Os “capitães de areia” continuam convivendo entre nós

Até hoje o Brasil segue, com exceção de alguns curtos períodos, com seu projeto de encarceramento e extermínio da juventude

Cena do filme "Capitães de Areia". Imagem: divulgação
por Emílio Pio

A primeira vez que li Capitães da areia estava prestes a trabalhar como educador em um centro socioeducativo para menores. A leitura me acompanhou durante um tempo, algo me fazia pensar que os capitães da areia estavam ali diante de mim, encarcerados.

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Capitães da areia narra a história de meninos de rua que viviam em um cais da Bahia. O grupo de crianças e adolescentes busca junto formas de sobreviver diante do descaso do Estado. O livro fala sobre a fome, a pobreza e a violência, as desigualdades sociais, elementos presentes na realidade brasileira. Fala também sobre como o nosso país trata as suas crianças.

“Tinham de si apenas a liberdade de correr as ruas. Levavam vida nem sempre fácil, arranjando o que comer e o que vestir, ora carregando uma mala, ora furtando carteiras e chapéus, ora ameaçando homens, por vezes pedindo esmola. E o grupo era de mais de cem crianças, pois muitas outras não dormiam no trapiche. Nenhuma delas reclamava. Por vezes morria um de moléstia que ninguém sabia tratar. Quando calhava vir o padre José Pedro, ou a mãe-de-santo Don’Aninha ou também o Querido-de-Deus, o doente tinha algum remédio.”

Fraternidade dos marginalizados

Cada personagem construído por Jorge Amado possui um ornamento, uma espécie de aura, uma característica particular. O narrador oscila entre dez personagens principais como Pedro Bala e o Professor, o único da turma que sabia ler. A literatura de Jorge Amado traz marcas ancestrais do povo brasileiro, gato é a imagem do malandro, cheio de astúcia e apreço pela vida. Nas páginas de Jorge Amado há justiça e os marginalizados assumem o papel de heróis.

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Quando a imagem de Ogum é apreendida por policiais e levada para a delegacia, a missão de recuperá-la é dos capitães da areia. Quem dá a missão é a mãe de santo Don’Aninha. Pedro Bala atende ao pedido. Don’Aninha curava os meninos de rua com suas ervas e oração.

Diante da repressão policial e da violência do Estado, os marginalizados e excluídos, as mães de santo e os meninos de rua encontram na união e na fraternidade um ponto de resistência. O Brasil sempre foi uma sociedade punitiva, esse sistema de punição tem alvos bem definidos, como as classes populares. Na incapacidade do Estado de amparar as crianças, ele assume a função de controlar e punir.

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O Brasil de 1930

Jorge Amado escreveu a obra nos anos 30, período em que o país estava em ebulição sob o Estado Novo de Vargas. Conflitos ideológicos marcavam a política da época. Os livros de Jorge Amado eram queimados na Cidade Baixa, próximo ao Elevador Lacerda, ponto turístico da cidade de Salvador. Para o regime Vargas, a literatura de Jorge Amado era uma propaganda comunista.

O governo Vargas perseguiu militantes e intelectuais ligados ao comunismo. O escritor Graciliano Ramos foi encarcerado e narrou a experiência de preso político em Memórias do Cárcere.

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Capitães de areia foi publicado em 1937, até hoje o Brasil segue, com exceção de alguns curtos períodos, com seu projeto de encarceramento e extermínio da juventude. É um projeto que se intensifica cada vez mais.

“Nunca, porém, era como um menino que tem sua casa. O Sem-Pernas ficava pensando. E achava que a alegria daquela liberdade era pouca para a desgraça daquela vida.”

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