‘Não desrespeito a quarentena porque quero. É porque o patrão obriga’

Sem direito ao isolamento, empregados tomam cuidados básicos ao sair para trabalhar, mas vivem com medo de levar vírus para a casa e infectar a família

Imagem: Junião/Ponte Jornalismo
por Paulo Eduardo Dias para a Ponte

O cenário ideal para evitar a disseminação do coronavírus era se todo mundo pudesse permanecer em suas casas e respeitar o isolamento recomendado, entre outros órgãos e especialistas na área médica, pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Aliado à quarentena, o uso de máscara e higienização das mãos com álcool em gel também ajudaria a conter a proliferação da doença.

No entanto, todas essas recomendações caem por terra quando patrões obrigam seus funcionários a trabalhar mesmo quando não são serviços essenciais, como a área da saúde, segurança, alimentação ou transporte. Tudo isso respaldado por decisões do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que a cada momento aumenta o número de serviços essenciais, por ser contra o fechamento do comércio.

É o caso de Catarina*, uma vendedora do setor industrial que se viu obrigada a ir para o trabalho, sob pena de ficar desempregada, mas que contou para Ponte da culpa que sente toda vez que sai de casa para ir trabalhar no centro da cidade de São Paulo. Ela afirma que sente os olhares de reprovação de pessoas que estão ao seu redor e que não entendem que muita gente, como é seu caso, está sendo “obrigada por seus patrões a bater ponto nas empresas”, não tendo espaço para qualquer tipo de negociação como, por exemplo, o trabalho remoto.

“Os veículos de comunicação dizem que os paulistanos não estão respeitando a quarentena. Isso me doeu, porque eu tenho que ir trabalhar, não estou passeando. Eu tive que ir trabalhar por conta da MP (Medida Provisória) 936 do governo federal, que permitiu a redução de jornada com redução de salário”, explica a mulher, que viu seu rendimento mensal despencar em quase 70%.

A MP publicada por Bolsonaro em 1º de abril tem como objetivo, segundo seu próprio texto, “preservar o emprego e a renda; garantir a continuidade das atividades laborais e empresariai; e reduzir o impacto social decorrente das consequências do estado de calamidade pública e de emergência de saúde pública”, nem que para isso coloque em risco a vida do trabalhador e de seu familiar.

É a resolução de tal norma que deixa Catarina ainda mais chateada, já que sabe não ser a única que defende o isolamento, mas que precisa deixar familiares em casa por determinação do patrão. “Acredito que vários trabalhadores estão na mesma situação que a minha, pois não podemos perder os nossos empregos. Empresários têm visão formada, eles têm a certeza que a classe trabalhadora precisa dos seus empregos para comer e eles usam isso e ponto. Ou você trabalha ou outro trabalha no seu lugar”, avalia.

Mesmo com sua locomoção sendo feita em seu próprio carro, o que ameniza a situação, já que não precisa enfrentar o transporte público superlotado, sua chateação em furar a quarentena também se explica pelo temor de prejudicar seus familiares. “Eu tenho um filho e mãe idosa, todos os dias quando vou trabalhar tenho medo de ter contraído o vírus e estar trazendo a doença para minha família”.

Assim como todos aqueles que respeitam o coronavírus e sabem não se tratar de uma “gripezinha” e muito menos de “histeria”, como chegou a declarar Bolsonaro nas primeiras semanas da pandemia, Catarina tem na ponta da língua a maneira de se resguardar e assim zelar por sua mãe e filho que a aguardam em casa. “Uso máscara na empresa, lavo sempre as mãos e uso álcool. [Ao chegar em casa] vou direto tomar banho e ponho as roupas que usei direto para lavar”, explica sobre sua rotina diária.

Questionada sobre o que ela acha que seus patrões deveriam fazer, a mulher foi taxativa. “Se eles liberassem o home office acho que já ajudaria. Porque eu não me nego a trabalhar, só não queria me expor”, completa.

Assim como Catarina, Jorge*, é outro que tem deixado a mulher em casa para garantir o sustento do lar. Ele, que trabalha como promotor terceirizado de uma rede de supermercados, afirmou não ter parado de trabalhar desde o início da pandemia, mas que não liga para aqueles que o julgam.

“Na verdade procuro não dar ouvidos, pois isso é apenas questão de se colocar no lugar do outro e entender que, se pudesse escolher, eu estaria em casa”, afirma.

Questionado sobre seu medo, o rapaz, sem hesitar, fala de sua companheira. “Tenho mais [medo] por conta da minha esposa, que está em casa se resguardando e eu tenho que sair. Meu medo é passar esse vírus para ela e acontecer o pior”, diz.

Na visão de Jorge, deveria ser feita uma mudança no horário do abastecimento das prateleiras, que já não ficam vazias tão rapidamente como no início da pandemia, quando muitas pessoas lotaram os estabelecimentos para comprar e estocar alimentos e itens de higiene. “Por trabalhar no mercado onde tem uma alta circulação de pessoas, acredito que mudar o horário de abastecimento ou de permanência em loja ajudaria bastante a reduzir os riscos de contágio”. “Continuo trabalhando normal, não reduziram salário e nem carga horária. A empresa me forneceu máscara e álcool em gel”, conclui Jorge.

Isolamento como um direito

O fato de que há pessoas com consciência dos riscos da Covid-19 e que só estão cumprindo a rotina de trabalho porque não lhes foi dada alternativa deve ser analisado como um ataque ao direito de preservar a a vida.

Para a feminista negra e membro da coordenação da Dhesca Brasil (Plataforma Brasileira de Direitos Humanos) Ana Claudia Mielke, é “necessário pensar no isolamento como um direito”.

“No Brasil, a pandemia está revelando a face da desigualdade histórica. Quem está indo trabalhar é quem não pode fazer home office, é quem está no setor da economia mais básico. A gente tem que garantir o direito ao isolamento. É um direito do cidadão para que o vírus não continue se espalhando”, argumentou.

Ana Claudia ainda deu o exemplo do rodízio de veículos imposto durante uma semana pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) como algo que não surtiu efeito devido a quantidade de pessoas que precisam trabalhar.

“As associações comerciais estão fazendo pressão nos governos municipais e estaduais pela reabertura do comércio. O que você percebe com relação à estratégia adotada pelo Covas do rodízio de placas pares e ímpares em dias alternados é que não diminuiu o fluxo de pessoas. Diminuiu um pouco o fluxo de carros, mas você percebe que as pessoas obrigadas a trabalhar foram de ônibus ou metrô”, analisa.

Em uma análise fria, Ana Claudia Mielke sustentou que o capitalismo é uma das primeiras barreiras contra o isolamento. “Parte da consciência do empresário, mas sabemos que, no capitalismo, não existe consciência em cima do lucro. Nesse caso, cabe ao setor público regular a garantia desse direito. Cabe ao Estado criar regras e impor sanções às empresas que estão descumprindo o isolamento”, ponta.

Ana reconheceu que algumas empresas terão inevitavelmente que enfrentar problemas, mas que o mais importante agora é evitar que o vírus de propague e garantir que as pessoas fiquem vivas. “Depois que passar por esse processo é pensar nas soluções para alavancar a economia. Mas isso é depois, não se pode colocar na frente”, finaliza.

*Nomes fictícios foram usados porque os entrevistados temem represália de suas empresas

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