O olavismo musical investe contra os Beatles

Ex-astrólogo rejeita tudo que não compactue com sua visão reacionária, que inclui a tese de que a Pepsi usa células de fetos para produzir seu refrigerante

Imagem: Capa do Sgt. Virginia's Fascist Hearts Club Band
por Marcelo Sant’Anna

O ex-astrólogo e guru bolsonarista Olavo de Carvalho afirmou que uma das maiores bandas da história da música mundial, os Beatles, eram analfabetos musicais. “Vou investigar, mas me parece verdadeiro pelo contexto: os Beatles eram semi-analfabetos em música. Mal sabiam tocar violão. Quem compôs as canções foi o Theodor Adorno. Vou investigar.”, afirmou certa vez Olavo em suas redes sociais. E foi além:

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“Eu tenho aqui uma coleção de letras de canções dos principais conjuntos de rock americano. Todos eles têm ao menos uma canção de celebração do satanás. É satanismo explícito.”

Que conclusões poderíamos tirar sobre este assunto analisando o que os próprios Beatles falavam sobre sua música? O próprio Paul McCartney já afirmou que eles não sabiam ler ou escrever música, que não tinham uma formação para tal. Mas isso seria um motivo para chamá-los de analfabetos? Não usar uma notação padronizada ou termos teóricos seria o suficiente para afirmar isso? Responder uma figura como Olavo de Carvalho denota certo grau de loucura, mas vamos elencar aqui algumas contribuições dos quatro rapazes de Liverpool para a teoria músical, apenas por curiosidade.

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Primeiro, podemos verificar que eles tinham conhecimento sobre anacruse e fórmulas de compasso. Isso pode ser comprovado em suas apresentações ao vivo, na forma como fazem a contagem do tempo antes de começarem a tocar, e também nas riqueza de músicas como “We Can Work It Out”, e “Here Comes The Sun” onde encontramos muitas variações nessas fórmulas, devido às influências que George Harrison absorveu da música indiana, e com execuções perfeitas do baterista Ringo Starr. Paul McCartney também afirmou terem contado os 24 compassos que deixaram livre para a orquestra de 40 músicos preencher na gravação de “A Day In The Life”.

O músico indiano Ravi Shankar e George Harrison

O vocabulário de acordes, que no início da carreira do quarteto, John e Paul confessam ser bem limitado, evoluiu para um infinito debate que alcança até os dias de hoje. Sobre o conhecimento de mudanças de tonalidade, McCartney declara que se divertiu ao tentar juntar músicas de diferentes tons no famoso medley do álbum “Abbey Road”, e Harrison também comentou sobre dificuldades na elaboração da instrumentação, devido à quantidade de mudança de tons de “Lucy In The Sky With Diamonds”. Sobre arpejos e escalas, Paul também já teorizou sobre o arpejo de um acorde em “Lady Madonna”, e sobre a escala do riff da introdução de “Please Please Me”.

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McCartney e o compositor vanguardista Luciano Berio

O biógrafo de Paul McCartney, Barry Miles, afirma que ele ficou dois anos em contato com círculos vanguardistas, e o próprio Paul faz uma referência ao compositor teórico John Cage quando comenta sobre sua ideia de como preencher os 24 compassos de “A Day In The Life”, com seus 40 músicos atacando da nota mais baixa à mais alta de cada um de seus instrumentos:

“Esta é a diferença entre mim e Cage: para mim aquilo ficaria apenas no meio da música, como se fosse um rápido solo; para ele seria a coisa toda.”

John Lennon também colaborou com ideias à frente de seu tempo, experimentando alterações na velocidade de gravação das fitas, e até mesmo a reprodução invertida dos sons, como a a gravação de sua voz em “Rain”, e as famosas guitarras de George em “I’m Only Sleeping”. A harmonia modal, muito explorada pelo gênio do jazz Miles Davis, também não fica de fora do repertório dos “analfabetos”. É nítida a exploração de modos em “Norwegian Wood” com o uso do modo Mixolídio, e em “Eleanor Rigby” onde há uma mistura modal dos modos Eólio e Dórico.

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“And in the end…”, isso é o que você precisa saber sobre os Beatles para não ser um idiota como Olavo.

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