Wasp Network: os espiões de Fidel em Miami

Disponível na Netflix, filme com Wagner Moura, Penélope Cruz e Gael García Bernal mostra como Cuba se defendeu de ataques terroristas durante os anos 90

Imagem: reprodução
por Rolando Pérez Betancourt para o Granma, com tradução de William Dunne

O texto abaixo foi publicado originalmente no Granma sob o título “La red avispa“, por ocasião do 41º Festival de Havana, em dezembro. Depois disso, o filme Wasp Network: Rede de Espiões entrou para a programação da Netflix, o que causou protestos entre os gusanos, fato que vem sendo acompanhado pelo Granma em matérias como “Nuevos delirios contra La red Avispa” e “La red Avispa y la claque que no cesa“.

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Finalmente exibido no 41º Festival de Havana, o filme Wasp Network: Rede de Espiões deixa claro, com objetividade histórica, que os cubanos infiltrados em organizações contrarrevolucionárias exiladas em Miami tinham o direito de proteger a segurança de seu país, e assim deter a onda de atentados terroristas dos anos 90 do século passado amparados pelos EUA.

Um aspecto importante para levar em conta é que o filme do francês Olivier Assayas, prestigiado realizador cuja obra é conhecida em nosso país, permitiu apreciar a sensibilidade de um artista capaz de abordar os problemas humanos mais variados a partir de relatos intimistas.

Baseado no livro Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, o próprio Assayas escreveu o roteiro de um conflito que – não poderia ser diferente – estabelece quem são os agredidos e quem são os agressores de uma história que remonta a meio século.

Isso foi o suficiente para que a contrarrevolução em Miami, sem ver o filme, só notícias sobre sua apresentação no Festival de Veneza, armasse tumultos e fizesse uma advertência patética: nessas terras (nos EUA), o filme não poderia nem aparecer.

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O tema dos Cinco Heróis e as histórias que dele se depreendem permitiriam realizar uma boa quantidade de filmes e seriados. Mas em toda obra baseada na realidade há uma seleção de acontecimentos e personagens, além de licenças poéticas colocadas em função da dramaturgia e da simplificação do argumento. Do livro de Morais, Assayas ressalta o que achou pertinente para armar um enredo de acontecimentos que abarcam muitos anos e não poucas intrigas. Ainda que o filme tenha sido promovido como um thriller de espionagem, o diretor afirma que se trata de uma visão histórica, concebida com a intenção de capturar uma gesta que o cativou depois que ele a conheceu.

Era recomendável, porém, equilibrar o tom e balancear o conflito de maneira que não prevalecesse um ponto de vista completamente favorável à causa revolucionária em um filme com financiamento estrangeiro e projeção internacional. Além da admissão de que o fator político, em qualquer tema, é sempre motivo de divisão de opiniões e até entrincheiramentos, vistos agora, inclusive, em críticas “artísticas” em que ressaltam mais as posturas ideológicas contra o “regime comunista cubano” do que uma prática sem preconceitos da análise profissional.

Mas os fatos são os fatos e a honestidade artística, mesmo que se veja obrigada a matizar, não pode se desprender deles.

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Para este cronista, Wasp Network: Rede de Espiões termina sendo um filme digno e que merece ser visto, o que não o livra de inconsistências em sua realização. A mais significativa é a dispersão motivada por querer abarcar tudo e explicar mais do que o necessário, atendendo ao possível desconhecimento que uma audiência internacional possa ter do tema. Nesse sentido, o roteiro recorre a saltos de tempo e a uma entrada e saída de personagens que deixam vazios quanto a propósitos do relato e uma falta de clareza de certas situações, como a concernente à fuga para Cuba que empreende o infiltrado Juan Pablo Roque (Wagner Moura).

Outra cartada discutível – que para um espectador cubano não tem nada de reveladora – é o fator surpresa que se pretende impregnar nos infiltrados em Miami, fazendo-os aparecer primeiro como traidores que escapam da Ilha e depois em sua função real, um jogo duplo carente de contundência dramática que, adivinha-se, estava entre os propósitos do realizador.

Wasp Network: Rede de Espiões se inclina para as histórias relativas a René González (Édgar Ramírez) e sua esposa Olga Salanueva (Penélope Cruz, em excelente atuação).

Também é mencionado Roque e a esposa com quem ele se casa em Miami (Ana de Armas), cada casal com seus conflitos amorosos-políticos muito particulares e levados com bastante facilidade na trama. Gael García Bernal interpreta Gerardo Hernández, líder do grupo, e seria preciso ver as opiniões que têm os personagens reais quanto à sua caracterização.

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O filme reconstrói com eficiência os atentados terroristas contra instalações turísticas, mostra os rostos principais do exílio contrarrevolucionário e recorre a fragmentos de arquivos como recordação de que aquilo provém da realidade. Assim aparecem, separadamente, os presidentes Clinton e Fidel, nas cenas finais, durante uma entrevista com uma jornalista norte-americana. Fidel é assertivo quanto ao direito que tem o país mais espionado do mundo, Cuba, de saber o que fazem os inimigos em solo estadunidense para atentar contra o povo cubano.

A cena foi questionada por alguns críticos que alegam que ela “politiza” demais o filme. Mas Assayas foi claro em relação ao velho debate sobre ser efetivo ligar política e arte. Em uma entrevista recente, em que surgiu essa repreensão, declarou: “Quando finalmente vi o material de arquivo, esse momento me surpreendeu, porque Castro basicamente resume o que acontece no filme. Pensei que era algo muito forte para incorporar nesse momento: o personagem histórico que oferece uma sensação de realidade e verdade à história que estávamos contando”.

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Wasp Network: Rede de Espiões, talvez um pouco comprido perto do final, vasto, polêmico, revelador, imperfeito… sem dúvida é preciso vê-lo.

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