A romantização da pobreza e a gourmetização da fome

O aumento do desemprego e da fome promovidos pela direita são acompanhados, na imprensa, pela exaltação do empreendedorismo na pobreza e do bom gosto na miséria

Imagem: Alexas_Fotos / Pixabay
por Danilo Matoso

Com a implementação das sucessivas reformas dos últimos anos, a direita vem impondo seguidas derrotas à população. A reforma trabalhista quebrou as pernas dos sindicatos e suas centrais, o governo protofascista de Bolsonaro fechou as portas do Estado à participação popular, as políticas sociais estão sendo desmontadas e extintas. Com o novo regime fiscal, o próprio Estado vem perdendo capacidade de investimento. Sobrevieram o desemprego e a miséria num processo brutal de pauperização de nossa classe trabalhadora. O povo voltou a passar fome e a imprensa corporativa cumpre seu papel nesse processo, normalizando as consequências da carestia como “empreendedorismo” ou gourmandise da subnutrição.

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Bolsonaro e a política do jejum

Como se sabe, passados cinco anos desde o golpe de 2016, a política agressivamente neoliberal de nossa direita no poder logrou colocar o Brasil de volta no mapa da fome das Nações Unidas, do qual havíamos saído em 2014, quando o número de pessoas em condições de vida abaixo da linha da extrema pobreza caiu para abaixo de 4,5% da população.

Bolsonaro e Paulo Guedes deixaram o câmbio flutuar livremente até o dólar explodir, direcionando a produção agrícola para o mercado externo praticamente sem qualquer programa de segurança alimentar que garantisse a aquisição de produtos para suprir a população. Ao contrário: no início de seu mandato, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – órgão encarregado de formular essa política.

O resultado é o que vemos no supermercado: alta nos preços de alimentos essenciais como arroz, feijão e óleo de cozinha levaram ao aumento da cesta básica da ordem de 20% no último ano, enquanto o salário mínimo teve um aumento de apenas 5%, como apontamos em dezembro. A esse quadro, soma-se a crise naturalmente decorrente da pandemia, que tornou o transporte mais oneroso e atingiu em cheio o comércio.

Muito mais gente está passando fome. Segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 116,8 milhões de pessoas – 55,2% da população brasileira – convivem com insegurança alimentar – não têm acesso pleno e permanente a alimentos. Desse total 19,1 milhões – 9% da população – estão passando fome. Quando isso ocorre – assim como na era FHC, nos anos 90 – a sociedade busca se organizar em redes de solidariedade.

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Por exemplo, o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) doou milhares de toneladas alimentos em diversas regiões do país, O Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) inaugurou pelo menos 16 Cozinhas Solidárias, a Central Única das Favelas (CUFA), criou a campanha de doações Panela Cheia Salva, a Coalizão Negra por Direitos criou a campanha Tem Gente com Fome, além de diversas outras iniciativas.

Não é uma situação normal. Prover segurança alimentar à população é papel do Estado – embora Bolsonaro e Guedes ajam como se não o soubessem. A única política nutricional idealizada pelo presidente nesse sentido parece ter sido a sucessiva convocação de seus fiéis a um dia de “jejum e oração pela liberdade.” A imprensa corporativa, como sempre, faz de tudo para normalizar a miséria, fazendo o povo crer que, se tem mais gente passando fome, é porque não se esforçou o suficiente ou porque o brasileiro é naturalmente indolente e preguiçoso.

Pornografia motivacional

Parte desse serviço fica a cargo da gourmetização dos alimentos mais baratos e da romantização da miséria – uma prática recentemente batizada como “pornografia de perseverança.” São aquelas estórias de solidariedade e “superação,” em que o trabalhador faz das tripas coração para se manter vivo ou para ajudar o próximo. Um exemplo recente da cara de pau pornográfica de nossa imprensa foi a estória veiculada na Globo de um menino paraense que precisa se dependurar numa árvore para conseguir estudar pela internet durante a pandemia. O enfoque não foi na falta de política de assistência que garantisse banda larga a toda a população, ou nas “falhas de mercado” não supridas por nosso sistema de telefonia celular privatizado. O enfoque, como sempre, é no “empreendedorismo” do sujeito pauperizado que tem que se virar pra estudar, trabalhar, botar comida no prato.

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“Empreendedor” é o nome que os liberais dão para “desempregado.” A revista global Pequenas Empresas & Grandes Negócios, por exemplo, publicou em 2018 uma matéria intitulada: “Jovens pobres já enxergam o empreendedorismo como uma opção de carreira.” Isso na verdade significa: “Brasil acumula desempregados, subocupados, informais e desalentados.” A constatação de que o desempregado pretende trabalhar na informalidade – ou “empreender” – e vê nisso uma opção de carreira é sinal inequívoco da precarização do mercado de trabalho nacional: nada de férias, plano de saúde, décimo-terceiro salário, licença-saúde. Nenhum direito em troca da única liberdade que este trabalhador tem: a liberdade de vender a sua força de trabalho. Para os interessados em conhecer cases edificantes de empreendedorismo, vale uma visita ao site Razões para acreditar. É um verdadeiro XVideos da pornografia de perseverança – talvez não por acaso financiado por uma empresa de transporte por aplicativo.

Gourmandise faisandéegourmandise putréfiée

A mais cretina normalização da desigualdade e da carestia, porém, é a gourmetização da fome. Nossa imprensa corporativa age como uma espécie de versão piorada de Maria Antonieta: “Se não têm pão, que comam farinha e finjam que é brioche.” Se o arroz dobrou de preço em um ano de pandemia, talvez as pessoas sejam obrigadas a reduzir seu consumo e armazená-lo por mais tempo. Prestimosamente, a Folha resolve o problema e publica uma matéria em seu site Viva BemDá para salvar alimentos infestados de carunchos? Faz mal comer o inseto?.

O pão francês aumentou 50%? A Folha traduz em suas páginas a dúvida popular na matéria “É perigoso para a saúde comer alimentos mofados?” – e claro que a resposta é sim, embora a matéria seja concluída com a seção “fungos do bem.”

Com a pressão privatista sobre a Petrobrás e a política de paridade de preços entre mercado interno e mercado internacional o botijão de gás de cozinha finalmente chegou a R$ 100 – evidentemente um valor inacessível para quem ganha menos de R$ 500 por mês. Com ar cúmplice e doméstico, a Rede Massa, afiliada do SBT no Paraná apresenta a solução natural: “Gás caro e comida mais saborosa: fogão à lenha vira xodó nas casas.” Afinal, é claro, tudo fica mais gostoso e aconchegante se os trabalhadores precisam cortar lenha, limpar panelas e a casa sujas de fuligem e cinzas e lidar com um risco de incêndio sensivelmente maior.

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O preço da carne subiu tanto nos últimos anos que o povo teve que passar a comer ovo. Sem motivo para desespero! A Folha publica em seu perfil do Instagram um ovo estrelado imerso em gordura e o chamando de “O novo bife do brasileiro” 🥚. O Lula bem que lembrou, em março, da falta que faz um bom churrasco de picanha na mesa do trabalhador brasileiro, após um aumento de 50% em 12 meses. Mais uma vez, a Folha acode a classe média: “Falsa picanha? Coxão duro e coxão mole podem fazer bom churrasco; aprenda“.

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“Aprender” a comer mal e a comer menos está no cerne dessa política de normalização da desigualdade operada pelos aparelhos ideológicos do grande capital: diminuir a expectativa de qualidade de vida e alimentação, reduzir os salários, cortar direitos, aumentar a desigualdade, aumentar o mais-valor extraído das relações de trabalho. É uma fórmula antiga que eles operam bem e só traz miséria e morte – quer seja pela fome, quer seja pela doença. Algo aí não cheira bem: esse jogo de gourmetização da pobreza evolui rapidamente do faisandé ao putréfié.

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