Quanto um animê pode ensinar sobre sacrifícios e utilitarismo?

De Dostoiévski a Kant, passando por Le Guin, Dororo é um animê que coloca seu público a pensar em diversas interpretações, desde o liberalismo até o comunismo

Imagem: reprodução
por Alexandre Lessa da Silva

Dororo é considerado por muito um dos melhores animês de 2019 e que ainda se mantém no catálogo da Amazon Prime Video. Mas, o animê de 2019 não é a primeira versão que conta a história de Dororo (どろろ) e Hyakkimaru (百鬼丸). Em 1969, a primeira série animada foi lançada na TV japonesa. Ainda mais fiel ao mangá de Osamu Tezuka (手塚 治虫, b. 手塚 治) que a versão de 2019, a série de 1969 acabou por sofrer dos mesmos problemas que o mangá, financiamento insuficiente e pressões para que fosse finalizada antes do tempo, o que faz da versão de 2019, apesar da morte de Tezuka em 1989, uma obra mais completa, mas que ainda traz todas as principais narrativas da versão anterior.

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Diversos comentadores caracterizam Dororo como um mangá Shōnen, ou seja, um mangá voltado para adolescentes, entre 12 e 18 anos, do sexo masculino, mas se espantam com seu conteúdo adulto e profundidade, o que o tornaria um mangá seinen, voltado para o público adulto. A explicação para isso vem da trajetória de seu autor.

A revista em que Dororo foi primeiramente publicado é a Weekly Shōnen Sunday, o que pode explicar uma classificação apressada no gênero shonen. Entretanto, Dororo marca uma mudança de orientação na obra de Tezuka, considerado o pai do mangá em seu atual formato e o equivalente japonês de Walt Disney, saindo de gêneros infantis e adolescentes de mangás para histórias mais dramática, cinematográficas e literárias, gegikas. Gekiga (劇) significa, literalmente, “imagens dramáticas” e começou a ser utilizado, em 1957, como um termo substituto para a palavra mangá para fazer referência a determinadas publicações, assim como ocorreu com o aparecimento da expressão “graphic novel” como oposição a “comics”.

Weekly Shōnen Sunday

A era das províncias de guerra

Dororo conta a história de Hyakkimaru, um ronin ou samurai que não tinha um daimyo (senhor) e que perdeu, ao nascer, várias partes do seu corpo em função de um pacto feito pelo seu pai com 48 ou 12 demônios. No mangá e na primeira versão do animê, são 48 demônios que devoraram as partes do corpo do protagonista. Já no animê de 2019, esse número é reduzido para 12 demônios. Essa não é a única diferença entre as versões de Dororo, o que torna necessário avisar que os comentários, de agora em diante, dirão respeito ao mais novo animê, o que não impede que, muitas vezes, haja uma coincidência entre todas as versões da história.

O enredo, por sua vez, desenrola-se no Japão durante o Período Sengoku, nos séculos XV e XVI, um dos mais conturbados da história japonesa. A tradução do período já deixa isso bem claro, uma vez que pode ser traduzido como “a era das províncias em guerra”, o que provocou o colapso do governo central do Japão. Em meio a todas essas guerras, Hyakkimaru, um adolescente sem braços nem pernas e que não ouve, enxerga ou fala, prossegue em sua jornada sem um fim definido em seu primeiro momento. Ele sabe que deve prosseguir sua jornada, mas só posteriormente vai entender o objetivo dela. No início dessa jornada, conduzida graças às próteses feitas por seu pai adotivo e um sentido sobrenatural, encontra uma criança chamada Dororo, um nome que é uma espécie de corruptela para dorobou (どろぼう), ladrão. Ao derrotar um dos tantos demônios que encontra em seu caminho, Hyakkimaru descobre um dos principais objetivos de caminhada, restaurar as partes de seu corpo que estão fastando através da aniquilação dos demônios que fizeram o contrato com seu pai biológico, contrato esse que Hyakkimaru só terá consciência perto do final de sua jornada.

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A miséria e o guerreiro

Os personagens do animê são provocantes e se casam muito bem com o enredo. O personagem principal, Hyakkimaru, representa, ao mesmo tempo, a miséria e o guerreiro, alguém que não tem nada, nem mesmo seu corpo, mas que luta da maneira mais improvável contra os inimigos mais poderosos. De certa forma, Hyakkimaru lembra Eros (Amor) descrito no Banquete de Platão, já que esse é filho de Poros (riqueza) e Penia (pobreza), uma vez que sua origem é nobre, mas sua vida miserável. Dororo, personagem que dá nome ao animê, é uma criança pobre, com uma história de vida trágica e miserável, e que esconde uma questão sobre sua sexualidade.

Outros personagens como Biwamaru (琵琶丸), um sacerdote cego e que aparece sempre no momento oportuno (kairós) para ajudar a dupla, Tahomaru (多 宝 丸), o irmão de Hyakkimaru e que tem uma espécie de complexo de Édipo mal resolvido, o pai e a mãe de Hyakkimaru, formam um quadro propício para o desenvolvimento de grandes questões literárias e filosóficas, éticas e políticas. Questões como aquelas do corpo, da identidade, da alteridade, do poder, da guerra, da posição da mulher na sociedade, da morte, do ser no mundo e muitas outras são facilmente encontradas em Dororo que, apesar dissso, não deixa de ser um animê extremamente violento. Apesar de todas essas questões, o ponto que mais chamou atenção no animê de 2019 é um que só aparece, explicitamente, nessa versão e que será discutido em seguida.

Biwamaru, o sacerdote cego

Uma influência Dostoiévskiana

Em um diálogo entre Ivan e Aliócha, no livro “Irmão Karamazov” de Fiódor Dostoiévski, aparece um dilema que tomará conta da parte final do animê de 2019, mas que não é explorado no mangá nem na primeira versão do animê:

Responde-me francamente. Imagina que os destinos da humanidade estejam entre tuas mãos e que, para tornar as pessoas definitivamente felizes, proporcionar-lhes afinal a paz e o repouso, seja indispensável torturar um ser apenas, a criança que batia no peito com seu pequeno punho, e basear sobre suas lágrimas a felicidade futura. Consentirias tu, nestas condições, em edificar semelhante felicidade?

O dilema moral apresentado por Dostoiévski ganhou uma nova versão, que faz lembrar ainda mais o que ocorre em Dororo, com a escritora de fantasia e ficção científica estadunidense Ursula K. Le Guin e seu conto “Aqueles que se afastam de Omelas” (The Ones Who Walked Away from Omelas).

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No conto, Le Guin escreve sobre uma cidade feliz e resplandecente, em que todos (ou quase todos) os seus moradores são felizes. A perfeição da cidade é tanta, que a autora convida o leitor a usar sua imaginação, com receio de descrever algo que não concorde com o conceito de felicidade entendido pelo leitor. Não há fome, não há guerras, não há desespero, Omelas é um verdadeiro paraíso na terra. Entretanto, nem todos nessa cidade são felizes. Em um porão ou adega debaixo de um dos belos edifícios públicos de Omelas, há um pequenino quarto sujo em que se encontra, jogada em um chão de terra, uma criança sentada — a autora chega a dizer que “poderia ser um menino ou uma menina”, o que aproxima ainda mais do animê. Essa criança, com cerca de 6 anos, é “débil mental”, não se sabe se pelos maus-tratos ou de nascença, e ninguém deve fazer nada para ajudá-la. O motivo para ninguém ajudar é que todos sabem que:

sua felicidade, a beleza de sua cidade, a ternura de suas amizades, a saúde de seus filhos, a sabedoria de seus estudiosos(…)dependem inteiramente do sofrimento abominável desta criança.

Michael Sandel questiona, em “Justiça: o que é fazer a coisa certa”, ao comentar o conto de Le Guin, se tais condições seriam moralmente aceitáveis, questionamento que pode se repetir no caso de Dostoiévski e também no caso de Dororo.

O princípio do utilitarismo

Em Dororo, seu pai faz um trato com demônios que exigiram devorar todas as partes de seu filho que estava para nascer, mas um dos demônios não conseguiu devorar sua parte. Esse acordo foi feita em troca de poder, mas, ao final do animê, aparece a questão de que o sacrifício de Hyakkimaru seria responsável pela felicidade e bem-estar de todos que moram no domínio de seu pai. Uma repetição do mesmo dilema moral. A resposta ao dilema depende do tipo de ética que adotamos.
Jeremy Bentham, considerado o pai do utilitarismo, estabeleceu o chamado princípio do utilitarismo ou princípio do máximo de felicidade, encontrado em sua obra “Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação” (An introduction to the principles of morals and legislation).

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A natureza colocou a humanidade sob a governança de dois mestres soberanos, dor e prazer. São apenas eles que apontam o que devemos fazer… o princípio que aprova ou desaprova todas as ações conforme a tendência que parece ter de aumentar ou diminuir a felicidade da parte cujo interesse está em questão: ou, o que é a mesma coisa em outras palavras, promover ou se opor a essa felicidade. Digo de todas as ações, portanto, não apenas de cada ação de um indivíduo privado, mas de todas as medidas do governo.

Assim, Bentham afirma que para agir corretamente, para praticar uma boa ação, devemos buscar o máximo de felicidade em nossas ações. Portanto, pesando as ações do pai de Hyakkimaru, vemos que sua escolha está confirmada como certa pelo princípio de Benthan, já que a felicidade do pai, somada com o bem-estar da população, é bem maior que o sofrimento do filho.
Por outro lado, éticas como a kantiana, deontológicas, condenariam a ação de Kagemitsu Daigo (醍醐 景光), pai biológico de Hyakkimaru. Na “Fundamentação da Metafísica dos costumes”, Immanuel Kant apresenta uma de suas formulações do imperativo categórico, também conhecida, posteriormente, como o princípio da dignidade humana.

Aja de tal forma que trate a humanidade, seja em sua própria pessoa ou na pessoa de qualquer outro, nunca apenas como um meio para um fim, mas sempre ao mesmo tempo como um fim.

Portanto, para Kant, de forma nenhuma um ser humano pode ser usado como instrumento, ferramenta, meio para se atingir qualquer objetivo, mesmo que esse objetivo seja a felicidade geral. Assim, Kant, sem dúvida, condenaria a ação de Kagemitsu Daigo.

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Evidentemente, questões morais têm consequências políticas, por isso é necessário evitarmos interpretações simplórias desse dilema moral. Um leitor desavisado poderia pensar que esse dilema pode ser interpretado através da oposição entre liberalismo e comunismo ou socialismo, mas, de fato, não é o caso. O que ocorre no capitalismo, e defendido pelo liberalismo, é o sacrifício de muitos para satisfazer a ganância de poucos. Portanto, isso acaba por levar a uma questão diferente: é justo tantos sofrerem para que tão poucos consigam ter mais do que possam gozar? A primeira pergunta, aquela de Dororo, Dostoiévski e Le Guin é um verdadeiro dilema, contudo, a segunda tem uma resposta bem mais fácil.

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