Auscultar um rio: antes de ser país, éramos árvore

Mais de 40 territórios compõem a rede de parques de São Paulo, que é uma simbiose em luta por áreas verdes-vitais na cidade

Estudo preliminar para o Parque do Bixiga. Imagem: reprodução
por Cafira Zoé para o Parque do Bixiga

40 anos de luta cosmopolítica
contra o avanço da especulação imobiliária no Bixiga

desta terra
nesta terra
para esta terra
e já é tempo

Oswald de Andrade

No dia 30 de novembro desse conturbado ano de 2020, celebramos os 40 anos celebrados de uma luta cosmopolítica, regida por um pulso vital forte, teat(r)al, contra o avanço de políticas empreiteiras, fazedoras de morte no bixiga. Há 40 anos, um território de 11 mil m² no bairro do bixiga re-existe ao avanço da especulação imobiliária compulsória em São Paulo. Último chão de terra livre no centro da cidade, as terras entre as ruas Jaceguai, Abolição, Santo Amaro e Japurá, onde habita o Teat(r)o Oficina, são um vale fértil, em que se atualiza, ao longo dos anos, uma luta cosmopolítica pela vida.

O cosmos e a política aparentemente não se misturam e justamente por isso, será preciso operar a transubstanciação de um, no outro. Uma palavra leva à outra e cria um mundo a partir de uma fricção entre seus poros. É preciso que as forças cósmicas, potências da matéria, operem por desintoxicação da política como a conhecemos. No teat(r)o oficina falamos muito nessa língua. A política, esse pedaço de carne ferida, precisa de unguentos novos para cicatrizar machucados antigos, feitiços novos para funcionar de novo e em outras formas. Trata-se também de uma devoração e de um drible epistêmico. Não abandonar a palavra, mas lutar por ela. Como em alquimia existem as qualidades dos elementos, no candomblé existem as qualidades dos orixás, no teatro existem as qualidades das entidades, os cavalos que recebem as forças da cena…Em política será preciso limpar as toxinas da palavra para reativar as qualidades adormecidas no tempo.

cosmopolítica: capacidade de capturar, antenar, plugar, ter ressonâncias com potências cósmicas que operem novas forças de poder, e poder de transmutação das carcaças fraturadas. Por isso, também me alio aos modos como a expressão funciona para a filosofa da ciência, Isabelle Stengers, não exatamente como um conceito, mas como proposição, proposição de práticas para construir mundos, e mundos em comum, jamais para uma unificação estúpida, mas em direção à potencialização dos encontros, conectar práticas no mangue das multiplicidades, num dilatar das coisas para a amplificação total do que “política” nos diz. Políticas de instauração contínua de cosmos, perspectivas, existências, não mais para segregar, mas para criar composições infinitas. Cosmopolítica também são as mãos da minha mãe para cuidar da terra, são práticas do Teat(r)o Oficina na feitura das peças, é uma pausa de mil compassos, etcetera.

Mapa do Bixiga

No encontro entre humano e chão, chão e teatro, teatro e cosmos, cosmos e…pequenos brotos de abacate nascendo nas galhadas de um tronco-quase-seco derrubado pela tempestade que insiste em viver, a tempestade e o balanço da árvore cesalpina, plantada pelas mãos de Lina Bardi, o balanço e a queda do muro que entremeava o dentro e o fora entre o tronco e a copa — um ato mesmo de acupuntura cosmopolítica para abertura dos espaços. Esse território está situado em uma parte considerável da planície de inundação do córrego do Bixiga, o que se traduz, ao longo dos anos — como em grande parte da cidade de São Paulo, construída sobre rios — no comprometimento da permeabilidade dos solos e outros declives dos processos de uma urbanização fissurada: como enchentes e inundações.

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Há 4 metros abaixo dos pés — e das patas, no epicentro nevrálgico dessas terras, corre, confinado em galerias de concreto, — cuja bacia vem descendo desde o platô da Avenida Paulista, até desaguar no Vale do Anhangabaú. É de 1893 o início das obras de retificação do canal, e consequente canalização do Ribeirão do Anhangabaú, seguidas por processos de canalização subterrânea (tamponamento) dos córregos a ele ligados (Itororó, Saracura e Bixiga) e seus cursos — já na década de 30 estavam todos totalmente soterrados em galerias.

O que se passa entre o córrego e a terra talvez tenha sido auscultado pelas aves que sobrevoam este espaço aéreo, construindo uma espécie de mapa vital através de rotas de re-existências: dos galhos secos do abacateiro caído, de onde nascem brotos-verde-fluorescentes, até à copa das árvores que vivem no bosque da casa de Dona Yayá, e de volta, à juba-cheia da cesalpina, fazendo ninhos no teto de vidro do Teat(r)o Oficina: se estamos atentos, dias imensos de ornitolorgias serão capazes de captar vibrações dessa atmosfera, suas intensidades construindo mundos.

Num ofício minucioso-poético, imaginar e dar testemunho desses trajetos de fertilização da vida: biomultiplicidades — eis um trabalho a ser feito. Rituais de coexistência, como em alquimia, apontam o percurso da luta neste sítio, encarnada no combate a um modo de vida capital-especulativo nas cidades. Parque das terras do Bixiga, teatro-parque, Lina Bo Bardi, sítio arqueológico, roça do rio… do Bixiga, de São Paulo, de um cosmos, em relação com outros cosmos.

Auscultar, do latim, auscultare: dar ouvidos, é um termo técnico para a escuta dos sons internos do corpo, que pode ser feita tocando diretamente um corpo com o ouvido ou através de um instrumento conhecido estetoscópio. Consiste em investigar os ruídos do sistema circulatório, respiratório e gastrointestinal: uma espécie de escuta dos fluxos subterrâneos, afinal.

No dia 5 de junho de 2019, um rito de acupuntura urbana — o 4º de grandes proporções na luta pela criação do parque do rio Bixiga — lançou uma flecha em direção ao desmassacre desse território: num gesto vital, foi aberto pela primeira vez o bueiro que dá acesso às galerias de concreto que mantém confinado o rio do Bixiga, entre as ruas Japurá e Bixiga, pra auscultar o seu pulso, seiva soterrada. em são paulo, segundo pesquisa do projeto rios e ruas, a qualquer ponto em que pisem os pés — ou as patas -, estamos a 150–200m de um rio.

Grande parte das ruas por onde vamos são cursos de rios soterrados pela sanha de uma urbanização descabeçada. No Bixiga, três rios (Saracura, Itororó e Bixiga) compõem uma bacia hídrica e correm em direção ao vale do Anhangabaú, onde antes se formava uma planície fluvial, enterrada na construção da capital que agora sofre com inundações, desequilíbrios urbanos e impermeabilidade dos solos: efeito dos cursos d’ água confinados em galerias, asfixiados em canos de concreto ao longo dos anos.

Assim como o ruralismo e o agronegócio, a mineração e as barragens, as madeireiras e a exploração de combustíveis fósseis, a especulação imobiliária e a compulsão falocêntrica por torres de cimento que arranham o céu ferem de morte territórios, existências e ecossistemas vitais. A especulação imobiliária constrói cidades para necrose. São áreas ásperas, implantadas de maneira brutal, seja pela demolição desenfreada de construções humanas e não humanas que-já-não-servem-mais, seja pela criação compulsória de uma arquitetura patriarcal violenta, de constante atualização colonial, especista, segregacionista, sem imersão/relação/simbiose alguma com as biosferas que modificam.

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Fora especulação imobiliária!

A especulação imobiliária não é um problema das cidades, ou fabricado por elas. A especulação imobiliária é o avanço de um modo perverso, hierárquico e supremacista de fabricar cidades para exploração, e ao mesmo tempo determinar os modos como cada vida capturada nos seus limites poderá ou não existir, e onde. É máquina de estraçalhamento de subjetividades e territórios como a mineração é máquina de comer montanhas inteiras, de forjar abismos secos onde antes existiam vales férteis, de fazer-desaparecer sem precedência picos, geologias e povos não humanos inteiros; como o garimpo come terra e florestas; como a monocultura — do pensamento, da agricultura e dos modos de vida — violam ecossistemas complexos e aniquilam biodiversidades do mangue às cidades; como o fundamentalismo político e religioso mastiga a força vital dos corpos e lhes injeta de volta a grande nódoa corrosiva dos extremismos, entupindo seus poros para a captação das subjetividades da mesma maneira em que soterram as águas urbanas.

A especulação imobiliária avança sobre o bairro do Bixiga, em São Paulo, avança sobre o território indígena no Jaraguá, avança sobre os tupinambás em Olivença, na Bahia, avança junto com a mineração sugando Minas Gerais — é preciso implantar torres de concreto e acabar com o ritmo, a cultura e as intensidades locais para receber os operários do massacre geológico e inaugurar os novos estilos de vida que irão vigorar nas cidades esterilizadas. As cidades também sofrem os efeitos das devastações da ação antrópica na terra. Choque séptico nos tecidos urbanos, humanos e não humanos para espantar todas as potências de diferença.

Ceder à tara dessa forma de especulação da vida nas cidades, e a esse modo de criar o que chamamos cidade, é uma maneira de nos entregar às políticas de morte dos tecidos urbanos, da terra, e de nossos próprios corpos. Não ceder é uma importante força de vida, potência miúda, talvez, mas que em série e constelações produza sinapses suficientes para a criação de tecnologias de lutar-junto, de fazer-junto, de povoar-junto, de um ponto de vida cosmopolítico.

A luta que se trava nas terras do Bixiga, e o movimento que aspira a regeneração do rio asfixiado, é também uma co-movência, uma força de muitas espécies, que se aliam à outras, e a muitos outros territórios vitais, onde se praticam modos de existir que reexistem, como em Guarani se luta: tekoha. São lutas pelo direito à cidade, são lutas dos direitos não-humanos; são lutas de imaginação, e de uma imaginação cosmopolítica; são conflitos entre maneiras de existir; são lutas pelo direito de existir de outra maneira; são políticas pela vida; são invenções de mundos, de outras histórias; são fabulações de povos por vir, e que já estão.

Abdias do Nascimento

Mais de 40 territórios compõem a rede de parques de São Paulo, que é uma simbiose em luta por áreas verdes-vitais na cidade. A luta dos povos guaranis de São Paulo pela criação de um cinturão verde guarani é também uma luta do parque do rio Bixiga, e deveria ser de toda a cidade. a luta dos povos indígenas pela vida da terra e a marcha das mulheres indígenas, margaridas e campesinas em agosto de 2019 tomaram brasília e ecoaram — território: nosso corpo, nosso espírito é uma luta em aliança. são muitas as tekohas — lugar onde se pratica um modo de existir que re-existe: como o jaraguá é guarani, como o Teat(r)o Oficina é território de luta, como o Bixiga é quilombo urbano. Denilson baniwa, artista visual e curador, com a sua força gráfica reivindica e instaura: brasil, terra indígena; são paulo, terra indígena.

Os assentamentos da reforma agrária na grande são paulo e os grupos de consumo responsável de comida de luta, circulam a produção da agricultura urbana agroecológica são lutas do parque do rio Bixiga. Os viveiros de sementes e oficinas de compostagem povoando hortas urbanas são lutas do parque do rio Bixiga. Os Tupinambás de Olivença, na presença de Casé Angatu tupinambá, sagraram o território do Teat(r)o Oficina e as terras do Bixiga com sua dança e seu canto — tupinambá vai te pegá vai te comê, tupinambá vai te pegá vai te comê!. Carcarás, suiriris, avoantes, papagaios, urubu, bem-te-vi, sabiás-laranjeiras, gavião-asa-de-telha, beija-flor-tesoura…São algumas das espécies que povoam o Bixiga e criam rotas invisíveis de manutenção de ciclos vitais, de decomposição e polinização pelo bairro. Há movimentos atuando na restauração de rios, córregos e seus cursos na capital.

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Contra todo o confinamento da vida será preciso alegria e coragem, e também poetas, cogumelos e fungos — certas espécies têm a qualidade de acumular resíduos tóxicos e metais pesados em áreas de mineração, e em áreas de radioatividade também, evitando que alcancem a biodiversidade florestal, as plantas, nós. Contra toda a asfixia da vida imposta em épocas de políticas estúpidas: banhos de manjericão roxo, alecrim, guiné e sal grosso, verdadeiras tecnologias para espantar os espectros do totalitarismo nos corpos.

Contra a especulação imobiliária, barricadas de árvores gestando florestas nas cidades. Contra a monocultura fundiária e fundamentalista, os trabalhos dos terreiros que seguram a terra, as rezas dos guaranis que seguram quase tudo, as palavras-fogo de David Kopenawa e a força da insurreição onde quer que ela arda: irresistível. Todas essas forças, todos esses povos, humanos e não humanos, estão, neste momento, sustentando o céu sobre as nossas cabeças. Somos também nós. Aqui, agora.

As forças não cessam de compor umas com as outras formas sempre inacabadas, sempre por se fazer, desfazer, destruir, criar, a ponto de um não fixar perene, a ponto de um sempre movediço que opera na fronteira dos contornos, um contínuo infiltrar-se, um incessante fazer-com, com Donna Haraway: we are humus, not homo, not anthropos; we are compost, not posthuman. A transformação que não se estagna, a agitação e o repouso, o pulso, a composição e a decomposição, o músculo cardíaco, as guelras dos peixes, a pele das cobras, as sístoles e as diástoles, um casulo… Talvez a tudo isso se diga: é a força vital. Aqui, damos testemunho da construção de um mundo. contra soldados de concreto: matas ciliares! Barricadas vegetais, minerais, animais, de povos mulher, lgbtq+, indígenas, pretas/es/os, teatros, terreiros, crianças, quilombos, escola de samba, de soltar pipa, de florestas … água também se planta. Antes de ser país, éramos árvore.

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