28.3.2020

Pulei no esgoto. Não aconteceu nada. Entrei num torpor marrom e me vi na rua. Tudo funcionava normalmente. Passei no cartório, no banco, no supermercado, nas Casas da Banha. Comprei vaselina mentolada. Dizem que é bom para a gripe suína. Passei embaixo do braço para pegar mais um trem lotado. Cheguei em casa. Tudo funcionava normalmente. Minha mulher, meus filhos, a televisão. Malditos chineses comunistas. Preciso comprar mais vaselina mentolada. O tempo havia parado. Eu estava imerso em banha. Me senti um porco. Fiquei paralisado. Quanto tempo? Uma semana? Dois anos? Vinte? Lá fora o mundo fluía em movimentos peristálticos. O presidente falava. Todos digeriam. Tudo fluía normalmente. A bolsa quebrou. Era uma bolsa de colostomia enorme. Loiros de pele bronzeada de plástico e camisa havaiana me saudaram na porta do Alphaville.

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