Ciro Gomes: da centro-esquerda à direita?

Há luta política que não reflita a luta de classes? Como um candidato “antipolarização” se torna um antipetista ferrenho? São questões que a candidatura de Ciro levanta

por Danilo Matoso

A candidatura de Ciro Gomes (PDT/CE) à Presidência da República encerra um curioso fenômeno. O pedetista se considera de esquerda e busca se apresentar como “terceira via” capaz de “combater a polarização política”. Lançou seu programa político de centro-esquerda há um ano, e vem buscando intensificar sua presença na imprensa com um discurso antipetista cada vez mais virulento em que sobram qualificativos como “quadrilha”, “corruptores” etc. Algo bastante polarizado… pela direita. Indagados nas redes sobre o que pode estar ocorrendo com seu líder, os ciristas sempre recorrem ao bordão de Tim Maia: “leia o livro”. Foi o que fizemos. É uma obra interessante e de certo fôlego. Abertamente reformista, ela dificilmente corrobora com a tática extremista que Ciro vem adotando nos últimos meses.

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“Leya o livro”

Publicado nos primeiros meses do ano passado, o livro Projeto nacional: o dever da esperança publicado pela Leya – que portanto deve ser comprado – resume o pensamento político de Ciro vigente em sua atual empreitada rumo à presidência. O corpo do texto está distribuído em seis capítulos: As raízes da crise econômica; O novo contexto geopolítico; Um projeto para o Brasil; Uma nova agenda de reformas; Por uma nova esquerda. Bem redigido e cativante, o livro faz um apanhado histórico de alguns elementos políticos do Brasil nos últimos 80 anos, desde a Era Vargas até os dias de hoje sob a ótica das chamadas políticas desenvolvimentistas – ou trabalhistas – em que o argumento principal é de que a industrialização e o desenvolvimento econômico orientados por uma política nacionalista e conduzidos por um estado forte levarão fatalmente à redução da desigualdade e ao desenvolvimento social.

Diversos indicadores e fatos são agregados e alinhados com coerência de modo a corroborar sua narrativa. Ao final – e de modo acertado no cenário atual – o pedetista se define como um político de centro-esquerda, após elaborar um Plano Nacional de Desenvolvimento de cunho social-democrata que busca reestruturar o Estado; auditar a dívida pública; reverter e refazer a reforma da Previdência; promover uma reforma tributária com taxação de grandes fortunas e lucros; estabelecer uma política industrial baseada nos setores petroquímico, agropecuário, médico-farmacêutico e militar; promover a pesquisa tecnológica por meio de organismos estatais; basear as políticas sociais em políticas educacionais centralizadas; fomentar a produção cultural de identidade nacional.

Citando seu amigo, o filósofo e cientista social de Harvard Roberto Mangabeira Unger (que prefacia o livro), ele define o trabalhismo em que se baseia nos seguintes princípios: “procurar ser a voz da maioria desorganizada; o nacionalismo, entendido como afirmação nacional contra o colonialismo; a primazia dos interesses do trabalho e produção sobre o financismo; o compromisso da educação como instrumento libertador; o empoderamento do povo brasileiro através da criação das condições para empreender e criar, superando o assistencialismo”. Para o Ciro do livro, o trabalhismo é “caminho brasileiro” para a esquerda, uma alternativa ao marxismo por um lado e ao neoliberalismo por outro. Porém, o autor tece uma narrativa composta por diversas distorções, simplificações e omissões.

A velha “nova esquerda”

Ao criticar o esquerdismo, Ciro chega a citar “Lenine” numa seção do último capítulo intitulada “a crise da Esquerda contemporânea”. Sua leitura de Marx, porém, está cheia dos preconceitos típicos da interpretação apressada típica de uma certa visão social-liberalista que descarta de antemão a superação do capitalismo como meta política de longo prazo. O mais recorrente é de que o marxismo seria por princípio internacionalista, e portanto contrário ao nacionalismo. O internacionalismo comunista, porém, não é um princípio abstrato absoluto – como de resto nada no marxismo o é. Trata-se da simples constatação de que, se o capitalismo é global desde o século 19, sua superação deve forçosamente ser global. Uma visão panorâmica da história do marxismo mostra que, ao contrário do alegado por nosso trabalhista, o nacionalismo foi uma característica de diversos regimes comunistas ao longo do século 20 – na própria União Soviética e em Cuba, por exemplo –, na medida em que se opunha ao imperialismo.

Outra crítica recorrente e velada à “velha esquerda” marxista é a de uma suposta obsolescência teórica. Ciro diz, por exemplo, que “setores mais organizados de trabalhadores se transformaram em verdadeiras cooperativas capitalistas através dos fundos de pensão, tomando decisões de como investir suas economias para garantir suas aposentadorias. Esses trabalhadores acionistas remodelaram o cenário intrincado na luta de classes, criando um ambiente distinto daquele observado no século XIX nos países industrializados. Por essa Karl Marx não esperava, e nem podia esperar, pois foi o entrechoque ideológico radicalizado entre o marxismo-leninismo revolucionário e o capitalismo liberal que produziu a síntese social-democrata”. A leitura de uma das obras de juventude do comunista alemão, A miséria da filosofia (1847), revela que Marx vira exatamente este problema em potencial ao criticar as cooperativas e bancos populares propostos pelo líder socialista francês Joseph Proudhon – no que descartava, em consequência, o reformismo latente naquela política.

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A principal crítica de Ciro à esquerda em geral e ao PT em particular é de que, talvez por sua base “internacionalista”, esse setor não teria um projeto nacional para o Brasil, operando sempre à base da improvisação ou do fisiologismo, uma vez no poder. Há um quinhão de razão nessa crítica – até porque a experiência do PT no poder institucional veio de baixo para cima, por meio das prefeituras, suas gestões participativas e mandatos parlamentares. Não se pode negar, porém, que o próprio Mangabeira Unger, parceiro intelectual eterno de Ciro, esteve por duas vezes à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República durante os mandatos de Lula e Dilma.

É fato também que, por meio da Fundação Perseu Abramo e num amplo processo participativo, o PT elaborou em 2020 um Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil, que já está passando por uma revisão em 2021, por meio de dezenas de reuniões setoriais dos chamados Núcleos de Acompanhamento de Políticas Públicas (NAPPs). Trata-se de um documento público disponível gratuitamente na internet – diferentemente do livro de Ciro, que precisa ser adquirido numa livraria.

Muita industrialização e algum milagre

Há ainda diversos golpes de mão narrativos no apanhado histórico inicial em que Ciro se coloca como continuador de uma política nacionalista que produziu um crescimento econômico sem igual no mundo no Brasil de 1932 a 1980. Por exemplo, os principais personagens de tal crescimento seriam Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, o Milagre Econômico, Leonel Brizola e o próprio Ciro. Note-se que “o Milagre Econômico” aparece despersonalizado nessa sequência. A política do Milagre foi iniciada pelo ministro Delfim Netto em 1968 junto à promulgação do AI-5, no governo do ditador militar Arthur da Costa e Silva.

A menção ao Milagre Econômico é a ponta visível de um aceno aos militares que permeia todo o discurso de Ciro, apoiado na ideia de nacionalismo como amálgama entre setores diversos da sociedade. Outra referência, agora aberta, é o próprio nome do projeto cirista: Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), homônimo exato daquele idealizado por Mário Henrique Simonsen e implementado por Emílio Garrastazu Médici em 1972, em plena ditadura.

Desnecessário relembrar que o desenvolvimentismo dos militares não produziu magicamente melhorias sociais. À urbanização decorrente da industrialização, sobrevieram o déficit habitacional, a favelização, a miséria urbana. Embora o desenvolvimento econômico deva naturalmente andar de mãos dadas com a promoção da igualdade social – como ocorreu na União Soviética ontem e ocorre na China hoje –, o desenvolvimento econômico não necessariamente produz igualdade social. Isso porque, evidentemente, a burguesia ascendente num processo de industrialização sempre age politicamente pela precarização do trabalho e pela pauperização do trabalhador. É a velha luta de classes falando mais alto.

Uma esquerda que não acredita em luta de classes

A luta de classes é a grande ausência no argumento de Ciro que, como muitos pensadores liberais, parece não acreditar que ela seja, de fato, a consequência natural do avanço das forças produtivas no mundo – o motor da história. A partir dessa ausência, a luta política narrada por Ciro opera em instâncias institucionais que opõem corporações internacionais a nações e, na esfera política, opiniões pessoais e ações individuais de governantes. Assim, para Ciro, se o governo do PT conduziu uma política econômica compatível com o neoliberalismo vigente, isso se deveu à vontade pessoal de suas lideranças e, mais especificamente, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ciro critica o PT como se o Partido houvesse estado sozinho no comando da nação submetido exclusivamente à vontade de Lula, sem o PMDB, o PP, o PL… Ou o PPS e o PSB aos quais ele mesmo esteve filiado enquanto exercia o cargo de Ministro da Integração Nacional no governo petista entre 2003 e 2006. Foi, inclusive, por fidelidade ao governo petista – que o PSB abandonou em 2013 – que Ciro foi parar no PDT.

Na via inversa dessa visão individualista da política e do mundo, Ciro parece acreditar que sozinho, por força de seu discurso incisivo, há de conseguir convencer amplos setores populares e de um certo empresariado nacionalista difuso a apoiá-lo Não se sabe até hoje com qual base social fundamental Ciro pretende contar para sustentar sua candidatura e seu mandato. Em uma seção do quinto capítulo de seu livro, intitulada “Que base social pode sustentar um projeto soberano?”, o nosso trabalhista parece acreditar que seu discurso será suficiente para ganhar o voto da “maioria desorganizada” da população, e que após a eleição será capaz de, com sua habilidade, costurar os apoios necessários no Congresso Nacional como o fez quando esteve à frente do Poder Executivo no Ceará. É tudo uma questão de talento pessoal, de discurso.

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Mas o voto evidentemente não implica alinhamento político. É um gesto de opinião num momento dado. Um grupo de eleitores dispersos não age a favor de seu candidato nem constitui uma base social organizada. Sem tal base ativa, militante, constituída por grupos ou setores coesos, a candidatura de Ciro Gomes não vai decolar. Num cenário favorável, Ciro talvez conseguisse ser o candidato da direita keynesiana, intervencionista, frente à direita neoliberal. É nesse sentido que sua campanha busca compará-lo a Joe Biden, até porque o investimento estatal massivo é fundamental para fazer girar a economia global no pós-pandemia – pelo menos na metrópole. Resta saber se esses são os planos do grande capital para o Brasil; resta saber se o nosso empresariado quer comprar essa bandeira; resta saber, sobretudo, se ele está construindo base social para tanto.

Tem base?

O trabalhismo tradicional tem como fundamentos sindicatos integrados ao sistema por um lado e empresários nacionalistas por outro, onde estariam esses elementos na equação de Ciro? Os sindicatos estariam agrupados em que central sindical afinal? Talvez a Força Sindical e seu partido Solidariedade – cuja anulação de registro foi pedida pelo próprio PDT em 2013?

Quem seriam os empresários descolados do que o pedetista chama de “baronato” rentista, profundamente ligados ao grande capital internacional? Seu padrinho político Tasso Jereissati (PSDB/CE), dono da Coca-Cola no Nordeste e Centro-Oeste? Ou talvez Benjamin Steinbruch, à frente do grupo Vicunha, que empregou Ciro na CSN e em sua subsidiária, a Transnordestina, entre 2015 e 2016? Esse empresário foi um dos apoiadores da reforma trabalhista dura e acertadamente criticada pelo nosso trabalhista, além de ser, ele mesmo, um banqueiro profundamente ligado ao financismo global.

Pouco aqui está claro até hoje. Afinal, seria possível organizar a classe trabalhadora com sindicatos pelegos que estão à direita da CUT? Seria possível combater o neoliberalismo com o apoio de megaempresários rentistas liberais? Suponhamos que, uma vez no poder, Ciro buscasse afirmar sua vontade pessoal suprema, trabalhista e desenvolvimentista, para além dos interesses dos que o colocaram no poder. Com que apoio contaria? Bastaria “passar uma lábia” no covil de raposas velhas do Centrão no Congresso e tudo estaria resolvido?

Evidentemente, nada disso ocorreria. A realidade é que sem uma base social popular organizada e forte que o sustentasse politicamente, o governo de Ciro seria provavelmente mais neoliberal que o governo petista que ele hoje tanto critica pela esquerda – como se ele fosse do Psol ou do PSTU. Isso por que sua base fundamental de apoio seria justamente o empresariado – neoliberal, rentista, antipovo, o próprio “baronato” que ele ataca em vários momentos em seu livro. Para implementar um programa “trabalhista”, Ciro precisaria, enfim, de um forte apoio dos trabalhadores organizados – que hoje de um modo ou de outro orbitam em torno ao PT e aos movimentos a ele relacionados, como o MST, a CUT ou a CMP. Surpreendentemente porém ele opera abertamente para se distanciar do PT e de seus movimentos.

Antipetismo, centrismo, direitismo

Na verdade, nosso desenvolvimentista adotou o antipetismo como bandeira desde as eleições de 2018. A partir de então, em seus discursos e entrevistas, vem cada vez mais elevando o tom e a virulência dos ataques. Em seu livro, adotara o termo “lulopetismo”, caro à extrema-direita bem como a expressão “estelionato eleitoral”, para se referir ao segundo mandato de Dilma Rousseff. A militância que o defende nas redes sociais repete à exaustão essas expressões. Curiosamente – e talvez como sinal de um centrismo clássico que oscila de um extremo ao outro – os militantes ciristas compartilham argumentos e matérias antipetistas vindos tanto do esquerdismo psolista (normalmente anterior a 2016) quanto do ultradireitismo d’O Antagonista. Vale tudo para ser antipetista e contra o “personalismo lulopetista”. Questionados, dizem que estão apenas se defendendo de um suposto “gabinete do ódio” petista que operaria nas redes com a única finalidade de combater o cirismo.

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Após a suspeição de Sérgio Moro e a revogação das sentenças contra Lula, Ciro declarou, por fim: “vou pra cima de Lula, maior corruptor da história brasileira”. Seu objetivo, expresso agora, é que o PDT se aproxime do PSDB e do DEM – além do PSB e do PPS – visando a atrair a base social antipetista para si. Ciro seria então a candidatura da direita, cujas forças se agrupariam em torno a ele num eventual impedimento de Bolsonaro. Desnecessário relembrar que tal base não é apenas de eleitores: é o próprio do “baronato” promotor do neoliberalismo que ele tão veementemente repudia em seu livro.

A sinuca em que Ciro se colocou é clara: foi longe demais no antipetismo para voltar atrás e ainda não teve apoio da direita – notadamente do empresariado paulista. Sua intenção era constituir uma “terceira via” antibolsonarista e antipetista, mas a priorização do antipetismo – possivelmente por influência dos próprios meios em que deu entrevistas – está falando mais alto. A base que Ciro está construindo para si – quer seja pelo discurso virulento, quer seja pelas alianças partidárias com o DEM etc. – está longe de ser aquela que apoiaria o programa que expôs em seu livro. Ciro seria um candidato da direita na mesma medida em que inflama o seu discurso antilulista. Não deixa de ser uma curiosa contradição, em todo caso, que ele tenha chegado a esse ponto justamente proclamando que deseja superar a “polarização” – como se esse fenômeno fosse fruto de escolhas estratégicas de marketing político e não consequências inescapáveis da crise econômica que atravessamos.

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Até aqui, ainda sem a consolidação de apoios, sua tática não vem funcionando. As intenções de voto no trabalhista só fizeram cair desde o pleito de 2018 – quando teve 12% dos votos válidos – chegando a 6% no último mês, contra 41% de intenção de voto em Lula. Não é impossível que sua candidatura decole caso as alianças partidárias venham a se realizar. Ciro pode, de fato, se tornar o candidato da direita que vai combater Lula num segundo turno com Bolsonaro fora do jogo ou enfraquecido. No atual cenário político, é impossível arriscar previsões. Aos ciristas, resta o dever da esperança.

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