ruas: para onde vai a luta popular?

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Para quem foi jogado aqui sem paraquedas por esses algorítmos da vida, antes de ler esse texto, é bom dar uma olha nas inquietações que deram origem a mais esta série do OPartisano (e que estão me rendendo algumas horas de monitor e insônia, pensando, pesquisando e escrevendo) em Fogo e revolta nas ruas: pra onde vai a luta popular? E se você quiser entender melhor que rumo está tomando essa prosa, melhor ler também o dramático A luta do povo por sua auto-organização.

Bom… Tudo lido, sigamos partisanos!

Só vendo a hora que vai chegar aquele ancap chato falando besteira contra o comunismo

Tem gente que ainda não descobriu, mas quem inventou o termo “comunismo” foi um alemão barbudo, chamado Karl Marx, que trabalhava de 15 a 20 horas por dia estudando, pesquisando e escrevendo (isso quando não estava nas ruas, agitando o povo para a revolução proletária), trabalhando duro para produzir toda uma pesquisa científica sobre a sociedade que a gente hoje, só para entender, tem que ficar umas boas 15 a 20 horas por dia estudando, e por vários anos.

Como foi Marx que veio com essa de comunismo, posso estar errado, mas realmente penso que seria melhor acreditar mais no que ele disse sobre o comunismo do que nas centenas de youtubers coxinhas, comentaristas de facebook, anarcocapitalistas arrogantes e seguidores de sites recheados da grana que os bancos pegaram dos cofres públicos brasileiros. Mas enfim… cada um acredita no que quiser. Até porque, o que seria do amarelo se não fosse o mal gosto, não é mesmo?

E o negócio é o seguinte: o cidadão que inventou o termo disse que comunismo refere-se a um momento histórico – a que a humanidade chegará inevitavelmente – onde não existe mais estado.

Isto mesmo!! Comunistas lutam lutam por uma sociedade sem Estado!

Uhu! Grande revelação! Quase consigo ouvir a gritaria de horror de lombrigas apavoradas nos intestinos anarquistas, ancaps, coxinhas e extremo-direitistas-liberais. Mas é isso mesmo. Foi o que Marx disse: no comunismo não tem Estado.

Claro que os especialistas pós-verdade da internet refutam o inventor do termo: “Não!! Quem ‘defende’ uma sociedade sem Estado são os anarquistas!! Comunistas querem todo mundo escravo do Estado!!”. Ok, você acredita em quem quiser, mas a verdade é que a real diferença entre anarquistas e comunistas não está no asco que ambos igualmente têm contra o Estado, patrões, senhores e toda e qualquer espécie de dominação do homem pelo homem. Na verdade, quem adora o bom e velho Estado é justamente o capitalista, o patrão, o burguês, o cara que está em cima da carne seca do povo e precisa defender o seu “direito” de explorar todo mundo, acabar com o planeta e reduzir a humanidade a uma massaroca de miseráveis famintos de corpo e alma.

Anarquistas e comunistas: tantas coisas em comum…mas quanta diferença

Entre nós, anarquistas e comunistas que odiamos o Estado com todas as nossas forças, a diferença é que o anarquista é um cara mais idealista, que acha que para chegar a um mundo sem Estado basta convencer a maioria da humanidade de que esta é uma solução legal. Automaticamente, esses três ou quatro bilhões de humaninhos recém convertidos para o anarquismo entrarão juntos na onda da desobediência civil, virarão as costas ao Estado, e está acabado. O mundo será transformado pela palavra de Proudhon e todos seremos livres. Vai ser lindo!!

Já os comunistas – um tantinho assim mais realistas – olham isso aí e perguntam: Certo camarada, mas como as pessoas vão fazer para colocar comida no prato, roupa no corpo e o corpinho dentro de uma casa que pelo menos dê para fugir da chuva, do sol e das pandemias globais nesse seu lindo mundo recém conquistado? Será mesmo que se sete bilhões de pessoas usarem todo poder iluminado das suas vontades brilhantes para mentalizar a mais pura terra anarquista prometida vai ser o que basta para que este mundo simplesmente aconteça, num passe de magia revolucionária?

Os pragmáticos comunistas perceberam que precisaremos algo mais do que a simples vontade – mesmo que de bilhões de pessoas – para concretizar o sonho do novo mundo sem Estado. Primeiro precisamos ter nas nossas mãos tudo o que produz a comida, a roupa, a casa, os remédios, a energia, ou seja, tudo o que o povo precisa para viver nesse nosso lindo amanhã.

Isto, claro: a não ser que passar fome e frio seja uma realmente uma opção. Mas tudo indica que esse novo mundo não irá parecer assim tão lindo para quem estiver passando fome na rua, depois de uma boa noite batendo o queixo de frio, e ainda com uma “gripezinha” para completar a louca alegria de viver sem Estado. E olha que ainda hoje existem alguns hippies que quase morrem tentando, mesmo sem LSD!

E você pensou que era fácil, né companheiro? 

Então os comunistas perceberam que para chegar no lindo mundo sem Estado dos anarquistas, tem uma coisinha antes para fazer: o povo tem que tomar o poder, tem que fazer uma revolução. Pois é… lembra daquela turma que se criou na Idade Média, usou o povo para tomar o poder das monarquias e que depois da Revolução Francesa foi dominando o mundo inteiro? Então, eles estão no poder até hoje, mandando e desmandando na sociedade toda. Eles podem. E podem por um só e único motivo, são eles que dominam os meios de produzir tudo o que a gente precisa para viver.

E olha que incrível! Eles continuam até hoje usando o povão para isso. Do mesmo jeito que fizeram para guilhotinar a cabeça dos reis, só que agora é nas fábricas e nas roças, colocando o povo para trabalhar. É isso o que eles realmente fazem quando dizem que estão suando para “dar emprego” para você. Dar emprego nada. Estão só colocando você para trabalhar para eles até morrer. E esse trabalho não serve apenas para produzir coisas como comida e roupas que todo mundo realmente precisa. No processo, a burguesia inventou um jeito de gerar o seu próprio poder.

Enquanto produzimos a roupa que precisamos para vestir ou o computador que precisamos para jogar DOTA, a burguesia usa do seu trabalho para produzir isso para também gerar grana, em um mundo onde grana é poder. O mundo que ela mesma fez, desse jeitinho, em que viver sem grana não é uma opção, e quem tem muita grana pode tudo. Em termos mais científicos, aquela grana que dá para guardar e ir acumulando é chamada de capital. Marx viu isso. E por esse motivo chamou o nosso mundo de “capitalista”.

Primeiro o povo tem que chegar chegando: perdeu meu irmão, agora é tudo nosso

E com o dinheiro nas mãos e um mundo capitalista no coração, os burgueses têm as armas, polícias, governos, Estados, tudo sob o seu poder. Percebeu? Eles têm tudo o que precisam para fazer o lindo mundo anarquista sem-Estado simplesmente não acontecer jamais. E foi essa cilada que Marx e os comunistas perceberam já há um certo tempo, uns 200 anos mais ou menos.

Para resumir: os comunistas – e o primeiro deles, Marx – perceberam que para chegar ao lindo mundo sem Estado que todos desejamos, primeiro teremos que arregaçar as mangas e cumprir uma tarefa histórica: precisamos fazer uma revolução. E não é revolução das ideias, revolução da educação, revolução do amor, revolução do rock, dos costumes, do cabelo estranho ou da tatuagem muito louca. É revolução raiz mesmo: aquela que tem povo de arma na mão tomando fábricas, fazendas, comércio, refinarias, hidrelétricas, mineradoras, transporte, enfim: pegando tudo. Chegar chegando. A revolução em que o povo chega para a burguesia e diz: perdeu meu irmão, agora é tudo nosso.

Até porque não é muito provável que os anarquistas – por mais geniais que sejam – vão realmente conseguir convencer na boa, no papo, os burgueses a deixar a gente construir aquele “mundo melhor”… sem burguesia. Por melhor que seja a conversa do camaradinha que diz que coloca o seu nome em um grão de arroz, e você acredita, é mais provável que a burguesia vai acabar não se comovendo muito com as ideias anarquistas e realmente vai até insistir bastante em continuar existindo.

“Prosperidade”: comprar uma motinho antes de morrer

Na real, os burgueses, os únicos verdadeiramente empoderados no mundo capitalista, vão é usar toda a força que tiverem nas mãos para construir e manter um Estado totalmente em benefício deles. Armando a polícia e desarmando o povo, treinando o exército, criando leis, dando um bom naco de autoridade para uns juízes bem conservadores, muito bem pagos e paga-paus de ricaços, construindo um monte de cadeias pra entulhar lá gente pobre ou rebelde.

E por que não? Fazendo uma boa lavagem cerebral no povo com propaganda pró-capitalista, pela televisão, youtube, facebook, netflix, instagran, zapzap, boneca Barbie e Xou da Xuxa, seja lá o que for preciso, até chegar no ponto em que o irmãozinho lá da favela vai acreditar que virou empreendedor e homem de negócios pegando aquela bike laranjinha alugada e carregando um caixote de isopor nas costas 15 horas por dia pra ganhar uns cinquenta contos, sonhando em “prosperar” e conseguir comprar uma motinho pelo menos antes de morrer.

A burguesia vai mesmo é querer pôr na sua cabeça, meu amigo proletário, que é melhor deixar o mundo assim do jeitinho que ele é, capitalista, bem cheio de polícia, gente pobre e gente rica, patrões e empregados, ricos e pobres, senhores e escravos, governos e governados, pastores e ovelhas. Uma sociedade SEMPRE E PARA SEMPRE COM ESTADO. O ESTADO BURGUÊS. E é isso: fim da história. Tem jeito não. Só Jesus salva e o mundo é assim mesmo e acabou-se. Taoquei?

Por isso que para acabar com o Estado, caros companheiros anarquistas, só acabando com a burguesia que o mantém e que vive dele, para ele e através dele. Quem não quer Estado vai ter que lutar para acabar com a burguesia que usa os impostos que tiram do seu bolso para garantir a segurança deles e que também não deixa de mamar direto na teta do Estado, passando a mão sem dó em quase metade do que é arrecadado no esforço do povão, dizendo que se tratam de “dívidas do governo”.

Fora, véios da Havan do mundo inteiro!

Para os comunistas, o mundo não tem jeito sem arrancar das mãos dos véios da havan do mundo inteiro as suas fontes de riqueza e poder. Precisamos de uma boa revolução antipatrão, anticapitalista. Este é o método comunista de se chegar ao mundo sem Estado.

– Beleza, convença então o povo a fazer a revolução que eu boto fé no comunismo, diz o inteligente companheiro anarquista (rindo).

Não, meu caro. Para Marx, não é assim não. A revolução não nasce na base do convencimento. Se fosse dessa forma, ela não seria inevitável, e os comunistas estão convencidos de que a revolução vem mesmo, de um jeito ou de outro, estejam as pessoas convencidas disso ou não, e até mesmo que ninguém saiba o que realmente está acontecendo. Os burgueses também não sabiam o que os movia de fato quando derrubaram reis e rainhas pelo mundo afora. Apenas respondiam às necessidades do seu tempo, exatamente igual ao que sempre fizeram os seres humanos em todos os tempos e lugares.

Não sabia? Já estamos na era das revoluções

E aí vem aquele amigão, pobre de direita, cheio de mimimi:

– Ah, mas na Rússia não foi assim não! Stalin era um ditador, passaram fome, morreu… (e aí você usa seu direito de legítima defesa e para de ouvir).

Na verdade, o que houve na Rússia faz parte de uma transição. A burguesia também não tomou o poder de uma hora para outra. A revolução burguesa persistiu algo em torno de 500 anos, nas idas e vindas de um longo regime de transição que é chamado de Baixa Idade Média e Idade Moderna, onde gente morreu, passou fome, veio até o absolutismo de diversas monarquias, para só depois de tudo isso a burguesia consolidar o seu poder na Revolução Francesa e mandar seus opressores definitivamente para a guilhotina.

O povo trabalhador está indo no mesmo caminho. E até bem mais rápido. Muitos consideram que já estamos em uma verdadeira “Era das Revoluções”, onde o sistema capitalista não é mais capaz de dar suporte a toda a força criativa e produtiva da humanidade e acaba virando um estorvo qualquer um que queria progredir, gerando revoltas cíclicas, por todos os lados. Nos países mais avançados nesse processo, como a China, o que eles conseguem fazer em termos de produção, tecnologia, crescimento econômico e bem-estar de sua população, em comparação até mesmo com a mais rica nação capitalista do mundo, os EUA, chega a parecer um milagre para nós.

Até mesmo a Rússia, que era um paisinho miserável, dos mais pobres da Europa, em menos de 30 anos se tornou uma superpotência mundial. E isso enfrentando e vencendo duas guerras avassaladoras: uma contra as potências burguesas (Inglaterra, Alemanha, França, Itália etc), a guerra “civil” russa, e outra contra a maior máquina de guerra fascista antes dos EUA, o III Reich de Hitler.

Para falar a verdade, a Rússia e o seu jeitinho todo russo de fazer revolução é um ótimo assunto para a nossa próxima conversa nessa série. Porque será que aquele o povo que antes de todos os outros sentiu o gostinho bom de ter o poder nas próprias mãos não chegou no orgasmo de conquistar a terra sem senhores?

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É o que veremos na próxima, Partisanos!

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