Excluídos da história

Dicionário digital reúne verbetes sobre personagens brasileiros pouco conhecidos do grande público

Imagem: Júlia Cherem Rodrigues
por Bruno de Pierro para a Pesquisa FAPESP

Símbolo da resistência negra, a escrava piauiense Esperança Garcia lutou contra os maus-tratos sofridos pelos escravizados em fazendas de algodão no período colonial. Em 1770, endereçou uma carta ao governador da província do Piauí, Gonçalo Botelho de Castro, denunciando os abusos, mas não obteve resposta. O documento, no entanto, é considerado a primeira petição feita no Estado e, em setembro de 2017, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) concedeu a ela o título simbólico de primeira advogada do Piauí. Apesar disso, trata-se de uma figura dificilmente lembrada nos livros de história.

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“Há muitas pessoas marginalizadas e excluídas do cânone da narrativa histórica, que sempre privilegiou os feitos de homens brancos de classes dominantes”, afirma a historiadora Cristina Meneguello, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp). Ela é uma das responsáveis pelo dicionário virtual Excluídos da história, que reúne 2.251 verbetes sobre personagens nacionais pouco ou nada mencionados em livros didáticos.

Além de Garcia, figuram nomes como o da bailarina fluminense Mercedes Baptista (1921-2014), primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. “Ao acessar fatos relacionados a personagens pouco conhecidos, é possível extrair informações novas e detalhadas sobre contextos mais amplos marcados por pobreza, desigualdade social e preconceitos de toda ordem”, avalia a historiadora.

Lançado em 2020, o dicionário é fruto de trabalho colaborativo envolvendo alunos e professores do ensino médio e fundamental das várias regiões do país e foi produzido na fase final da 11ª Olimpíada Nacional de História do Brasil (ONHB), em 2019. No total, 6.753 estudantes de escolas públicas e privadas, divididos em grupos de três, se encarregaram de escolher os personagens, resgatar suas trajetórias e redigir os verbetes com a ajuda de professores.

Na maioria dos casos, os biografados são reconhecidos no âmbito local ou regional. “Ou seja, são sujeitos que conquistaram alguma importância em cidades de pequeno e médio porte, sem alcançar projeção nacional”, diz Meneguello, uma das coordenadoras da ONHB. É o caso do mecânico José Valdetário Benevides Carneiro (1959-2003), nascido em uma família conhecida pela brutalidade em Caraúbas, no Rio Grande do Norte. Diferentemente dos parentes, era pacífico e dedicava-se à oficina. Em 1991, aos 33 anos, foi preso injustamente, acusado de roubar um carro, sendo inocentado cinco anos depois.

A paz durou pouco. Apontado novamente como autor de um crime que não cometera, Valdetário Carneiro, como era conhecido, decidiu fazer justiça. Formou uma quadrilha e assassinou seu acusador, por vingança. Não parou por aí: foragido, orquestrou a morte do prefeito de Caraúbas e, por oito anos, planejou assaltos a bancos, tornando-se protagonista do que viria a ser chamado “novo cangaço”, em referência ao banditismo promovido no início do século XX pelo bando do pernambucano Virgulino Ferreira da Silva (1898-1939), o famoso Lampião.

Morto em uma emboscada policial em 2003, o mecânico-cangaceiro ficou registrado apenas na memória local, lembrado como um homem que cometia crimes para reparar injustiças. Aos mais necessitados, doava dinheiro roubado dos ricos. Mais do que curiosa, a trajetória do “justiceiro” potiguar fornece novos elementos para entender o vínculo entre violência e certa forma de heroísmo que se manifesta há séculos no sertão nordestino.

Outro exemplo é o de Alzira Soriano (1897-1963), considerada a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita na América Latina. “Ela é bastante conhecida no Rio Grande do Norte, mas praticamente desconhecida no restante do país”, diz Gerardo Júnior, professor de história do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), campus de Mossoró. Viúva aos 22 anos e grávida, Soriano ganhou notoriedade local ao assumir o comando da fazenda do marido e ingressar na política após conhecer a bióloga carioca Bertha Lutz (1894-1976), uma das primeiras ativistas pelo feminismo no país.

“Em 1929, ela se candidatou à prefeitura do município de Lages e foi eleita com 60% dos votos, em uma época em que as mulheres não tinham o direito de votar”, conta Júnior, que supervisionou as 65 equipes do IFRN que participaram da elaboração do dicionário. Dessas, 18 produziram verbetes sobre Alzira – todos publicados no portal.

“Muitos grupos optaram por pesquisar o mesmo personagem, e nós não vetamos isso”, observa Meneguello. “A repetição de verbetes mostra que a biografia de uma mesma pessoa pode ser narrada a partir de diferentes perspectivas críticas. Foi uma oportunidade de ensinar aos estudantes que a escrita da história não tem uma versão definitiva.”

Débora Seabra de Moura (1981 – ), Dona Helena (Helena Verareryi) (1958 – ), Dragão do Mar/Chico da Matilde (Francisco José do Nascimento) (1839 – 1914), Elizabeth Altino Teixeira (1925 – ). Imagem: Júlia Cherem Rodrigues

Os sete verbetes dedicados ao intelectual paulista Abdias do Nascimento (1914-2011) são um bom exemplo. Enquanto alguns dão mais ênfase ao seu ativismo político na Frente Negra Brasileira e ao embate contra órgãos de repressão da ditadura militar (1964-1985), levando-o ao exílio em Nova York, nos Estados Unidos, outros destacam sua atuação como professor universitário e artista plástico.

Para Júnior, um dos méritos do dicionário Excluídos da história foi colocar os estudantes em contato com a pesquisa científica. “Como os trabalhos foram desenvolvidos antes da pandemia, os alunos puderam coletar dados em bibliotecas, fazer entrevistas e revirar documentos em arquivos públicos.” Para muitos adolescentes, observa Júnior, a disciplina de história é encarada como uma sucessão de nomes, datas e eventos que precisam ser memorizados. “Ao longo da produção dos verbetes, eles perceberam que a partir da pesquisa acadêmica é possível estruturar múltiplas narrativas da história.”

Outro ponto importante é que o dicionário também inclui personagens vivos, ressalta Carolina Cruz Ledoux, professora de história do Colégio Sartre, em Salvador, na Bahia. “Boa parte de nossos alunos decidiu escrever sobre ativistas, líderes comunitários e artistas que estão na ativa, provenientes de grupos mais vulneráveis do ponto de vista socioeconômico.”

Um dos verbetes é dedicado a Clarindo Silva, nascido em 1942, bisneto de escravos. Conhecido como Anjo da Guarda do Pelô, o baiano fundou em 1983 o Projeto Cultural Cantina da Lua, importante iniciativa que contribuiu para a revitalização do bairro do Pelourinho, no centro histórico de Salvador. De acordo com o dicionário, Clarindo tornou-se grande difusor da cultura afro-brasileira, porque “não se conformava com o descaso em relação à cultura do seu povo”. As reuniões na Cantina da Lua atraíram artistas que aderiram à causa e queriam divulgar a cultura negra, dentre eles o Bloco Olodum. “Hoje, pessoas do mundo inteiro visitam o Pelourinho para apreciar a batida de tambores, as tranças no cabelo, a feijoada e toda essa cultura.”

Ledoux salienta que, nas últimas décadas, linhas de investigação sobre “excluídos” ganharam mais espaço nos estudos de história. “Hoje já falamos em uma história dos negros e das religiões de matrizes africanas. Há trabalhos sobre grupos LGBT e pesquisas que destacam o papel das mulheres no enfrentamento da ditadura”, diz. Além disso, a disseminação de estudos pós-coloniais permitiu romper com a ideia de uma narrativa histórica única e ajudou a valorizar saberes de habitantes nativos (ver Pesquisa FAPESP nº 285).

“Há pelo menos 50 anos a discussão sobre os ‘excluídos’ constitui uma tendência da historiografia contemporânea”, afirma a historiadora Márcia de Almeida Gonçalves, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Vertentes como a micro-história valorizaram temas do cotidiano e biografias de anônimos, se consolidando a partir da década de 1980. Houve também a projeção do debate sobre as relações de poder que permeiam a escrita da história e que interferem na constituição de memórias compartilhadas socialmente.”

O termo “excluídos da história” adquiriu notoriedade no Brasil em 1988, quando foi publicada pela primeira vez a tradução da coletânea de 11 textos da historiadora e feminista francesa Michelle Perrot, professora emérita da Universidade Paris VII. A obra, intitulada Os excluídos da história, analisa três grupos sociais periféricos na França do século XIX: operários, mulheres e prisioneiros. “Perrot lançou um novo olhar para personagens da história que muitas vezes eram deixados de lado. Tornavam-se, dessa forma, invisíveis em narrativas que celebravam imperadores e aristocratas”, conta Gonçalves.

Embora seja prolífica no meio acadêmico, a pesquisa em torno de personagens historicamente omitidos praticamente não é aproveitada nos livros didáticos. “A maioria dos livros de história utilizados nas escolas não leva em consideração questões regionais nem protagonistas ligados a realidades locais”, avalia Gerardo Júnior. “O mesmo livro que usamos no Rio Grande do Norte é usado no Rio Grande do Sul. No meu caso, tenho liberdade para abordar tópicos da história do meu estado, mas no geral o sistema educacional é voltado para o vestibular, dando pouco espaço para temas locais.” De acordo com especialistas em educação, o material didático de fato está cada vez mais universalizado (ver reportagem “Material didático com conteúdo local pode estimular aprendizado e conservação”).

Por isso, pode surpreender a presença, no dicionário, de verbetes sobre nomes talvez mais conhecidos no âmbito nacional, como o músico cearense Belchior (1946-2017), a revolucionária catarinense Anita Garibaldi (1821-1849), a militante paulista Patrícia Galvão (1910-1962), conhecida como Pagu, e o abolicionista baiano Luiz Gama (1830-1882).

“São pessoas que até aparecem em livros didáticos, mas muito de passagem, em segundo plano. Fora isso, temos a ilusão de que figuras como Anita Garibaldi são amplamente conhecidas no país, mas na verdade sua história é mais contada nas regiões Sul e Sudeste”, esclarece Meneguello. “Esperamos que o dicionário seja utilizado em salas de aula, ainda que remotamente, por conta da pandemia. Ele pode suscitar questionamentos e descobertas e, quem sabe, servir como ponto de partida para novos estudos.”

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Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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