Porta dos Fundos: da crítica da lacração à lacração da crítica

Pedir a humoristas para não fazer humor com a religião para não afastar o povo da esquerda é uma tentativa de censura e parte de premissas erradas

Imagem: Divulgação / Porta dos Fundos
por Danilo Matoso

No último dia 26, o jornalista e historiador Igor Santos publicou no Diário do Centro do Mundo (DCM) um artigo intitulado “Lacrar com imagem de Jesus cansou e só tem um efeito: colocar trabalhadores contra a esquerda”, ilustrado com uma imagem de Fábio Porchat, do canal Porta dos Fundos, “na enésima interpretação sobre Cristo ‘diferente’”. Segundo o jornalista, esse tipo de prática “serve apenas para colocar os trabalhadores contra a esquerda”, uma vez que a maior parte do povo brasileiro é cristã.

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Santos pondera que a Teologia da Libertação “em momento algum se serviu desse expediente para fazer agitação e propaganda”. Ao contrário, “as comunidades eclesiais de base (CEB) trouxeram Jesus e seus ensinamentos para uma escatologia cotidiana, capaz de gerar questionamentos de natureza classista, inspirar a organização dos trabalhadores em seu local de trabalho, igreja e bairro, falar de ecologia, economia e outros elementos”.

A premissa da crítica é justa. Afinal, a atividade política tem por objetivo agregar, e não segregar. E é necessário contemplar um dos maiores e mais antigos instrumentos de coesão social de nossa sociedade: as igrejas. Mesmo Marx, ao qualificar a religião como “ópio do povo” – numa passagem da Crítica da filosofia do Direito de Hegel tantas vezes usada por ditos marxistas para descartar sumariamente o diálogo com movimentos religiosos – na verdade diz: “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Ela é o ópio do povo”.

Porém, como lembra o próprio jornalista, “na política, assim como na vida, não se dialoga com ninguém apontando o dedo e acusando”. Não é outra coisa o que seu texto faz: aponta o dedo para os comediantes do Porta dos Fundos e os acusa de, supostamente em nome da esquerda, afugentar os trabalhadores de nosso campo político.

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Ensinando padre a rezar

Cabe lembrar, preliminarmente, que o Porta dos Fundos não é uma organização política, e muito menos partidária. Embora Gregório Duvivier seja vinculado ao PSOL, não é o caso dos demais atores e roteiristas – a maioria visivelmente liberal. Que direito teria uma organização ou um jornal de esquerda de dizer o que um grupo de comediantes deve ou não fazer? Sobretudo quando esse grupo tem ampla popularidade e penetração nas mais diversas classes sociais, com um canal no YouTube com 16,7 milhões de assinantes? Eles devem saber, afinal, o que os aproxima e o que os distancia de seu público, e a sátira religiosa está dentre os temas recorrentes em seus programas.

As igrejas, essas sim, gostam de dizer aos outros o que devem fazer. Tanto que no ano passado tentaram impedir de ir ao ar o especial de Natal do Porta dos Fundos – cuja veiculação foi defendida por amplos setores da esquerda, inclusive o próprio DCM. Um grupo de integralista lançou uma bomba incendiária contra a sede da produtora do Porta dos fundos – no que talvez tenha sido um dos atos fascistas mais veementes desses anos sombrios. Devemos nos somar a eles?

Por outro lado, o fato de que organizações e veículos de esquerda tenham saído em defesa da liberdade de expressão do Porta dos Fundos não dá a essas organizações o direito de prescrever diretrizes para sua linha satírica – embora certamente possam inspirá-la. Se grupos de extrema-direita consideram o Porta dos Fundos como um portal de esquerda não significa que ele de fato o seja. Afinal, tratam até mesmo João Doria e Joe Biden por “comunistas”. Por que, então, eles deveriam responder à esquerda?

Mesmo que o Porta dos Fundos fosse de esquerda, não teriam por acaso o direito de fazer sua sátira religiosa? A maioria dos episódios do programa, afinal, faz paralelos anacrônicos entre o tempo de Jesus e os dias atuais, escancarando a desconexão entre o comportamento de muitos dos ditos “cristãos” e as prescrições de Jesus nos Evangelhos. Tais desvios sempre ocorreram nas igrejas e hoje não é diferente. Não seria próprio tanto de ateus quanto de “bons cristãos” apontar – talvez com sátira – a hipocrisia dos que defendem a perseguição, prisão, tortura e morte dos excluídos em nome do mesmo Cristo que defendia o amor e o perdão incondicional do homem pelo homem, por exemplo?

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Censura ao ateísmo?

Suponhamos, a bem do argumento, que o Porta dos Fundos fosse de esquerda, e composto exclusivamente por ateus, e que pregassem abertamente o ateísmo. O Brasil, “a pátria do Evangelho”, é, evidentemente, um país majoritariamente religioso. Somente 8% de nossa população se declarou “sem religião” no último censo – o que inclui deístas não praticantes, agnósticos etc.. Os ateus estão longe de ter qualquer hegemonia em nosso país. Os religiosos estão longe de ser os oprimidos pela “cristofobia” denunciada por Bolsonaro na Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU) este ano. Será que, “para ganhar o povo”, as organizações de esquerda de fato precisariam calar os ateus e impedi-los de professar sua descrença em Deus?

O que se chama de “esquerda”, hoje e sempre, é uma amálgama de grupos de diferentes matizes que buscam alguma unidade renovadora dentro dessa diversidade. O sectarismo da sátira que o jornalista busca combater é, ao fim e ao cabo, análogo ao que ele mesmo acaba por praticar em sua diretriz política: aproxima-se mais da censura dos conservadores, pródigos em prescrever regras ao comportamento alheio, que da liberdade dos progressistas. Entre os ativistas políticos progressistas estão justamente os ateus – muitos deles marxistas. Acaso devem os marxistas aceitar bovinamente a hipocrisia que grassa entre os religiosos sem denunciá-la e satirizá-la?

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É louvável a estratégia proposta de, à semelhança das CEBs, voltar a ganhar o trabalho de base pela via religiosa. Tal projeto, porém, só ganha sentido por meio de uma nova interpretação filosófica própria da esquerda no seio do protestantismo – da qual ainda não se tem notícia. Então sim teríamos uma analogia legítima ao que foi a teologia da libertação no âmbito do catolicismo. Os notáveis esforços de grupos evangélicos de esquerda ainda não resultaram nessa nova igreja, e evidentemente sofrem e sofrerão sempre pressão reacionária das organizações religiosas a que pertencem – que não são nada neutras. Tal trabalho tampouco estaria imune à crítica e à sátira que se dirige a toda e qualquer igreja, em todo caso.

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É visível, por fim, que a sátira religiosa do Porta dos Fundos inclui-se no campo na sátira ao poder – e a crítica ao poder constituído está no cerne da atividade humorística. Não há nada de novo nisso: eles apenas o fazem com qualidade – uma qualidade comparável à dos ingleses do Monty Python, que também parodiaram Jesus para criticar a Igreja. Que o Porta dos Fundos siga satirizando os poderosos das igrejas, para seus milhões de seguidores – que vão muito além do Leblon. Que aqueles que queiram fundir a prática política de esquerda à religião também o façam, mas sem censura ou reprimenda aos ateus. É preciso conviver com a diversidade para construir a unidade.

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