O sofrimento único de perder no xadrez para uma menina de 6 anos

“Eu bebi razoavelmente pesado durante a semana seguinte, revisei a partida e descobri que ela tinha jogado com total precisão”

Imagem: infocus

por Stephen Keefe para a VoxPluma, com tradução de William Dunne

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O campeão mundial de xadrez Magnus Carlsen disse uma vez que sua parte favorita do jogo era observar seus adversários se contorcendo à medida que lentamente percebem sua derrota. Diferentemente do que acontece no boxe, tennis ou outros esportes de um contra um, onde a ferocidade da competição toma a forma de gritos e socos na cara, a carnificina entre dois jogadores de xadrez ferve logo abaixo da superfície.

O que torna o xadrez tão cruel é que o jogo teoricamente não envolve sorte, de modo que o vencedor pode se permitir a sádica satisfação de ter objetivamente dominado outra pessoa. Com isso em jogo, o xadrez se torna uma guerra total entre dois egos.

Eu entrei no meu primeiro torneio de xadrez há alguns anos atrás, por acaso, só por curiosidade de ver como eu iria. Não me ocorreu que haveria lá qualquer outra coisa a perder além das próprias partidas. Eu mergulhei impetuosamente em uma mixórdia de táticas para iniciantes e um senso de esperançosa inocência. Como jogador de primeira viagem, fui colocado na faixa mais baixa da classificação, contra outros iniciantes.

Imagem: Jorge Torres e Saskya Pauze-Begin

Joguei meus primeiros jogos na base da adrenalina, avançando um nervoso lance depois do outro. Eu só tinha jogado online, para me divertir. Encarar alguém pessoalmente fazia parecer menor a intensidade do reluzente refúgio do meu computador. Seus olhos iam de um lado para o outro do tabuleiro, a respiração mudava, o suor se acumulava em suas testas. Eu podia senti-los tentando me destruir, e vice versa.

Mais ou menos uns cem lances e alguns frios apertos de mão depois e eu já tinha ganho jogos o suficiente para avançar até a última rodada. Enquanto eu pedalava pra casa um estranho zunido começou a correr pelo meu corpo. Eu gostei de ganhar, não apenas pelo xadrez, mas pelo prazer de ter derrotado alguém. Um sinistro sorriso insinuou-se no canto da minha boca enquanto eu pensava nas finais do dia seguinte. Eu queria esmagar quem quer que fosse. Eu queria ter a chance de dizer “sou o melhor”.

Eu cheguei na tarde seguinte dez minutos antes do horário, chequei o quadro das partidas e vi que eu iria encarar uma pessoa chamada Olivia Sokolov. Ela tinha ganhado os três primeiros jogos. Nós estávamos competindo por um pequeno prêmio em dinheiro na faixa mais baixa do torneio.

7 minutos antes do jogo

Imagem: Jorge Torres e Saskya Pauze-Begin

Eu sentei à mesa assinalada para nós e esperei. Minha oponente era um dos poucos jogadores que não tinha aparecido ainda. O lugar, um corredor com uma arcada de mármore, foi abaixando o volume até um silêncio sepulcral. Algumas centenas de jogadores sentavam-se diante uns dos outros esperando o início oficial da rodada. Pares de homens suados evitavam contato visual, compulsivamente ajustando suas peças e esperando o relógio em silêncio, nervosos tique-taques. Essa era a maior partida da vida de muitos deles.

2 minutos antes do jogo

Eu espremia apreensivamente minha garrafa de água só para manter minhas mãos ocupadas. Minha oponente ainda não tinha aparecido, e a cadeira de plástico amarela vazia na minha frente começou a ganhar ares de mau agouro. Eu coloquei minhas mãos nos joelhos para elas pararem de se inquietar debaixo da mesa. Eu comecei a imaginar quem tinha culhões suficientes para aparecer tão tarde — quem tinha esse tipo de tempo e intimidação para espalhar por aí.

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1 minuto antes do jogo

Olivia passou caminhando confiante pela porta da frente, ignorando centenas de cabeças que se voltaram para vê-la. Sentou-se com uma postura perfeita e pegou uma caneta para preencher a ficha do jogo. Cruzou as mãos em sua frente e olhou para o árbitro, esperando que ele desse o sinal.
Ele ergueu a cabeça para se dirigir aos presentes: “Podem começar”.

O jogo começa

As palavras saíram da boca dele e desencadearam uma enxurrada de peças se movendo seguidas por uma floresta de cabeças inclinando-se para anotar o primeiro lance. Minha oponente juntou-se a eles, esticando os braços e jogando 1. e 4.

Eu percebi que estava olhando para minha oponente em transe, de olhos arregalados, e parei. Olhei em volta para os árbitros para garantir que eles não tinham se enganado antes de voltar a olhar para ela.

Minha oponente, com quem eu estava competindo por um prêmio em dinheiro, contra quem eu estava prestes a dedicar toda minha energia mental para destruir, e vice versa, parecia ser uma menina de seis anos de idade.
A situação naufragou e eu percebi, aterrorizado, que não havia um jeito de realmente ganhar. Competir contra alguém de seis anos com qualquer quantidade de seriedade é desesperado e ridículo, né? Se eu ganhasse, estaria propositalmente arruinando o dia de uma criancinha e tirando dela seu honesto e puro amor por um belo jogo. Perder seria um pesadelo maior ainda. Uma derrota abalaria meus últimos três anos de progresso como jogador de xadrez e, de certa forma, meus últimos 22 anos de progresso como um ser humano. Eu teria que conviver com o fato de que eu não era mentalmente mais desenvolvido do que alguém que tinha acabado de aprender a andar e falar.

Imagem: Jorge Torres e Saskya Pauze-Begin

Eu ainda não tinha olhado para ela nos olhos. Ela estava olhando direto para o tabuleiro esperando o jogo continuar, desinteressada pela minha idade adulta ou a diferença de idade entre nós. Para ela, eu era um oponente sem nome nem rosto, uma carcaça irrelevante movendo as peças.

Respirei profundamente e coloquei um peão em 1. … c5, a defesa mais agressiva das negras. Ela anotou o movimento e jogou 2. Cf3 sem nenhuma hesitação. E continuou com seu foco no centro do tabuleiro, esperando novamente. Eu me movimentei um pouco na cadeira, enquanto decidia para que direção eu queria levar a partida. Ela pensou que eu estava fazendo meu próximo lance e sua mão esticou instintivamente para responder. Nossas mãos pairavam sobre o tabuleiro e pela primeira vez fizemos contato olhos nos olhos.

Ela era uma aterrorizante mistura de adulto e criança. Seus frios movimentos de assassina eram tão aterrorizantes quanto seu sweater feito em casa e seus prendedores de cabelo roxos eram inocentes. Seus pequenos sapatos de velcro ficavam pendendo vários centímetros acima do chão, mas ela os mantinha ali, imóveis, como se estivesse pronta para saltar.

Suas unhas estavam sujas como se ela tivesse colocado as mãos na areia recentemente, mão que agora se moviam pra lá e pra cá entre um estojo do Bob Esponja e uma taticamente complicada partida de xadrez.

15 minutos de jogo

Ela agarrava as peças com toda sua mãozinha e as posicionava com um equilíbrio assustador. Ela respondia cada movimento meu com perfeita precisão tática, seguindo a teoria das aberturas marcada por séculos de literatura enxadrística. Uma fina camada de suor começou a se formar sobre meu corpo. Com dez movimentos, o jogo estava muito cerrado. A menor incorreção daria ao outro jogador a vantagem.

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Imagem: Jorge Torres e Saskya Pauze-Begin

Eu pensei sobre quando eu tinha a idade dela, eu costumava pegar um cesto de roupa, encher de bichinhos de pelúcia com meu melhor amigo e jogar isso escada abaixo. A gente ria olhando eles quicarem, depois pegávamos eles novamente para jogar mais uma vez. Eu tinha dificuldades para pronunciar “cabeleireiro” e acreditava de verdade que os animais podiam falar se a gente tivesse paciência suficiente. E o mais importante, eu não pensava no futuro e se você me oferecesse chocolate eu aceitaria todas as vezes. Olivia era claramente uma boa jogadora de xadrez, mas ainda tinha apenas seis anos de idade. Ela pegaria algo se fosse oferecido para ela.

25 minutos

Eu olhei seus pequenos olhinhos e decidi oferecer a ela um peão em troca de uma vantagem posicional. Sua mão pairou sobre o peão antes de ela dobrar seus dedos no meio do ar e reavaliar a posição. Seus olhos iam e voltavam sobre o tabuleiro. Ela agarrou a dama e calmamente movimentou-a uma casa para frente.
Eu não tinha considerado que ela poderia não aceitar aquela peça dada de graça. Eu analisei o tabuleiro e percebi com um horror crescente que ela tinha criado espaço para ocupar a casa que eu tinha enfraquecido, e a partir dali causaria uma devastação contra meu rei com as outras peças dela.

Imagem: Jorge Torres e Saskya Pauze-Begin

30 minutos

A fina camada de transpiração na minha pele cresceu e se tornou um violento suor por todo o corpo. Apertei minha cabeça com ambas as mãos em pânico, de olhos arregalados. Gastei dez minutos tentando me convencer de que não era verdade, de que havia uma saída para aquela posição, de que essa criança de seis anos não tinha me superado usando a análise das possibilidades, de que o mundo em que eu vivia tinha ordem;  e de que coisas assim não aconteciam nele.

45 minutos

Eu tentei colocar o rei dela em xeque, mas isso era desespero, um adiamento do inevitável. Ela calmamente tirou o rei do xeque e fez alguma observação em suas anotações. Enquanto eu procurava por um lance que nós dois sabíamos que não existia, seus olhos deixaram o tabuleiro pela primeira vez e passearam pelo ambiente. Ela estava cansada de mim. Ela estava entediada das minhas tentativas mais fortes de desmantelá-la estrategicamente, e usar sua idade contra ela.

Eu tentei enxergar através do banho de sangue da minha dignidade e autoestima, procurando encontrar um lado bom, algum tipo de grande lição nisso tudo, mas não achei nada. A realidade da situação era tão clara quanto esmagadora.

Eu era um homem de 22 anos perdendo de forma muito convincente para uma menina de seis anos em um jogo totalmente determinado por pura habilidade e inteligência. Não era engraçado ou bonitinho. Eu estava sendo rasgado membro a membro por uma exterminadora de seis anos.

Fim do jogo

Eu derrubei meu rei, e fiz a cara mais corajosa que consegui. Cumprimentei sua pequena mãozinha e disse “boa partida”. Um homem com uma capa de chuva veio em sua direção, suponho que era seu avô, segurando sua jaqueta.

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“Ela jogou muito bem”, eu disse.

“Ele só fala russo”, Olívia sussurrou, com os olhos voltados para o chão. Ela estava com vergonha por mim, vergonha das minhas tentativas de ter espírito esportivo, envergonhada por minha existência em geral.

Sentei-me no meio fio no estacionamento, uma carcaça do meu antigo eu, enquanto o suor começou a esfriar no meu corpo. Olivia passou com seu avô russo, parou na porta de sua minivan e ficou imóvel por um segundo. Ela olhou para mim, os olhos cheios de piedade, como se para dizer “aguenta firme, garoto”. Além de ter ficado cansada de mim, e depois envergonhada por mim, agora ela sentia pena de mim.

Imagem: Jorge Torres e Saskya Pauze-Begin

Eu bebi razoavelmente pesado durante a semana seguinte. Revisei a partida e descobri que ela tinha jogado com total precisão — mesmo para um programa de computador ela tinha jogado quase com perfeição e era objetivamente uma jogadora melhor. Eu tive tempo para deixar minha auto-aversão e autopiedade se transformarem em uma admiração pela inteligência da jovem. Eu também reconheci meu preconceito descarado por considerar uma menina de seis anos como a pior pessoa contra quem perder.

Eu percebi que as regras do xadrez são específicas e claras, dando a qualquer um que as aprenda, incluindo crianças, uma chance igual de lutar dentro de sua estrutura.

As regras da vida adulta, por outro lado, são cheias de ambiguidades e são transmitidas de forma desajeitada de geração em geração. Nós mesmos temos dificuldades de decidir quais são as regras e isso é parte do motivo de as crianças terem que se acostumar com elas lentamente. Colocar cinto sempre, mas não no ônibus ou em um táxi. Usar capacete de ciclista, mas não se você quiser fazer sexo um dia. Deus existe, ou talvez apenas simbolicamente, ou talvez de nenhuma forma. Fale com todo o mundo em variados tons de formalidade, dependendo do seu status diante deles, contexto social, hora do dia e clima.

Dê esmolas, mas não dê esmolas, você vai tornar o problema pior. Seja confiante mas não autoritário, seja gentil mas não frouxo. Violência nunca é a resposta, mas nós estamos em uma guerra necessária no exterior, na qual você poderá lutar antes de poder beber uma cerveja legalmente. Sempre seja honesto, mas se você quer ir adiante, talvez você precise trapacear. Se você colocar algo na cabeça, você consegue realizar qualquer coisa nesse mundo. Mas é mais fácil se você tiver uma combinação específica de cromossomos e um nível específico de pigmento em sua pele.

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Eu superei a derrota desde então, mas de vez em quando eu penso sobre um mundo mais transparente, um mundo mais inclusivo em que Olivia é a primeira presidente de dez anos de idade e perder para ela no xadrez não é nada de mais.

Imagem: Jorge Torres e Saskya Pauze-Begin

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