Altman: “Nosso compromisso é com a liberdade de imprensa, não com a grande mídia”

No dia em que O Partisano completou um mês no ar, conversamos com Breno Altman sobre os desafios da imprensa progressista no cenário político atual

Imagem: ADUFEPE
por Beatriz Luna Buoso

Em meio ao caos sanitário e a ascensão da extrema-direita no Brasil – com Jair Bolsonaro na presidência e centenas de militares ocupando o governo federal – a atuação da esquerda institucional no cenário político parece uma incógnita. A situação é tão instável que muitos colocam em pauta uma eventual “Frente Ampla” contra o bolsonarismo, com alianças no mínimo duvidosas. Dentro dessa disputa, a batalha da comunicação ganha ainda mais importância, e os meios de comunicação progressistas tornam-se peça-chave – quase uma boia de salvação – contra as fake news, os robôs do Gabinete do Ódio, e as ações dos fascistas na Internet e nas redes sociais. Enquanto a grande mídia alcança milhões com seu aparato técnico e profissional, com seu monopólio na televisão, rádio e Internet – manobrando e impedindo uma visão crítica do público – a esquerda tenta debater, com recursos muito mais escassos, as contradições da sociedade de classes e os caminhos para enfrentar o que está por vir.

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Uma das pessoas que está há algum tempo nessa trincheira da comunicação é Breno Altman. Jornalista, fundador e editor do site Opera Mundi, Breno também é analista político, apresentador do programa 20 minutos do canal do Opera Mundi no YouTube, convidado semanalmente para participações no canal do YouTube do site Brasil 247. No dia em que O Partisano completou um mês no ar, conversamos com ele sobre os desafios da imprensa progressista no cenário político atual do Brasil. O jornalista falou também sobre a democratização dos meios de comunicação na América Latina, e a dificuldade que os governos do PT tiveram em levar esse debate adiante no nosso país. A batalha entre Bolsonaro e a grande mídia, fake news e a cobertura sobre a pandemia no Brasil foram outros assuntos discutidos nessa entrevista. Figura de destaque na imprensa progressista brasileira, Altman nos dá algumas pistas de como a imprensa não-hegemônica pode sobreviver em meio a essa realidade.

O Partisano: Como manter um site de esquerda como o Opera Mundi sem morrer na praia? É preciso inevitavelmente recorrer a recursos de burgueses safados?

Breno Altman: O Opera Mundi em especial tem como principal instrumento de financiamento o que a gente chama de assinatura solidária. É um valor que oscila entre vinte e cem reais, que os leitores e espectadores pagam todos os meses para garantir a sustentação do veículo. Nós temos mais de dois mil assinantes solidários neste momento, e esse é um contingente que vem crescendo. Como o próprio nome diz, o leitor ou espectador não está comprando nenhum serviço ou mercadoria, ele está participando da sustentação do site. Nós não fechamos conteúdo apenas para quem paga. Nós fazemos essa chamada da assinatura solidária como principal fonte de sustento. Além disso, o site se sustenta em função da sua audiência. A audiência permite, tanto no Facebook, YouTube, quanto no UOL (que é o portal que nos abriga), uma arrecadação publicitária em função do número de pessoas e número de páginas impressas que a gente tem. Então é um mix entre assinatura solidária e o resultado de publicidade derivado da nossa própria audiência, em função das plataformas nas quais o Opera Mundi está inserido.

OP: Fomos acusados de receber dinheiro do Ciro Gomes nas redes sociais, mas ainda não caiu nenhum trocado na nossa conta. Qual o caminho para se manter independente mas não morrer de fome?

Altman: O caminho essencial é sempre recorrer a quem vê no veículo uma fonte importante, indispensável e necessária de informação e análise. É fazer com que o leitor, o espectador, seja um “sócio” do veículo, assumindo sua sustentação. Essa é uma experiência bastante disseminada no mundo inteiro, que no Brasil começou a ser implementada nos últimos anos. Não há outro caminho. Os veículos alternativos, os veículos independentes, eles têm que buscar o apoio dos seus leitores e seus espectadores na forma da assinatura solidária principalmente.

OP: Como você vê a situação da imprensa progressista no Brasil em comparação com países vizinhos da América Latina? Por que o PT não foi capaz de dar forma a veículos de comunicação como os chavistas fizeram na Venezuela ou os peronistas na Argentina?

Altman: Eu diria que a situação da imprensa progressista no Brasil é melhor do que era há 10 anos e pior do que em alguns países da América Latina. Melhor, porque surgiu um campo progressista de imprensa que não existia há 10 anos atrás. Há vários sites, vários blogs de razoável audiência. Há um movimento da imprensa progressista no país, com um peso relativamente importante hoje na informação e na análise para um setor segmentado, que é o setor progressista, movimento que não existia antes. A revolução tecnológica deu à esquerda instrumentos mais baratos pra poder criar um campo comunicacional independente. Portanto, houve uma evolução em relação ao quadro que tínhamos há dez, quinze, vinte anos atrás, quando a imprensa monopolista deitava e rolava, atuando praticamente sozinha.

Isso já não é mais verdadeiro, hoje você tem um campo comunicacional progressista de alguma relevância. Minoritário, sem o mesmo poder econômico, sem a mesma audiência, mas que é capaz de desenvolver uma guerra de guerrilhas comunicacional de razoável importância. Por outro lado, aqui no Brasil realmente não foram encaminhadas medidas de democratização dos meios de comunicação, como na Argentina e na Venezuela. O PT não fez disso uma prioridade, não se empenhou na democratização dos meios de comunicação, numa lógica recuada, acredito eu. Por não ter maioria parlamentar, esse embate acabaria colocando o governo Lula e depois o governo Dilma em situações de risco, de ficar isolado no parlamento, dos meios de comunicação se unificarem contra os governos petistas e acionarem a base parlamentar conservadora, colocando em risco sua própria sustentabilidade. A ironia é de que não foi encaminhada a democratização dos meios de comunicação e esses se unificaram contra o PT, e ajudaram a construir uma maioria parlamentar que finalmente derrubou o governo Dilma. Ou seja, pagou-se o custo sem ter o bônus. Poderia se ter avançado nesse sentido, e ter tentado fazer algo, já que essa reação desses veículos e das bancadas conservadoras no parlamento era uma reação inevitável.

OP: A ex-presidenta Cristina Kirchner criou um projeto de regulação dos meios de comunicação argentinos para combater o monopólio do Clarín, iniciativa posteriormente atacada pelo macrismo. No Brasil, o ex-ministro Franklin Martins também tinha uma proposta nesse sentido. O que impediu os governos do PT em avançar nesse tema?

Altman: Eu acho que principalmente por dois motivos. O primeiro, como falei, foi por não ter maioria parlamentar. O segundo motivo é que, não tendo maioria parlamentar, não quiseram provocar uma briga com os meios monopolistas de comunicação, que poderia levar ao isolamento do governo Dilma, que é quem herda o projeto do Franklin Martins. O fato é que esse isolamento aconteceu mesmo sem implementar o projeto de democratização da mídia, ou seja, não era esse fator que levava à unificação da mídia e unificação das bancadas conservadoras contra o PT, era o conjunto da obra, a necessidade das elites do país em reassumirem o comando do Estado diretamente para poder implementar a agenda neoliberal. Com essa leitura equivocada que fez o PT, deixou-se na gaveta iniciativas que teriam importância inclusive para preparar os setores populares para enfrentar o golpismo que nós assistimos em 2016. A importância da mídia alternativa se revelou em situações como a derrota do golpe contra Chávez na Venezuela em 2002, na resistência do peronismo contra a direita na Argentina e assim por diante. Foi um grave erro do Partido dos Trabalhadores.

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OP: Qual o papel da imprensa brasileira nesse contexto de pandemia, com Bolsonaro atacando os meios de comunicação diariamente? Baseada nesse cenário, a imprensa progressista deve ter alguma solidariedade com a grande mídia, mesmo ela tendo sido peça fundamental do golpe de 2016?

Altman: A grande mídia no Brasil expressa o que podemos chamar de direita tradicional, expressa os velhos partidos da burguesia, PSDB, DEM, expressa a direita neoliberal e não a extrema-direita. Majoritariamente não expressa a extrema-direita, portanto, esse embate entre setores da grande mídia, da mídia monopolista contra Bolsonaro, representa uma luta entre frações do bloco conservador, entre a fração neofascista e a fração neoliberal que é encarnada pela Rede Globo, Folha, Estadão, ou seja, pelo mainstream, por parte expressiva do mainstream dos meios de comunicação no país. Evidentemente a imprensa progressista não deve ter laços de solidariedade com a grande mídia. O que a imprensa progressista tem que fazer é uma defesa de princípios o tempo todo, do direito à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa, isso é outra coisa. Acenar em relação à grande mídia, apoiar a grande mídia não é o caso. Deve se fazer uma defesa da liberdade de imprensa para todos os setores que publicam suas informações e ideias.

OP: No último dia 8,  Estadão, Folha e Globo decidiram se unir para divulgar os dados sobre o coronavírus, já que o ministério da Saúde optou por ocultar essas informações. Como você vê essa união da imprensa burguesa “peitando” Bolsonaro?

Altman: Esse consórcio para divulgar os números da pandemia também faz parte da disputa de frações no bloco conservador, entre a direita neoliberal e o neofascismo. Esse setor da direita neoliberal quer desgastar e isolar Bolsonaro para recuperar o peso eleitoral perdido em 2018. O objetivo da direita neoliberal, incluindo nessa estratégia sobre a pandemia, do consórcio dos meios de comunicação, é criar uma candidatura viável para 2022 a partir do isolamento da esquerda e do desgaste de Bolsonaro. É nesse contexto que deve ser visto esse consórcio para divulgar os dados sobre o coronavírus. Esse consórcio faz parte da guerra de desgaste contra Bolsonaro.

OP: Suas participações em programas no canal do YouTube do site Brasil 247 têm acessos expressivos, até maiores do que no canal do Opera Mundi. Isso acontece com outros colaboradores também, que têm mais visualizações no 247 do que em suas plataformas. O Brasil 247 estaria se transformando numa espécie de “Globo da esquerda”? Isso é positivo?

Altman: É normal que seja assim, porque por exemplo, o Opera Mundi é um veículo especializado em política internacional e política externa, portanto, ele dialoga com um nicho da audiência, um nicho de gente que se interessa principalmente por esses temas. O 247 é uma plataforma mais ampla, cuja pauta vai de assuntos locais a assuntos internacionais. Não é uma publicação de nicho, é uma publicação dedicada ao grande público. Então é normal que a audiência do 247 seja maior que a do Opera Mundi, e que mesmo meus programas no 247 acabem tendo maior repercussão do que no Opera Mundi. Não vejo o 247 se transformando numa “Globo da esquerda”, acho que o 247 se transforma hoje numa plataforma de confluência de diversas vozes e diversos veículos pelo sucesso que vem tendo ao menos em conquista de público.

OP: A impressão que dá desde 2013 é que a batalha da comunicação está sendo vencida pela extrema-direita por 7×1. No WhatsApp o avanço fascista parece ainda maior, e isso até antes de Bolsonaro ter o controle do Estado. Qual o tamanho da surra que estamos levando?

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Altman: Olha, a surra é bem grande. Isso tem algumas explicações principais. Primeiro o poderio financeiro, ou seja, a ocupação de redes tem a ver com recursos financeiros, e evidentemente a direita tem mais recursos financeiros do que a esquerda. Segundo, tem uma certa percepção comunicacional, quer dizer, a esquerda se construiu no Brasil de forma vertical, com organizações de representação (partidos, sindicatos, movimentos) e a comunicação desses movimentos tradicionalmente é pela reunião das pessoas, e se fez historicamente pelos meios físicos (jornais, revistas, programas de rádio). As redes sociais são complementares, até porque parte da base da esquerda não tem em média o mesmo acesso a Internet que a base da direita. A base da esquerda é uma base mais pobre e que muitas vezes tem dificuldade para acessar uma banda larga, ou um plano mais robusto de comunicação por celular. Então era natural, por essas duas razões, que a direita ocupasse com maior voracidade e maior amplitude as redes sociais. Uma terceira razão mais complexa, mais simbólica, é que a lógica principal da intervenção da direita é baseada nas chamadas fake news, ou seja, no desgaste dos adversários a partir de notícias e informações mentirosas. Esse tipo de instrumento encontra seu lugar perfeito nas redes sociais, não é o instrumento ao qual recorre a esquerda. A esquerda recorre a informação, a análises, interpretações, que possuem portanto uma “robustês” comunicacional melhor, e as redes não são um ambiente muito propício a esse tipo de discurso, então aí temos uma contradição. Como a esquerda pode adaptar seu conteúdo para poder disputar as redes sociais? Uma questão bastante complexa.

OP: A prisão do marqueteiro João Santana pela Operação Lava Jato foi um fator preponderante para estarmos nas cordas nessa batalha? Depois de Duda Mendonça e Santana, ambos vitoriosos em campanhas eleitorais, a quem o Partido dos Trabalhadores recorre para formular sua estratégia de comunicação?

Altman: Até onde eu sei o Partido dos Trabalhadores têm recorrido a outras agências de comunicação e a jornalistas profissionais contratados. João Santana e Duda Mendonça não eram os únicos marqueteiros de qualidade no mercado. Há várias empresas, e empresas mais baratas e mais próximas ao Partido dos Trabalhadores. Mas essa é uma informação que teria que ser obtida junto à direção do PT.

OP: Vivemos os “tempos interessantes” da História. É possível realizar análises de conjuntura sérias em meio a um apocalipse sanitário impulsionado por milicos fascistas sem enlouquecer?

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Altman: Olha, é possível fazer análises de conjuntura certas ou erradas, em todas as circunstâncias. O essencial é cabeça fria. Nós temos que impedir o máximo possível que as análises de conjuntura sejam contaminadas por teorias da conspiração, pelos nossos desejos, nossas vontades. As análises têm que ser mais objetivas e isentas possível, para que elas possam servir como um instrumento para a luta. Se a análise é fantasiosa, ou expressa nossos desejos, ela perde serventia para orientar a luta. A análise não é propaganda, análise é tentar encontrar elementos da realidade que permitam orientar e desbravar os caminhos para a ação política. Por isso, cabeça fria, observação dos fatos e apego à realidade são os elementos centrais.

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