8 vezes em que nos perguntamos: o Bolsonaro é nazista?

Uma linha do tempo com oito ocasiões em que bolsonaristas e Jair Bolsonaro expressaram simpatia por nazistas, neonazistas e supremacistas brancos

Imagem: Adriano Machado/Reuters
por Luca Uras

Não são poucas as pessoas que chamam Jair Bolsonaro de nazista, mas há algum fundamento para isso? Ou melhor, além das tendências genocidas e o claro descaso em relação à vida humana, há algum outro fundamento, mais concreto, para isso? Uma linha do tempo de alguns “casos isolados” ligando Bolsonaro ao nazismo ao longo de sua carreira política pode nos ajudar a ter uma ideia melhor.

1. Caso dos Alunos Admiradores de Hitler – Janeiro de 1998

Num dos casos mais bizarros ligando Bolsonaro ao nazismo, temos a vez em que uma série de alunos do Colégio Militar de Porto Alegre elegeu Adolf Hitler como o personagem histórico mais admirado deles. O nome do nazista foi incluído, no ano de 1997, numa revista estudantil como o escolhido por metade dos alunos. Logo no início do ano seguinte, num discurso na Câmara dos Deputados, Bolsonaro defendeu a liberdade de expressão dos alunos e, ainda por cima, elogiou Hitler por “de uma forma ou de outra” impor ordem e disciplina.

Bolsonaro já defendeu estudantes que admiravam Hitler. Confira

2. Caso do Portal Neonazista – Dezembro de 2004

Recentemente veio à tona que a antropóloga Adriana Dias, enquanto fazia a revisão do material que tinha coletado sobre o portal neonazista Econac, acabou vendo um rosto familiar: o de Jair Bolsonaro. Além de uma faixa exaltando o (na época) deputado com os dizeres “ENTREGUE SUA ARMA! OS VAGABUNDOS AGRADECEM” e um link para o seu site, a pesquisadora achou ainda uma carta de nosso presidente agradecendo aos internautas. “Vocês são a razão do meu mandato”, diz a carta. Por mais que não tenha um destinatário explícito, a carta não se encontra em mais nenhum lugar da internet.

Imagem: Reprodução/Web Archive

3. Caso do Neonazista de Belo Horizonte – Maio de 2016

Antônio Donato, neonazista assumido, foi preso em 2016 depois de três anos de investigação da Polícia Civil e do Ministério Público após postar uma foto em que simulava enforcar um morador de rua. No seu perfil foram encontradas diversas imagens e mensagens preconceituosas, inclusive com uma criança, filho de um de seus amigos. Donato acabou sendo condenado por apologia ao nazismo e corrupção de menor. Por mais repugnante que seja essa história, a parte relevante vem agora: após uma busca e apreensão em sua casa, foi encontrada uma carta de Jair Bolsonaro destinada ao neonazista. O conteúdo da carta segue em sigilo.

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Imagem: Reprodução/Facebook

4. Caso do Holocausto – Abril de 2019

Logo após visitar o Museu do Holocausto, num encontro com sua base evangélica, Bolsonaro fez um discurso em que disse que “podemos perdoar” o Holocausto. Ele continuou seu discurso dizendo que, no entanto, não podemos esquecer, para que a história não se repita, mas é uma escolha um tanto esquisita dizer que poderíamos perdoar um dos crimes mais hediondos da história. O fato causou uma reação imediata do Museu do Holocausto, que logo publicou uma nota condenando a fala do presidente.

Memorial israelense reage a afirmação de Bolsonaro de que é possível ‘perdoar o Holocausto’ – 13/04/2019 – Mundo – Folha (uol.com.br)

5. Caso Roberto Alvim – Janeiro de 2020

Na época Secretário Especial da Cultura, Roberto Alvim se envolveu em polêmica ao, em um vídeo de pronunciamento, citar, quase que palavra por palavra, um discurso de Joseph Goebbels, o famoso ministro da propaganda de Hitler. Se compararmos o discurso de Alvim: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional (…) e será igualmente imperativa (…) ou então não será nada”, com o de Goebbels: “A arte alemã da próxima década será heroica (…) será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, podemos ver que não se trata de nenhuma paranoia, o secretário realmente bebeu fortemente de uma fonte nazista para criar sua concepção do que deveria ser a arte “nacional”. Ao fundo, ouve-se o prelúdio de Lohengrin, ópera de Richard Wagner, compositor alemão de que os nazistas se apropriavam.

Não bastando copiar a base ideológica de Goebbels, Roberto Alvim ainda copiou também a estética do ministro nazista. Vemos, em seu vídeo, o ex-secretário de cultura em sua mesa e uma foto do presidente na parede. Agora, passando para o escritório de Goebbels, vemos o quê? A mesa do ministro e uma imagem de Hitler logo atrás. Claramente uma infeliz coincidência, como apontou o próprio Roberto Alvim.

Imagem: Reprodução

6. Caso dos Paraquedistas – Maio de 2020

Uma brigada de paraquedistas das Forças Armada, ex-companheiros de armas do Bolsonaro, resolveu ir até o Palácio da Alvorada saudar o presidente. Até então, nada fora do comum para nosso governo proto-militar. No entanto, o que ocorreu no evento, e alguém achou que seria uma boa ideia registrar em vídeo, foi um grupo de homens fardados gritando “Bolsonaro somos nós” e fazendo uma saudação, levantando apenas o braço direito, ao chefe de Estado. O paralelo entre o gesto dos soldados e a saudação nazista, usada para cumprimentar Hitler, é claro para qualquer um.

Bolsonaro recebe paraquedistas no Palácio da Alvorada

7. Caso Filipe Martins – Março de 2021

Durante uma sessão do Senado, o assessor especial do governo e um dos conselheiros de Bolsonaro, Filipe Martins, fez um gesto, supostamente de “OK”, durante a fala do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. O gesto, no entanto, é reconhecidamente usado por grupos supremacistas brancos para representar o “White Power”. A Policia Legislativa investigou o caso e concluiu que o assessor cometeu, de fato, crime de preconceito.

As “coincidências”, no entanto, não param por aí. Filipe Martins já havia, em 2020, postado a frase “Oderint dum metuant” (“que me odeiem, contanto que me temam”) no seu Twitter, lema do grupo neonazista Combat-18.

Além disso, sua foto de capa na rede social é, o que poderia ser, uma imagem “fashwave”, movimento artístico de cunho fascista do underground da internet, citando um verso de um poema de Dylan Thomas que inicia o manifesto do atirador neonazista Brenton Tarrant, que matou 50 pessoas numa mesquita em Christchurch, na Nova Zelândia.

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Imagem: Reprodução/Twitter

8. Caso Beatrix von Storch – Julho de 2021

A mais recente das coincidências isoladas de Bolsonaro se associando, por livre e espontânea vontade, ao nazismo, foi seu encontro com a deputada alemã Beatrix von Storch. A parlamentar alemã não é nada menos que neta de Lutz Schwerin von Krosigk, que foi ministro das Finanças de Hitler, responsável pelo confisco de bens dos judeus na Alemanha Nazista. Não bastando isso, ela ainda é vice-presidente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), um partido neonazista conhecido por posições extremistas e xenofóbicas, além de minimizar o Holocausto. Bolsonaro e sua base (notavelmente Bia Kicis, presidente da CCJ, seu filho, Eduardo Bolsonaro, e o ministro Marcos Pontes) tiraram, sorridentes, fotos com a deputada e ainda comemoraram a aliança internacional entre os conservadores de diferentes países.

“Tem aparência de merda, cheiro de merda e até gosto de merda”

Há uma velha piada sobre dois homens que, caminhando na rua, se deparam com algo que parece ser bosta de cachorro, mas eles não têm certeza se é ou não. Um deles, então, pega um pedaço, olha de perto, cheira e, por fim, coloca na boca. Conclui ele: “Tem aparência de merda, cheiro de merda e até gosto de merda. Ainda bem que não pisamos!” Se Bolsonaro é nazista ou não, fica a cargo de cada um decidir, mas é um fato inegável que o presidente é venerado por nazistas, anda com nazistas e até fala como nazista. Ainda bem que não o elegemos!

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