O Bolero de Ravel: do escárnio à insurreição da dança

Seus colegas contemporâneos achavam suas composições esquisitas: não estavam preparados para aquela inovação na música

Imagem: Reprodução
por José Márcio Tavares e Kevin Drummond

Pianista, compositor e mundialmente conhecido por suas melodias orquestrais e instrumentais cheias de graciosidade e sutileza, Joseph Maurice Ravel nasceu em março de 1875, em Ciboure, na França. Dentre suas principais contribuições para as artes está o famoso Bolero de Ravel, considerado por ele como algo trivial, descrevendo-o como “uma peça para orquestra sem música”. Suas influências vieram tanto de Claude Debussy, quanto de representantes do Classicismo, como Morzart, Liszt e Strauss. Contudo, foi no Impressionismo que encontrou seu estilo artístico.

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Ravel não teve contato com música até os 7 anos de idade, mas incentivado por sua mãe, a espanhola Marie Deleurt, começou a ter aulas de piano. Seus vários professores já percebiam sua habilidade no instrumento. Ainda na infância já havia composto o primeiro movimento de uma sonata. Em 1889, convenceu seus pais a fazer uma prova para o conceituadíssimo Conservatório de Paris, tocando o Estudo nº 1 de Chopin.

Como todo gênio revolucionário, – confira no artigo de Kevin Drummond sobre Debussy – tinha personalidade forte e fez muitos inimigos. Um deles era um de seus professores, o famoso compositor francês Gabriel Fauré. Seus colegas contemporâneos achavam suas composições esquisitas: não estavam preparados para aquela inovação na música. Foi aí que os professores liderados por Fauré simplesmente o expulsaram do Conservatório.

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Mas Ravel não se deixou abalar e continuou compondo suas obras modernas e revolucionárias. Uniu-se a Erik Satie, que também compunha de forma “diferente”, e formou uma espécie de “clubinho” com o já famoso Debussy. Estava criado o estilo impressionista na música. Assim, por estar na companhia de compositores tão importantes, o mesmo Fauré que o expulsara, o chamou para voltar ao Conservatório. Um detalhe interessante é que com a mudança do diretor, Ravel foi expulso novamente! E foi o que melhor poderia ter acontecido, pois a partir daí ele passou a dispensar estudos acadêmicos e seguir a seu próprio caminho.

Ravel é mundialmente conhecido principalmente pelo seu Bolero, ainda hoje a obra musical francesa mais tocada no mundo. A composição foi encomendada pela bailarina Ida Rubinstein e estreou na Ópera de Paris em 1928. Bolero tem um ritmo invariável (*) com a duração de catorze minutos e dez segundos, e uma melodia uniforme e repetitiva. Deste modo, a única sensação de mudança é dada pela introdução alternada dos vários naipes de instrumentos (madeiras, metais, cordas, etc.) com um crescendo progressivo e uma curta modulação em mi maior próxima ao fim, mas retorna ao dó maior original faltando apenas oito compassos do final. Originalmente, na própria cópia da partitura de Ravel, a marca do metrônomo é  = 76, mas esta está riscada e 66 está substituindo a marcação original.

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Revolucionário, o Bolero, portanto, não tem nada de enfadonho, apesar de apresentar uma estrutura repetitiva. Outra obra muito famosa e linda de Ravel é Pavane pour une enfente defunte, que ao ser apresentada pela primeira vez foi muito vaiada pelo público. Definitivamente, é muito difícil ser revolucionário.

(*) Célula rítmica do Bolero:

bolerinho de ravel

Curiosidades sobre Ravel:

1 – O pai de Ravel (Pierre-Joseph Ravel) era engenheiro civil pioneiro na indústria automobilística. Num acesso de criatividade criou o looping da montanha russa. Os amantes de adrenalina devem muito a ele!

2 – Ravel escrevia peças exclusivas para Ballets, além de críticas musicais, e era muito reconhecido por isso.

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3 –  Seu hobby era colecionar relógios e caixinhas de música. Ele gostava muito de novidades, e em 1906 escreveu a obra Introdução e Allegro apenas para demonstrar o uso da harpa com pedal, grande lançamento da época.

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4 – Sua obra “Bolero” se tornou tão contagiosa quanto o Coronavírus graças ao filme “Retratos da Vida”, filmado na França em 1981. No trabalho do cineasta Claude Lelouch, a última cena é dançada ao som do Bolero pelo bailarino argentino Jorge Donn, nos Jardins do Trocadero, bem próximo a Torre Eiffel. A perfeição do balé coreografado por Maurice Béjart, em conjunto com a música de Ravel, tornou a parte final do filme inesquecível. Segundo especialistas, é a música francesa mais tocada em todo o mundo.

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