Como a Revolução Russa de 1917 moldou o mundo todo até hoje

Graças à União Soviética a máquina de guerra nazista foi derrotada e os direitos trabalhistas, assim como educação e saúde universais, foram adotados em boa parte dos países

Imagem: Shutterstock
por Alexandre Flach

O texto abaixo é a quarta parte da série Fogo e revolta nas ruas: para onde vai a luta popular?

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Neste quarto texto da série O Fim do Capitalismo, vamos dar uma olhada nesta enorme balbúrdia que o povo da Rússia aprontou há 100 anos, uma revolução que no melhor estilo russo, na marra, pariu a fórceps a sociedade do século XX. (Leia os textos anteriores aqui, aqui e aqui).

Foi uma revolução feita à base de genialidade, coragem, disciplina e muito senso de oportunidade. Tão aos trancos e barrancos que nem Marx e Engels botavam fé. Marx não só considerava a Rússia atrasada demais para uma revolução socialista mas também francamente reacionária, uma verdadeira força contrarrevolucionária na Europa. 

Para Marx, a revolução socialista não seria russa

Para Marx, a Rússia de sua época era o último dos lugares onde se poderia esperar uma mudança social nos moldes concebidos em sua teoria, baseada em leis naturais do desenvolvimento da sociedade e não na volúvel intenção e opinião das pessoas:

“Ainda que uma sociedade tenha descoberto a lei natural de seu desenvolvimento, (…) ela não pode saltar suas fases naturais de desenvolvimento, nem suprimi-las por decreto. Mas pode, sim, abreviar e mitigar as dores do parto.” (Prefácio de O Capital)

Na visão do marxismo, não dá para pular etapas e decretar o fim do capitalismo, do feudalismo ou seja lá do que for, mesmo que todas as pessoas estivessem convencidíssimas, por exemplo, de que o socialismo é o melhor dos mundos. O socialismo nasce do desenvolvimento econômico e não simplesmente da decidida e disciplinada “vontade revolucionária das massas”. A consciência de classe pode apenas mitigar as “dores do parto” desta nova sociedade, quando as condições econômicas e objetivas já são uma realidade, o que não era, nem de longe, a situação da Rússia de 1917.

Engels também não botava fé na Rússia

Engels então, era ainda mais didático e direto. Refutava por completo a ideia de uma revolução nos moldes marxistas na Rússia, que mal e mal tinha uma burguesia. Para este mestre co-fundador do marxismo, quem acredita em uma revolução na Rússia “só demonstra com isto que ainda tem de aprender o ABC do socialismo”. (Do Social na Rússia)

E não se apressem em “refutá-lo”, camaradas. Profético, previu Engels o ciclo completo de existência da URSS: “só num certo grau de desenvolvimento das forças produtivas sociais — e [num grau] muito alto mesmo para as condições do nosso tempo — se torna possível elevar a produção tão alto que a abolição das diferenças de classes possa ser um progresso real, possa ser duradoura, sem ocasionar uma estagnação ou mesmo um retrocesso no modo social de produção”. Pois é…

Mas a revolução é inevitável

E não se passa na cabeça de ninguém que esses dois grandes revolucionários não acreditassem em revolução! Na verdade, para Marx e Engels o socialismo é inevitável – caso a gente não se destrua primeiro, claro. 

Mas por quê? Porque o capitalismo desenvolve tanto a produção, que chega uma hora em que fica tão simples e barato produzir tudo o que precisamos, as coisas ficam tão à mão, digamos assim, que a única coisa que nos impede de ter uma sociedade de plena abundância e prosperidade generalizada é a burguesia. Nestas condições, as revoluções que destruirão a burguesia serão tão inevitáveis como as que destruíram o poder dos reis e rainhas do mundo inteiro quando o feudalismo havia sido destruído por dentro pelo avanço inevitável do capitalismo.

Só faltou combinar com os russos

Engels tentou, mas não convenceu os russos. Para o “Sr. Tkatchov”, por exemplo, que discutiu direto com o alemão, o fato de não ter uma burguesia forte na Rússia era exatamente o que iria permitir “fazer na Rússia uma revolução social com a maior das facilidades, muito mais facilmente do que na Europa ocidental”. 

Sinta a teimosia das palavras do Sr. Tkatchov:

“Entre nós, não existe nenhum proletariado citadino, isto é, sem dúvida, verdadeiro; só que, por isso, também não temos nenhuma burguesia… os nossos operários terão meramente de lutar contra o poder político — o poder do capital, entre nós, está apenas em germe. E V., meu [caro] senhor, saberá bem que a luta com o primeiro é muito mais fácil do que com o último.”

Os teimosos russos, principalmente os Bolcheviques, estavam mesmo convencidos de que justamente o atraso econômico da Rússia do início do século XX, que colocava a sua burguesia em uma posição subalterna frente às poderosas burguesias imperialistas da Europa Ocidental – e também debaixo do comando do imperador russo, o Ksar – era o que iria permitir ao povo tomar o poder. 

E tinha lógica, pois com o Estado nas mãos da monarquia, a burguesia russa não tinha poder sobre os aparelhos repressivos estatais e também limitava-se muito sua capacidade de conduzir uma política geral de contenção de classes, reduzindo sensivelmente a capacidade da burguesia de manipular as massas.

Pão, paz e terra

Por outro lado, a fome, a guerra e os conflitos agrários da Rússia faziam subir a fervura das massas populares em uma mobilização crescente, que se concentrava na população urbana e operária de Petrogrado – hoje, São Petersburgo. A luta estava prestes a explodir através das reivindicações interpretadas perfeitamente nas palavras de ordem bolcheviques: “pão, paz e terra”!

Ninguém aguentava mais trabalhar como um camelo faminto, levar chicotada dos poucos donos de terras do país, vendo seus filhos, pais, jovens e homens maduros morrer nas guerras idiotas do Ksar.

E os bolcheviques, na verdade, já vinham fazendo a sua lição de casa há várias décadas. Acertaram no alvo da práxis, levando quase à perfeição as tarefas pré-revolucionárias básicas que Lenin sintetizaria depois como a condição essencial para os mais conscientes da classe trabalhadora transformarem-se em lideranças legítimas aos olhos do povo:

“Ocupar-se energicamente das questões concretas da vida dos operários, ajudá-los a se desembaraçar dessas questões, chamar sua atenção para os casos de abusos mais importantes, ajudá-los a formular exatamente e de forma prática suas reivindicações aos capitalistas e, ao mesmo tempo, desenvolver entre eles o espírito de solidariedade e a consciência da comunidade dos operários de todos os países como uma classe unida que constitui parte do exército mundial do proletariado”. (Terceiro Congresso da Internacional Comunista)

Essas mulheres russas…

O resultado desta longa preparação superou todas as expectativas dos bolcheviques. Em fevereiro de 1917, as mulheres operárias das fábricas de tecidos de Petrogrado, desobedecendo a orientação das direções bolcheviques, iniciaram uma grande greve, foram às ruas, chamaram os homens, operários de outras fábricas, a aderir ao movimento e ainda conseguiram arrastar para a luta também a maioria dos soldados do exército ksarista, que desertaram trazendo junto as armas e munição, o que armou todo o povo para a luta. Em questão de dias, a rebelião iniciada pelas mulheres russas sepultou para sempre a odiosa dinastia dos Ksares.

Mas a rebelião por si só não teria com se estabelecer definitivamente sem uma clara liderança política que lhe desse esta voz. O movimento giraria em círculos, como vemos nos dias atuais, sem atingir o seu alvo, por mais poderoso que fosse.

Só que os bolcheviques, mesmo tendo sido atropelados pelas mulheres em luta, tinham ganhado a confiança em geral do povo, até porque eram em grande parte trabalhadores das fábricas, e mesmo suas lideranças intelectuais mantinham-se lado a lado com o povo em todas as suas lutas. Por isso, no momento da explosão social, o partido de Lênin pôde ser respeitado como a voz política predominante do movimento, transformando a fervura da luta popular em uma verdadeira revolução, uma locomotiva obstinada, indo para cima do Ksar com tanta força que não havia força capaz de detê-la.

Justamente a voz política geral que faz tanta falta na França, Chile e EUA, ou mesmo em movimentos como o dos motoboys, no Brasil.

Tomar o Palácio de Inverno foi o de menos: o problema viria depois

Nestas condições, o povo russo conseguiu tomar o poder do Ksar e segurá-lo em suas mãos nos tortuosos meses vindouros, cheios de armadilhas da burguesia russa. 

Os trabalhadores, liderados pelos bolcheviques, chegaram em outubro de 1917 já com seu domínio consolidado nas fábricas, exército, ferrovias, meios de comunicação, fontes de energia. Em resumo, o poder pra valer já estava nas mãos do povo, que, nestas condições, reduzia a tomada do palácio do governo, o Palácio de Inverno, a um ato quase simbólico, simples e tranquilo. Tratava-se apenas de oficializar o poder popular revolucionário que, na prática, já estava nas mãos do povo.

E assim surgiu o primeiro Estado Operário da história humana, que levou a Rússia a ocupar o lugar de superpotência mundial em pouquíssimo tempo. Assim que nasceu, a União Soviética era um país com direitos trabalhistas assegurados, como salário mínimo, limitação de jornada de trabalho, descanso semanal e férias remuneradas. Além de direito à moradia, escolas, saúde e creches para todos. Até mesmo a descriminalização do aborto e o acesso simples ao divórcio pelas mulheres soviéticas foram conquistas de primeira hora da sociedade dos soviets.

Todo um novo mundo desenhado pela Revolução Russa

A conquista rebelde dos bolcheviques chacoalhou todo o planeta e colocou a burguesia mundial em pânico, o que permitiu ao povo de diversos países também alcançar importantes conquistas sociais, dando nascimento às leis de proteção ao trabalhador, aos avanços nas lutas das mulheres, ao direito à previdência, à importância crescente da saúde e educação universais, dentre inúmeras transformações que, na verdade, desenharam toda a sociedade do século XX. 

E tudo isto foi feito por uma Rússia que havia acabado de passar pelas intermináveis batalhas do Ksar, tendo que vencer, logo em seguida, as potências mundiais da época, que armaram uma guerra violentíssima para tentar arrancar o poder do povo russo. Poucos anos depois foi obrigada a enfrentar, e vencer novamente, a maior máquina de guerra até então do planeta, salvando a humanidade do inferno fascista de Hitler, para, imediatamente, ver-se confrontada, até o fim dos seus dias, com os sucessores daquela máquina de guerra nazista: o império econômico – e nuclear! – dos Estados Unidos da América.

Ufa! Nada mal para um país que os ancaps leite-de-pera gostam de sair por aí dizendo que “não deu certo”. Na verdade, o esquema bolchevique deu tão certo que tem gente que segue até hoje, ce-ga-men-te, as ordens de Lênin sobre o “Que Fazer”. Ou pelo menos, fingem seguir…

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Mas isto já é uma outra história, para os próximos capítulos dessa série. Até lá, camaradas Partisanos!

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