Pornografia e NoFap, os extremos do sexo na pandemia

Enquanto algumas pessoas optam por passar algum tempo consumindo vídeos pornô, uma comunidade de homens luta pela abstinência dessa prática. No meio disso, os prós e contras do sexo como produto

Imagem: Aleksandr Zubkov / Getty Images.
por Bibi Tavares

Passar tanto tempo em casa nunca foi tão cansativo e tedioso ao mesmo tempo. Descobrir novas formas de passar o dia se tornou um imperativo nos últimos 3 meses e a internet tem sido a porta principal de acesso a todo tipo de entretenimento, como os mais variados filmes da Netflix, lives do Youtube, músicas do Spotify e o conteúdo +18 de sites adultos, o famoso pornô. Não é novidade que sexo é usado como moeda de troca desde que o mundo é mundo, mas esses momentos de crise conseguem expor o melhor e o pior de cada indústria. E no caso da indústria pornográfica, ela tem se saído muito bem, obrigada. 

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Seguindo as regras de isolamento social e apostando as fichas no particular cenário de pandemia, onde as pessoas têm passado muito mais tempo em casa – em estados como Pernambuco e São Paulo, os índices de isolamento social chegaram a 53,8% e 48%, respectivamente, nesta semana -, alguns dos sites pornôs mais populares como PornHub, que possui um grande acervo de vídeos gratuitos, começou a liberar assinaturas premium gratuitamente por 30 dias. Nessa brincadeira, o site viu seu acesso mundial crescer 11,6% em março, quando começou o isolamento, em comparação ao mês anterior. Na Itália e Espanha, esse aumento conseguiu ultrapassar os 50%.

O canal Sexy Hot criou a plataforma “Fique em Casa” e liberou gratuitamente dez filmes em seu site e, assim como o PornHub, viu seu índice de acesso crescer 31% em março. Já o site Brasileirinhas optou por não liberar nenhum conteúdo gratuito e seu CEO afirmou que já está satisfeito com o aumento de 50% nas assinaturas diárias do site, passando de 300 para 600 por dia. 

E não são só os sites que estão lucrando com esse serviço pouco óbvio nesse cenário apocalíptico de pandemia. As CamGirls do site brasileiro Câmera Hot também viram suas receitas aumentarem 25% somente em março. A conhecida e premiada atriz pornô Dread Hot, que também é camgirl, disse que triplicou seu faturamento desde o início do isolamento social e que, mesmo não tendo dados concretos, notou no número de acessos por hora que a quantidade de clientes subiu exponencialmente.

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Mas ao mesmo tempo que a pandemia de coronavírus tem feito uma boa parcela dessas profissionais faturarem na internet, fez com que milhares de garotas de programa perdessem suas rendas. Na França, por exemplo, a situação das trabalhadoras do sexo é bem crítica, já que esse núcleo não foi incluso no auxílio emergencial que o governo francês criou para trabalhadores autônomos neste período de isolamento social. O xeque-mate que essas mulheres estão sofrendo nesse cenário é cruel, ao mesmo tempo que precisam pagar seus aluguéis e, muitas vezes, alimentar filhos e familiares, precisam preservar sua saúde e garantir que não serão multadas por descumprir o isolamento.

Um coisa é certa, existem setores que conseguem lucrar mesmo em meio ao caos, e a pornografia continua sendo uma indústria que, graças à sombria exploração da mulher, consegue lucrar em cima de sentimentos tecnicamente ruins, como ociosidade, ansiedade e estresse, já que muitos desses clientes procuram essas plataformas para desestressar e passar o tempo.

A pedofilia e os crimes de internet na quarentena

O período de isolamento social também tem escancarado portas sombrias e relembrado temas que antes pareciam estar sendo pouco discutidos, como é o caso da pedofilia na internet. Com as aulas suspensas na maioria dos países, as crianças e adolescentes têm passado mais tempo em casa e, consequentemente, conectados na internet, contudo, esse período vem sendo tenebrosamente aproveitado por pedófilos. Esses homens adultos chegam nos fóruns da Deep Webquestionando se agora, com o isolamento social, o número de downloads será maior, em referência aos vídeos com crianças nuas ou sendo abusadas.

Na União Europeia esses crimes têm crescido e a Europol atenta para o fato de que muitos jovens agora estão tendo aulas online a partir de plataformas que não são totalmente seguras, facilitando que homens adultos contactem e convençam crianças e adolescentes a gravar vídeos com práticas sexuais e enviá-los. Na Espanha, logo que foi decretado estado de emergência em março, o número de downloads contendo pornografia infantil aumentou 21%.

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Como foi dito, a indústria do sexo pode gerar lucro para muitas mulheres, mas, ao mesmo tempo, expõe o lado mais repulsivo de adultos que se aproveitam da fragilidade e inocência de crianças e adolescentes para explorá-los sexualmente. Em muitos casos, as consequências disso saem das telas dos computadores e são levadas às ruas, com a prostituição infantil. O avanço de políticas neoliberais e fascistas em todo o mundo têm passado um pano muito grande para essas práticas.

Na contramão de tudo, o curioso NoFap

Fundada em 2011 por Alexander RhodesNoFap se resume a uma comunidade de homens ex-viciados em pornografia e masturbação e que tiveram suas vidas arruinadas em muitos aspectos por conta desse vício. O termo em inglês fap é uma gíria para “masturbação masculina” e as razões para homens aderirem a essa prática de não masturbação são as mais variadas, desde questões religiosas e morais, até falta de produtividade no trabalho e problemas na vida sexual com suas esposas.

Para Rhodes, a prática de assistir pornografia com frequência causa mudanças neurais e, consequentemente, disfunção sexual, hormonal e o vício. A ideia é dar uma espécie de reboot no cérebro, se abstendo de assistir pornografia, de se masturbar e em alguns casos mais radicais, não praticar sexo. O fundador da NoFap acredita que essas técnicas podem fazer com que o cérebro volte para suas “configurações iniciais”, de antes do vício.

No cenário de pandemia, como já foi dito, o número de acessos aos sites pornôs cresceu notavelmente, e por isso tem pipocado vídeos e textos motivacionais na internet sobre não cair em tentação nesse período de ociosidade. De praticantes de NoFap a padres e a galera do “Eu Escolhi Esperar”, tem de tudo para convencer que não assistir pornografia na quarentena é resistir bravamente às tentações repulsivas da sociedade pecadora.

Um nome que é constantemente associado ao NoFap é o de Terry Crews, o famoso pai do Chris de Todo o mundo odeia o Chris. Terry não esconde que foi viciado em pornografia desde os 12 anos de idade e que isso quase acabou com seu casamento. Hoje ele diz que está “curado”, mas que a luta contra esse vício não foi fácil. Segundo ele, se a noite vira dia e você ainda está consumindo pornografia, então você provavelmente tem um problema com vício para resolver.

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Contudo, muitos especialistas consideram que não existe um vício em pornografia e que essa compulsão por consumir esse conteúdo não se compara a vícios como drogas e álcool. A controvérsia é tanta que já rendeu algumas polêmicas entre o fundador da NoFap e neurocientistas como Nicole Prause, que estuda ciência sexual e afirma categoricamente que não há bases científicas suficientes para considerar esse transtorno como um vício. Inclusive, o “vício” em pornografia sequer está listado no Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Americana de Psiquiatria.

O posicionamento de Prause rendeu muito assédio por parte dos NoFapers, incluindo ameaças de morte e investigação do FBI. Seriam os praticantes de NoFap apenas um grupo de homens com sérios problemas de misoginia, que não conseguem conceber a mulher como um ser pensante, senão como um objeto a ser usado e descartado e usam a pornografia como desculpa?

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É certo que a masturbação causa muitos benefícios, ajuda homens e mulheres a conhecerem melhor seus corpos, os toques preferidos, melhora a vida sexual; é certo também que a pornografia tem seu lado sombrio e prejudicial, cheio de exploração e taras repulsivas; mas ninguém aqui veio para cagar regras na vida alheia. Opiniões pessoais à parte, assim como tudo tem seu lado ruim dentro de sociedades que produzem ansiedade, depressão, estresse e dezenas de outros transtornos, não é justamente o sexo que ficaria de fora.

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