André Mendonça: terrivelmente evangélico ou nem sequer isso?

Membro de uma comunidade que acredita que igrejas como a Universal são seitas, o ministro de Bolsonaro vai de encontro com as falas do presidente

por Alexandre Lessa da Silva

Em 10 de julho de 2019, Bolsonaro afirmou que indicaria um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal. No dia 25 de setembro do ano seguinte, o ministro Celso de Mello anuncia que antecipará em três semanas a sua aposentadoria no Supremo. Abre-se, então, uma vaga na Corte para ser preenchida pela indicação de Bolsonaro. O nome do escolhido pelo presidente era o Kassio Nunes Marques, que tomou posse em 5 de novembro do mesmo ano. Mas, não foi dessa vez que o Supremo ganhou um ministro “terrivelmente evangélico”, uma vez que Nunes Marques, um seguidor fiel do presidente da República, é um católico.

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Agora, surge uma nova vaga para o STF em julho, com a saída de Marco Aurélio Mello. Bolsonaro já apontou para líderes evangélicos que o escolhido para essa vaga é André Mendonça, ministro da Advocacia-geral da União e, até bem pouco tempo, Ministro da Justiça e da Segurança Pública do atual governo. Apesar do apoio de várias lideranças consideradas evangélicas, cabe aqui uma pergunta: André Mendonça é evangélico?

O termo evangélico é polissêmico, admitindo, portanto, mais de um significado. Dependendo, então, de como é definido “evangélico”, André Mendonça pode ser considerado ou não parte desse grupo.

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“Evangélico” pode significar aquele que está em conformidade com os princípios do Evangelho. Nesse caso, um católico, protestante ou até quem simplesmente segue esses princípios pode ser chamado de evangélico. Também pode fazer referência àqueles que pertencem a uma igreja originária da Reforma Protestante, incluindo o protestantismo tradicional (batistas, presbiterianos, luteranos etc) e, em algumas interpretações, todas as demais correntes do protestantismo. Por último, “evangélico” refere-se apenas aos membros das igrejas pentecostais e neopentecostais.

Afinal, terrivelmente o que?

André Mendonça pertence à Igreja Presbiteriana do Brasil “Esperança de Brasília”, uma igreja pequena, criada há uns cinco anos, segundo a imprensa e “um pouco mais progressista” que as igrejas evangélicas em geral, segundo Valter Moura, pastor titular da igreja. Aqui, já encontramos um problema, uma vez que é uma igreja nova, difícil de encontrar informações sobre ela. Ao mesmo tempo, é presbiteriana, o que leva a uma nova pergunta: a igreja “Esperança de Brasília” é presbiteriana ou neopentecostal? O nome não diz nada, pois qualquer um que abrir uma igreja pode usar o nome de uma outra igreja como parte do nome de sua igreja. Essa forma dúbia de apresentar a igreja de André Mendonça é parte de toda uma construção ideológica, baseada na confusão da extrema direita. Entretanto, o Facebook da igreja diz que é uma igreja filiada à Igreja Presbiteriana do Brasil, o que faz de André Mendonça um presbiteriano clássico.

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Portanto, se “evangélico” for sinônimo de protestante, então André Mendonça é evangélico. Caso “evangélico” signifique pentecostal e neopentecostal, ele não é, simples assim.

Agora, pretendo colocar uma pedra no caminho de André Mendonça, em função da clareza e da honestidade. Igrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Mundial do Poder de Deus não são consideradas propriamente religiões verdadeiras, posto que são definidas como “seitas” pela Igreja Presbiteriana do Brasil.

Ao falar de seitas, o site da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, por exemplo, cita Mateus 24.24 e 1 Timóteo 4.1-2. São usadas expressões como “falsos profetas”, “mentiras”, “pessoas de consciência cauterizada” e inspiradas “por espíritos enganadores”. Isso leva a crer que há uma condenação, além de religiosa, moral de tais seitas.

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Cabe, então, a pergunta para o senhor André Mendonça, com o puro intuito do esclarecimento, as Igrejas Universal e Mundial são seitas? Caso a resposta seja positiva, estará de acordo com o O Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, seguindo, como bom pastor, as orientações de sua igreja. No caso de uma resposta negativa, ferirá a orientação de sua própria igreja, algo extremamente grave para um pastor. Evidentemente, uma resposta afirmativa ofenderia as outras igrejas e seus líderes, mas deve ser lembrado, aqui, que a fé verdadeira deve estar acima da política na vida de um cristão.

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A pergunta foi feita, ela é simples, mas exige uma resposta para deixar claro a posição do homem público André Mendonça e, assim, informar a todos se ele é “terrivelmente evangélico” ou não.

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