7.5.2020

No silêncio da manhã eu ouvia aquele ruído contínuo, aquele ir e vir em estalos rítmicos. Não me lembro quando aquele oceano de pedra começara a dar com suas ondas no costado de meu prédio. Com as juntas rangendo, as paredes de concreto do apartamento ainda resistiam ante aquela força mineral, inabalável, maior que tudo, maior que a vida, era a própria matéria do tempo, esteve sempre lá, macerando-nos as costelas. Eu não via. Agora só ouço. Ele corre lá fora, esmagando automóveis, derrubando aviões, afundando navios, destruindo cidades, arrasando países, cobrando vidas. O mundo parece que vai acabar, o mundo sempre esteve para acabar. Era questão de tempo. Agora estou isolado do tempo. Ele não me atinge, não me vê, e nem eu o alcanço. Sobrevivo no isolamento sem tempo para nada. Instado a cada instante a viver uma eternidade em cada segundo. Mais uma vaga de pedra atinge a fachada do meu prédio. Acho que ele não resiste mais.

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