Por onde anda Policarpo Quaresma?

Nacionalista ingênuo e idealista, personagem de Lima Barreto ostentava um autêntico e quixotesco patriotismo, o que o separa completamente dos atuais coxinhas

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Lima Barreto. Imagem: reprodução
por Emílio Pio

Lima Barreto nasceu anos antes da abolição da escravatura. Dedicou-se ao jornalismo, publicou contos, como A Cartomante, e críticas em revistas anarquistas. O Triste Fim de Policarpo Quaresma foi publicado em 1915. A história se passa no ano da Revolta Armada no Rio de Janeiro. Policarpo Quaresma, personagem principal, é um nacionalista no sentido mais amplo da palavra, um sujeito que buscava incorporar no cotidiano formas de exaltar a cultura nacional. Buscava no patriotismo o remédio para curar as chagas sociais do Brasil da época.

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Tinha a pureza dos homens de ideia única, dos sábios, não se interessava por dinheiro, magoado pelo deboche da imprensa e pelos olhares na rua, o major ficou convencido de que o nacionalismo era a salvação da pátria. (O Triste Fim de Policarpo Quaresma)

Policarpo Quaresma é considerado louco quando sugere que o Tupi seja a língua oficial do Brasil, é internado e passa meses no hospício, depois tenta retomar a vida longe da cidade, no campo, e se dedica à agricultura, passa a exaltar a terra fértil brasileira, nega a política local que obstrui o trabalho do agricultor, passa a defender a ideia de que o Brasil deveria passar por reformas profundas, defende a reforma agrária como a solução para o problema da terra.

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Mais uma vez é perseguido por suas ideias, e volta para a cidade, vive a Revolta Armada em defesa de Marechal Floriano. Torna-se comandante. A experiência da guerra o consome, vê-se atormentado após matar um homem, vê seus sonhos desmoronando. Encontrou na guerra apenas o fanatismo e o autoritarismo. Policarpo Quaresma condena o extermínio dos presos, acaba sendo preso e condenado à morte como traidor. Deixa de acreditar em si mesmo.

A literatura de Lima Barreto é trágica e visceral, provocativa, atual. Um livro que abriga em suas páginas as feridas da sociedade brasileira. Uma linguagem simples e popular, mas um discurso certeiro. A literatura de Lima Barreto é um caminho para entender a essência do Brasil e do brasileiro. Triste fim é um  livro profético. Lima Barreto não usa alegorias, mas um discurso direto como uma flecha.

A partir da leitura de Policarpo Quaresma podemos perceber que há um erro no conceito de nacionalismo, ser nacionalista não é necessariamente ser fascista, podemos pensar a partir da leitura na possibilidade de um nacionalismo democrático.

Podemos pensar em Policarpo como um sujeito que abriga uma espécie de amor pela pátria, pela soberania nacional, por um nacionalismo democrático, um sujeito crítico, uma vítima do sufocamento e dos arames farpados que cercam as consciências mais críticas. Policarpo é vítima desse tentáculo que destrói e consome o sujeito crítico, aquele que não pode ser dominado, moldado, mas que acaba sendo encarcerado, destruído.

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No Brasil atual, forças reacionárias se vestem de nacionalismo, esse grupo tenta buscar formas de conservar a realidade, fazendo isso de forma violenta e brutal. É um grupo que carrega símbolos nacionais como a camisa verde e amarela. Ao remover essa camada da aparência, dos símbolos, essa aparência do movimento, podemos perceber que a consciência desses sujeitos é marcada por instinto de preservação, interesses particulares, pelo ódio a qualquer tipo de mudança e pelo diferente.

O que esses sujeitos buscam é manifestar no Brasil uma visão distorcida do Brasil e do mundo, lutando contra fantasmas, miasmas, alimentando um desejo de transformar o Brasil nos EUA, um desejo fruto de um trabalho da mídia durante o período da ditadura militar. O Brasil carrega em si a impossibilidade de ser os EUA, estamos diante de um conflito. Os verdes e amarelos são patriotas que exaltam também a bandeira dos EUA, vivendo a angústia desse sonho que não pode ser realizado.

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O Brasil, assim como desejava Policarpo, habita o campo da possibilidade, do que pode ser. É preciso resgatar e pensar num nacionalismo carregado de um sentido mais amplo, que traz em si um verdadeiro amor pela pátria. Esse campo do vazio que é o futuro, deve ser preenchido por algo, e isso me faz pensar nas utopias de Policarpo Quaresma, as suas infinitas brigas com a vizinhança e a sociedade conservadora de sua época.

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O Major Quaresma sonhava com um Brasil que era essencialmente Brasil, com uma música que emerge da terra, das matas, das florestas. Quaresma é esmagado pela força da estrutura social de sua época, a sua utopia não era coletiva, mas uma utopia sozinha. Talvez o nosso desafio seja alimentar no coletivo as utopias, fazer o povo acreditar na responsabilidade de construir utopias.

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