Atualização do Windows veicula fake news na barra de tarefas

Entre amenidades sobre famosos e notícias favoráveis ao governo Bolsonaro, sistema operacional levou diretamente aos usuários desinformação sobre a cloroquina

por Alexandre Lessa da Silva

Esses dias, meu Windows, que foi adquirido em conjunto com meu notebook, foi atualizado para a versão 20H2. Uma atualização demorada e que, sem eu perceber, deixou lenta a máquina enquanto era usada. Posteriormente, desconfiei da lentidão e mandei reiniciar, sendo avisado que uma atualização seria instalada. A instalação demorou, mas não apresentou nenhum problema, reiniciando tendo como principal destaque a mudança de visual na barra de tarefas, apresentando informações sobre o clima e uma espécie de feed de notícias do próprio Windows, uma porta a mais para (des)informações perigosas.

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O widget de notícias tem um formato atrativo e apresenta as manchetes e fotos dos artigos indicados, obviamente por algum algoritmo da própria Microsoft. O problema é que o aplicativo, como parte integrante do Windows e com o “selo” da Microsoft, traz um ar de confiabilidade, algo que não corresponde à realidade. Evidentemente, é possível configurá-lo para ajustar segundo seu gosto, mas duvido que isso seja feito pela maioria das pessoas, deixando a escolha para o algoritmo do programa.

Enquanto escrevo, por exemplo, o aplicativo apresenta as seguintes matérias em destaque: Bank of America eleva Brasil para ‘overweight’ (ações com desempenho melhor que o esperado), China divulga novas fotos de Marte, Fernanda Torres fica com medo e não toma vacina, além de algumas outras sobre celebridades. Com tanta coisa que negativa sobre o governo, só há notícias de celebridades ou favoráveis ao governo ou ao que ele defende, como o caso da notícia sobre Fernanda Torres.

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No primeiro dia em que dei atenção ao feed, a notícia que mais chamava atenção tinha como manchete “novo estudo mostra que hidroxicloroquina pode aumentar as taxas de sobrevivência de COVID em 200%”, oriunda de um site de notícias chamado Paipee, tendo endereço indicado começando com o tradicional “https://www.msn.com/pt-br/”. Entretanto, a notícia já foi apagada, como pode ser confirmado visitando o endereço apontado pelo Windows, mas basta fazer uma busca no Google para saber que o Paipee a publicou. O curioso é que um dos slogans desse site é a frase “combate ao fake”.

A matéria do site acima não está mais disponível, como já dito, mas há um site bolsonarista que publicou quase a mesma matéria e que ainda está ativo. A matéria em questão afirma que um novo estudo descobriu que a hidroxicloroquina, em conjunto com a azitromicina, é capaz de aumentar a sobrevida de pacientes graves de COVID em quase 200%. Só não avisam, ambos os sites, que o estudo é apenas um preprint, isto é, um artigo que nem sequer foi submetido à publicação, portanto, sem qualquer análise de outros pesquisadores. Em outras palavras, o artigo existe, mas não tem nenhum valor científico, o que faz do texto supostamente jornalístico uma das formas mais usadas de fake news: contar algo que é verdadeiro, mas omitindo o que é mais importante. Usando essa tática, por exemplo, pode ser afirmado que pesquisas demonstraram que a cocaína é “um remédio muito eficaz para combater a depressão”, omitindo que as pesquisas foram feitas por Freud em 1884.

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Mesmo não estando mais disponível, a matéria sobre hidroxicloroquina já deve ter feito um grande estrago em grupos de WhatsApp bolsonaristas ou não, até porque foi divulgada no mesmo dia em que Bolsonaro fez mais uma das suas defesas do tratamento precoce. Apesar disso, não encontrei nenhum desmentido dentro do aplicativo, algo que uma empresa séria teria  a obrigação moral de fazer, uma vez que foi a responsável por tal conteúdo chegar a inúmeros computadores e pessoas.

Até agora, só recebi indicações de sites jornalísticos tradicionais, notícias sobre celebridades e matérias que podem ser consideradas de direita, como as da Rede TV. Não há portanto, pelo menos dentro da minha experiência, nenhum site que possa ser considerado de esquerda, lembrando que não mexi nas configurações do feed. Matérias com crítica ao governo existem, e não são poucas, mas essas matérias são produzidas pela grande imprensa, logo, não há nenhum favorecimento ideológico de esquerda, muito pelo contrário.

Bill Gates já se mostrou preocupado com a relação entre a internet e a democracia, dizendo que busca uma maneira não prejudicar a democracia. Entretanto, como foi demonstrado, o feed da barra de tarefas do Windows tem um algoritmo que pode favorecer uma tendência política ou, até mesmo, a publicação de fake news. É praticamente de conhecimento público que a mentira e a distorção chamam mais atenção e atraem mais cliques que a verdade, na grande maioria das vezes. Entretanto, a responsabilidade social deve falar mais alto que o lucro, sendo que isso só será possível através da mudança do algoritmo, assim como a exclusão de sites com uma nítida tendência ideológica.

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Se nada for feito, a Microsoft pode ter aberto um caminho novo para a propagação de fake news, uma vez que seu algoritmo já se mostrou falho ou mal-intencionado – não tenho como afirmar uma coisa ou outra. Entretanto, vale a pena lembrar, outras grandes empresas da área também permitem ou permitiram absurdos. Google, Apple e Amazon, por exemplo, acabaram por banir o Parler, um aplicativo de rede social utilizado por trumpistas. Entretanto, o tempo em que funcionou foi o suficiente para causar muito estrago. A Google, por sinal, permitiu um aplicativo bolsonarista chamado Mano em sua loja. Na última pesquisa que fiz, já não encontrei o aplicativo entre as alternativas apresentadas na busca, felizmente.

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É hora de todos aqueles que defendem a democracia, de esquerda ou não, fiscalizarem e cobrarem a responsabilidade dessas empresas, não só sobre nossos dados, mas também sobre a qualidade e veracidade das informações oferecidas. Só assim poderemos compatibilizar democracia e internet.

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