Bolsonaro copia a ditadura e começa a ocultar mortos

Portal que exibia os dados sobre mortos e infectados pela COVID-19 foi tirado do ar hoje, numa clara tentativa do governo de esconder a proporção da catástrofe sanitária

Imagem: Tuomas Kallio
por William Dunne

O governo de Jair Bolsonaro restringiu a divulgação do número de mortos no Brasil em decorrência da pandemia de COVID-19. O Ministério da Saúde tirou do ar hoje (6) o portal com os dados sobre mortes, infectados e recuperados. Pelo Twitter, Bolsonaro disse que a medida seria para melhorar a divulgação desses dados.

No entanto, sabe-se desde o começo da pandemia que no Brasil há subnotificação de casos, e especialistas falam em números várias vezes maiores do que os divulgados. O Brasil nunca fez testes o suficiente e nos últimos dias o governo esteve preocupado em impedir a divulgação de seus dados subestimados durante o Jornal Nacional, da TV Globo.

Mesmo com os dados incompletos levantados pelo governo, os números já revelavam a proporção catastrófica da crise sanitária no país. Chegamos a 35 mil mortos, e os dois últimos dias foram de recorde, chegando a 1.473 mortos em 24 horas.

Bolsonaro disse em uma entrevista em 1999 que era a favor da ditadura e que seria preciso “matar 30 mil”. O presidente, que já alcançou essa meta, daqui pra frente estará entregando mais do que o prometido aos seus eleitores. O modelo dele, no entanto, ainda não se esgotou. Esse modelo é a ditadura militar que durou de 1964 a 1985, um regime responsável pelo desaparecimento de militantes políticos.

Vala clandestina de Perus

Em setembro de 1990 foi descoberta uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus, com 1.049 ossadas de vítimas do esquadrão da morte, entre indigentes e militantes políticos assassinados pela ditadura. Durante muito tempo as ossadas ficaram abandonadas após a descoberta. Em 2014 o Grupo de Trabalho de Perus foi formado envolvendo o Estado via União (Secretaria de Direitos Humanos e Ministério da Educação), prefeitura paulistana (Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania), a Unifesp e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Obviamente, esse Grupo de Trabalho foi extinto com a chegada de Bolsonaro ao governo.

Até hoje ninguém faz a menor ideia do real número de vítimas da ditadura. As vítimas identificadas não chegam a mil, e uma estimativa razoável sequer pode ser falta, por pura falta de dados. Essa falta de dados é fruto de uma política deliberada que a direita conseguiu levar adiante apesar da abertura política nos anos 80. Paulo Maluf, que era prefeito de São Paulo nomeado pela ditadura nos anos 70, quando tentou comprar fornos crematórios para o Cemitério Dom Bosco, sabotou a pesquisa sobre as ossadas quando voltou ao cargo, pelo voto, em 1993, ao demitir o administrador do cemitério, Antonio Pires Eustáquio.

Essa é apenas uma história de ocultamento de mortos da ditadura. A vala clandestina de Perus é reconhecida como a mais infame vala comum aberta pela ditadura para ocultar cadáveres de suas vítimas. Porém, pode haver muitas outras que o regime militar e a direita conseguiram manter em segredo.

Portanto, se a política de “ter que matar 30 mil” está em pleno curso, a política de ocultar cadáveres também precisar andar. Afinal as fake news não nasceram ontem, durante a ditadura militar transformavam assassinatos em desaparecimentos e suicídios. Bolsonaro, seguindo o exemplo, tentará ocultar, diante dos olhos do mundo inteiro e à luz do dia, os mortos por COVID-19. As valas comuns de hoje têm como exemplo as valas comuns da ditadura. E Bolsonaro quer esconder as vítimas da pandemia porque a proporção de mortos no Brasil tem relação direta com as decisões polícias do Executivo. Algo que já foi apontado por figuras tão díspares quanto Donald Trump e Dráuzio Varela.

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