Bolsonaro é cria de uma imprensa que não se reconhece nele

Estão envergonhados porque o presidente corporifica na verdade o que eles mesmos são: a verdadeira face de nossa burguesia

Imagem: Freeda Michaux
por Danilo Matoso

Em 1988, o jornalista Alexandre Garcia estreou na Rede Globo. Tinha um quadro de crônica política no Fantástico em que dava uma “visão bem-humorada” do cotidiano no Congresso, aproveitando cenas captadas pelos cinegrafistas da emissora ao longo da semana: bocejos, dedo no nariz, erros de gravação das entrevistas, gafes na pronúncia de palavras. Garcia não era nenhum foca: de barba e cabelos grisalhos, havia sido porta-voz do presidente João Figueiredo, último general à frente da ditadura civil-militar que assolou o país por quase três décadas (se considerarmos que também Sarney era um produto dela). Mas era uma época de otimismo político. Após a fracassada campanha pelas Diretas Já quatro anos antes, o povo fora às ruas gritando “um, dois, três, quatro cinco mil, a Constituinte vai mudar nosso Brasil”. Era justamente o que acontecia no Congresso naquele momento.

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Na realidade, o verniz “humorístico” de Alexandre Garcia tinha uma tonalidade condizente com seu currículo e com o histórico da emissora. Tratava-se ali de desacreditar o trabalho de elaboração da nova Constituição e de desmoralizar a democracia que voltava a renascer naquilo que então se chamava de “Nova República”. O jornalista passou por isento em sua trajetória na Globo até a ascensão do PT, como âncora da emissora, quando abriu oposição aberta ao governo. Hoje, Garcia está na recém-chegada CNN — que já mostrou a que veio.

A presença de um patife como Garcia no alto escalão de nossa imprensa, assim como de William Waack ou de Diogo Mainardi, é indício não apenas de uma posição política clara do “jornalismo” dessas empresas, mas também de um projeto de desmoralização sistemática da atividade política e — por que não dizer? — de qualquer aspiração de longo prazo de estabilização institucional no país com participação popular. O sábio comunista Oscar Niemeyer cantou a pedra em 1992 ao se declarar contrário ao impeachment de Collor e ao ambiente que se criara também para levá-lo ao poder: “Sou contra esse impeachment. Detesto esse clima de delação que vão instituir entre nós”.

War PIGs

Somente três anos após a eleição de Lula, em 2005, a imprensa emprestou suas botas à burguesia nacional para botar os três pés no pescoço do Governo por meio do chamado “escândalo do Mensalão” — cujo principal pivô foi o hoje ultrabolsonarista Roberto Jefferson (PTB). Foi por essa época que brilharam os “grandes colunistas” que ainda estão por aí, dentre os quais destacaram-se Míriam Leitão, Renata Lo Prete, Eliane Catanhêde, Reinaldo Azevedo, Vera Magalhães, devidamente ciceroneados por “âncoras” opinativos como Carlos Sardenberg ou William “Homer” Bonner. O humorista Jô Soares também reunia algumas dessas jornalistas vez por outra para desgastar o PT em seu programa diário na Globo — candidamente as batizou de “As meninas do Jô”, montando um quadro que talvez tivesse cabido melhor no antigo Viva o Gordo.

Esses são apenas alguns dentre muitos militantes do que se convencionou chamar, desde o “Mensalão”, como PIG (Partido da Imprensa Golpista) — alcunha do saudoso Paulo Henrique Amorim. Desnecessário voltar a pontuar aqui a campanha mais resoluta pela derrubada do PT desde a segunda eleição de Dilma. Todos sabemos o que foi aquilo: jornalismo de guerra.

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Evidentemente, a imprensa livre é parte da política, e não há política consequente sem imprensa séria. O jornalismo político — informativo, opinativo, investigativo — é essencial ao debate público em qualquer regime. Ocorre que a nossa imprensa livre não tem nada de livre. A esmagadora maioria do noticiário político está exclusivamente a serviço dos interesses de meia-dúzia de monopólios que têm um lado bem definido: o do grande capital. E se o regime preferencial dos monopólios é a ditadura, o clima de golpismo rumo à ditadura é uma constante.

O PIG ocupa-se permanentemente em “denunciar”, em transformar toda ação em “escândalo”, em tratar toda negociação política por “absurdo” — expressão cara ao ultrarreacionário Boris Casoy, que parece ter se tornado novo protótipo de apresentador. Sua tarefa é desacreditar e criminalizar não apenas a atividade política de viés popular como um todo mas também todas as políticas públicas, o Serviço Público e os servidores — constantemente tratados por marajás ou vagabundos.

Que fique claro: para essa imprensa não é “absurdo”que o Brasil seja renitentemente desigual e pobre. Não acham “uma vergonha” que se morra de fome num país que exporta grãos e carne para todo o mundo. Não acham bizarro que 70% da população não tenha saneamento básico em seu bairro. Não se espantam com a morte diária de negros e pobres nas mãos das milícias armadas. Seus escândalos e denúncias são apenas ferramentas de pressão para que tudo continue como sempre foi no Brasil. Aparentemente, para os empresários do PIG, o escândalo se tornou a única moeda de troca política. Devem ter saudades dos tempos e das verbas de publicidade polpudas da ditadura — em que tudo parecia limpíssimo e era bem pior: a vida e o serviço públicos. Parece que obtiveram um bom resultado. A erosão da política como arena de resolução de conflitos é quase completa.

Nas últimas décadas, o grande capital criou diversos aparelhos ideológicos, think tanks, movimentos populares de proveta com suas falsas lideranças, organizações sociais e filantrópicas parasitas do Estado etc. A cada ano, parece brotar um novo instituto liberal-conservador, um Instituto Milleninum, um movimento Acredito, uma Rede de Ação Política pela Sustentabilidade. Cheios de dinheiro e valores corporativos até a tampa, neles pululam coachesTED Talkers, prolifera o networking, todos mudam o mindset para se tornarem os líderes do futuro etc. Nenhum desses filhotes de George Soros, porém, logrou ou quis se tornar uma grande liderança nessa arena: a política foi erodida pela imprensa venal. Não há ambiente político atraente ou minimamente saudável há muito tempo, pra que segurar essa bucha se você pode ser um facilitator bem pago numa empresa?

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A cavalo dado não se olha os dentes

Nas eleições de 2018, após a derrubada do PT e com a cama da sucessão preparada por Temer, o cavalo estava passando selado diante da direita conhecida como “centrão” – PSDB, o DEM, o PP etc. . Só que até ali nenhum daqueles prodígios de chocadeira dos think tanks havia atingido proeminência suficiente. Era um fracasso retumbante da capacidade de formação de quadros de nossa classe dominante. O valente ginete a montar no cavalo seria o coroinha aposentado e ex-militante da Opus Dei, Geraldo Alckmin (PSDB). Parecia impossível perder, em todo caso. E não sabendo que era possível, Alckmin foi lá e soube.

Sem ter quem o montasse, o cavalo selado então passou e chegou sozinho à presidência. Seu nome  era Jair Bolsonaro. Um tosco ex-capitão do Exército, de extrema direita, parlamentar de baixo clero, pária tanto nas Forças Armadas quanto no Congresso. Nenhum farialimer de patinete, nenhum self-made-nazi do MBL, nenhum manager sedento por mais um grande downsizing do Estado. Somente um bronco da estirpe de Bolsonaro estava disposto a aguentar o rojão do noticiário político brasileiro, porque estava acostumado a dar coices — palavras de sua aliada de primeira hora, a deputada Bia Kicis (PSL/DF).

Passou o tempo e a coisa começou a pegar mal. Bolsonaro é bronco demais. Os autoproclamados refinados conservadores ou progressistas liberais não poderiam ter em seu currículo o apoio à eleição daquela cavalgadura, que não fala lé com cré em entrevista alguma e deixou o país à deriva em meio à maior crise sanitária do século. Em tempos de pós-verdade, o remédio foi fingir que não têm nada com isso.

Reinaldo Azevedo, cão raivoso da direita e criador da alcunha “petralha”, hoje é antibolsonarista ferrenho — há esquerdistas que se comprazem até mesmo em replicar as opiniões do camarada Rei. Talvez porque ele fora da Libelu (Liberdade e Luta) na adolescência — um movimento político liberal-trotskista da década de 70 pródigo em incubar metade dos direitistas do jornalismo atual. Outra egressa da Libelu também anda arrependida. Míriam Leitão, “jornalista de economia” da Globo, defensora empedernida de todas as reformas anti-povo, cujo filho chegou a publicar um livro encomiástico a Sérgio Moro, questiona-se em sua coluna: “Não cabe mais perguntar que governo é este. A resposta está dada […]. O que cabe agora é tentar saber que país é esse. Quem somos nós?”. Os demais aqui mencionados seguem na mesma linha: “Oh, meu Deus, quem botei esse fascista no governo?”.

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Na contramão desses golpistas mal-arrependidos, Alexandre Garcia pelo menos hoje é bolsonarista assumido e defende incondicionalmente em suas redes sociais todas as barbaridades propaladas pelo presidente. O general Figueiredo era conhecido por seu apreço aos cavalos, que criava em seu haras. Pelo visto, Garcia também.

Espelho, espelho meu

É bem verdade que dessa turma não se poderia esperar nada de diferente. Todos eles fazem o que sempre fizeram: tratam a política permanentemente como caso de polícia. Tudo é escândalo, tudo é anormal, tudo é absurdo, tudo é uma vergonha, tudo é delação. Vale tudo para atacar o adversário, mentir, deturpar, distorcer, perseguir, manipular. Bolsonaro é fruto da árvore que eles plantaram.

Estão envergonhados porque o presidente corporifica na verdade o que eles mesmos são: a verdadeira face de nossa burguesia, a quem o PIG serve incondicionalmente. É truculento, autocrático, mentiroso contumaz, cínico, egocêntrico, venal. Bolsonaro é a antipolítica. Em vão tentam se descolar dessa pecha e, mais ainda, usar de todo tipo de malabarismo retórico e propagandístico para associar ou equiparar Bolsonaro à esquerda. Uma colunista do Estadão chamada Malu Gaspar outro dia tentou alcunhar o termo “Bolsopetismo”, cujo significado e intenções não convém sequer apurar, em nome de uma higiene mental mínima.

Fato é que dois anos e meio já se passaram desde as eleições que levaram Bolsonaro ao poder e o principal presidenciável produzido pela direita até aqui ainda é o apresentador de televisão Luciano Huck — um grã-fino paulistano bem-nascido que “venceu na vida” com o apoio de papai. Huck pertence a um desses movimentos destinados promover “lideranças”, chamado (só) Agora!.

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Só que Huck não tem experiência alguma em política. Huck nunca esteve num cargo público. Na prática, Huck é o mesmo “recurso ao palhaço” que levou Collor e Bolsonaro ao poder. É um erro da direita que só teríamos a comemorar se eles não tivessem o mando de campo, e se não houvessem se mostrado bem pouco dispostos a deixar a combalida esquerda institucional entrar no jogo novamente, a não ser como coadjuvante. Cabe à esquerda resolver quem quer botar em campo e entrar de novo no jogo, nem que seja na raça. É isso ou aguentar mais um palhaço no poder, porque a revolução não está ali na esquina.

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