Prosa e verso: a unidade dos contrários

A situação de expropriação cultural à qual o trabalhador está submetido é tão grande e esmagadora que ambos, prosa e verso, são um capital cultural privado dos ricos

Imagem: Dina Belenko
por Matheus Dato

O texto abaixo é o segundo da série Estudos de literatura para a classe trabalhadora.

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Há uma questão fundamental que precisa ser devidamente entendida sobre a teoria marxista que irá se aplicar perfeitamente bem ao tema que estamos estudando: a literatura.

Esta ideia é a de que as coisas únicas, indivisíveis, imutáveis na realidade são apenas unas em sua aparência. Na verdade, todos os elementos que conhecemos pelos sentidos e pelo intelecto possuem suas contradições internas e suas respostas contrárias. Mesmo os átomos e moléculas que compõem tudo o que vemos e tocamos estão com a sua base de existência apoiada nesta unidade dos contrários. De igual maneira, aquilo que parece absolutamente irreconciliável, diferente, estranho entre si e oposto possui ou pode possuir uma coerência e unidade a depender do modo com o mundo concreto se movimenta e é moldado pelos diversos atores dos processos que experimentamos na vida.

Considerando isto, causa muita estranheza que os cursos de literatura, sejam na escola ou no ensino superior, ensinem que, de alguma forma, as diferentes formas de se organizar a atividade da escrita sejam de alguma maneira completamente antagônicas e não possuam nenhum tipo de relação direta. Estamos falando aqui das estruturas de prosa e verso.

Antes, uma breve explicação: para começarmos a nos aprofundar no campo da literatura, vamos explorar como se estruturam as palavras e frases em textos, de maneira geral. A prosa é a estrutura de texto mais comum a todos os brasileiros, pois é também a estrutura da língua falada, geralmente expressando uma comunicação direta, narrativa, sem grandes preocupações com a “musicalidade” daquilo que é escrito. Geralmente, é expressa por meio de parágrafos, pontuações que indicam fala e reações e possui uma série de gêneros próprios.

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Pode ser dividida, de acordo com determinados autores, em prosa literária e não-literária ou em prosa narrativa. Exemplos de gêneros de prosas literárias são a crônica, o conto e o texto teatral.

O verso é a expressão verbal baseada na linguagem e na estética da poesia. Possui ritmo, métrica, forma e, em muitos casos, rimas. É escrita sem parágrafos, via de regra, e expressa um certo “canto literário” em sua forma. Determinadas escolas, como a da poesia concreta, expandem este universo e não cabem exatamente nestas definições. Falaremos mais sobre estes casos adiante.

O ensinamento mais importante que pretendo compartilhar nesta oportunidade é de que, na verdade, as linhas que separam a realidade entre prosa e verso são tênues e nem sempre visíveis ao leitor que pretende não apenas entender palavras, mas entender o sentido e a expressão da literatura.

Primeiro, porque assim como todas as nossas manifestações da consciência humana, a literatura também é determinada em último grau pelas condições materiais da sociedade em que aparece. A separação rígida da literatura em dois campos diametralmente opostos é resultado de uma rica, porém ultrapassada maneira de expressar uma sociedade igualmente rígida e carente de maiores definições “científicas” sobre o que seria de fato a arte e a literatura.

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Além disso, quanto maior o grau de liberdade experimentado pelo ser humano nas suas relações sociais de produção e reprodução da existência humana, mais se transmite esta liberdade para as artes e para o pensamento. De certa forma, o que podemos definir neste âmbito é que o crescimento do livre escritor e do livre leitor tende a conduzir esta separação entre prosa e verso à extinção.

O filósofo da arte e da linguagem Mikhail Bakhtin (1895-1975) foi um dos mais importantes autores a demonstrar que, na sociedade de classes, geralmente reservou-se a poesia e o verso às elites enquanto a prosa era relegada às camadas populares da sociedade. Naturalmente, esta definição só é precisa na medida em que contextualizarmos que sempre houve poesia em meio aos subalternos, mesmo que apenas em formas pouco desenvolvidas ou dominadas pela influência religiosa e artística da classe dominante. De igual modo, desde que somos capazes de identificar a presença de literatura no mundo, também podemos perceber a presença da prosa na classe social prevalecente.

A situação de expropriação cultural à qual o trabalhador está submetido é tão grande e esmagadora que ambos, prosa e verso, são um capital cultural privado dos ricos e poderosos ao passo que os operários se veem cada vez menos retratados na arte e nos livros. É justamente por isso que insisti nos pontos que expus na primeira parte desta série: precisamos nos apropriar da literatura.

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Uma expressão que misture e conecte todas as formas de literatura na medida em que a beleza e a necessidade existem é o que deve ser buscado pelo autor e pelo leitor caso pretendamos chegar ao ponto de uma arte liberta.

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Para levarmos à práxis o que ficou exposto no capítulo de hoje, as recomendações de leitura e bibliografia desta vez tratarão de poesias e prosas que fogem, de algum modo, da definição clássica e engessada de prosa e poesia.


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