Tapa na Pantera: Maria Alice Vergueiro em 3 atos

Ópera do Malandro, O Rei da Vela, Galileu Galilei. Oficina, Arena e Ornitorrinco. Uma obra de vida que vai muito além do meme

Imagem: as personas de Maria Alice
por Bibi Tavares

Em 2006, à frente do programa Provocações na TV Cultura, o mestre Antônio Abujamra já nos lembrava da originalidade de Maria Alice Vergueiro. “Paulo Autran disse que você é completamente original, uma das poucas atrizes brasileiras que no palco não se parece com ninguém”, sentenciou o velho Abu. “Ela é um ser humano diferente” disse Autran outra vez. Questionada sobre qual o maior equivoco que as pessoas cometem ao falar sobre ela, a resposta é digna de quem sabe o valor que tem: “Eu acho que é não falar sobre mim”. Abujamra retruca: “você é muito provocadora mesmo”.

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Maria memeira

Nesse mesmo ano, uma década antes dos memes tornarem-se algo tão popular e cotidiano, a dama do underground virou febre entre os jovens ao protagonizar o que viria a ser conhecido como o meme do “tapa na pantera”. Tratava-se de um curta-metragem de mais ou menos quatro minutos, onde a atriz faz uma defesa ficcional do uso da maconha, e ainda afirma acertadamente que ela fuma “no cachimbo porque o que faz mal mesmo é o papelzinho”. O vídeo, reconhecido até hoje, viralizou quando nada viralizava ainda.

Excêntrica e, segundo ela mesma, dona de uma dicção de dar inveja, Maria Alice poderia facilmente ser a precursora brasileira do meme. O “tapa na pantera” ficou por muitos anos divertindo e, de tempos em tempos, sendo relembrado como um clássico do humor na internet, alcançando mais de cinco milhões de acessos. Assim, Maria Alice, que além de atriz e diretora era também pedagoga, levava o underground para dentro do YouTube.

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Mas de quem estamos realmente falando? Da fundadora do Teatro Ornitorrinco? Da professora da ECA – Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo? Da Pantera? Ou da simpática senhorinha que fuma maconha há 30 anos? A verdade é que a singularidade de Maria Alice vinha da junção de todas essas personas.

Alice atriz

Em outra entrevista, Maria Alice recorda que seu tio foi um dos fundadores do Teatro Brasileiro de Comédia e, assim como a maioria dos membros da família, sua inclinação às artes, principalmente ao teatro, vem dessa influência familiar. Protagonizou algumas das peças mais históricas do país, como Mahagony Songspiel, de Cacá Rosset, Electra Com Creta, Katastrophé, Rubes Rusche e O Rei da Vela de, Oswald de Andrade, com direção de Zé Celso Martinez Corrêa, um dos principais diretores, dramaturgos e atores do Brasil.

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Trouxe ao Brasil as obras de Thomas Bernhard, um alemão considerado um dos melhores escritores do século XX e dono de 15 prêmios diferentes; traduziu obras de Bertold Brecht; participou da novela Sassaricando (1987); gravou um CD onde canta obras de Brecht, disponibilizando gratuitamente na internet; em conjunto com Cacá Rosset e Luiz Roberto Galízia fundou o Teatro Ornitorrinco.

Em 2016, Maria Alice protagonizou “Rosinha”, um curta-metragem sobre um homem que, ao saber que está perto da morte, vai em busca de um novo marido para sua mulher. O curta recebeu mais 40 prêmios nacionais e internacionais. Ela também é dona de outros prêmios dos mais importantes na categoria de melhor atriz: o extinto Molière, o Mambembe, o troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte e o cobiçado Prêmio Shell.

Vergueiro humana

No terceiro bloco dessa icônica entrevista para o Provocações, Maria Alice Vergueiro mostra que também é gente como a gente, e que o álcool faz parte de sua rotina, nos fazendo sentir mais acolhidos pelo fato de não conseguir negar uma ou algumas garrafas de cerveja enquanto pensamos na trajetória do país nos últimos 5 anos. “Eu andei bebendo demais”. Aos 71 anos, em 2006, a atriz falava de vícios e de liberdade, dando a certeza de que hoje ela seguiria na resistência ao obscurantismo político e desprezo pela arte e pela vida. Para ela, esconder os vícios e não mexer naquilo que nos provoca e que não sabemos lidar, é como criar uma pantera adormecida dentro de si. A qualquer momento ela pode acordar com um tapinha.

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Ainda na entrevista, Maria Alice Vergueiro é questionada sobre como gostaria de morrer. Sua resposta é na lata: sem dor. Perguntada sobre para onde iria depois da morte, ela disse que estava numa fase bem hedonista e materialista, nos fazendo elocubrar que ela ainda suspeitava que viveria mais 14 anos de originalidade e arte. Maria Alice nos deixou na última quarta-feira (3), aos 85 anos, vítima de pneumonia, mas nunca saberemos se foi do jeito que ela realmente gostaria.

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