“Negro Mesmo”, o grande disco de Nei Lopes

“Negro Mesmo” prova de uma vez por todas que o samba é muito mais que um gênero isolado, mas a espinha dorsal da música popular brasileira

Imagem: O Partisano
por Eduardo Afonso para os Arquivos do Samba

Nei Lopes é conhecido principalmente por suas maravilhosas composições gravadas por sambistas famosos como Elizeth Cardoso, Clara Nunes, João Nogueira, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e muitos (e bota muitos nisso) outros. Um dos mais intelectuais compositores do samba, porém, não poderia ficar só nisso. Ele já havia aparecido cantando em uma coletânea de 1975, “Tem Gente Bamba na Roda de Samba”, que contava também com seu eterno parceiro de composição Wilson Moreira.

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E seria com Wilson que Nei lançaria seu primeiro álbum, “A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes”, lançado em 1981, deixando de vez de ser apenas compositor e se tornando, para o público comum, um sambista consagrado. Dois anos depois, Nei lança pela gravadora Lira/Continental o álbum “Negro Mesmo”, a obra mais aclamada de sua discografia. Em “Negro Mesmo”, Nei se aprofunda de vez na cultura africana ao redor do mundo, principalmente nas diásporas (da Wikipedia: o termo diáspora define o deslocamento, normalmente forçado ou incentivado, de grandes massas populacionais originárias de uma zona determinada para várias áreas de acolhimento distintas).

Capa do disco “Negro Mesmo”. Imagem: reprodução

O álbum começa com uma homenagem a Zumbi dos Palmares (1655-1695), grande ícone da resistência negra no Brasil, na música “A Epopeia de Zumbi”, que pelo ritmo poderia muito bem ser um samba-enredo. Zumbi foi o último e um dos mais importantes líderes do Quilombo dos Palmares, o maior quilombo do período colonial. Os quilombos eram comunidades criadas por escravos negros que haviam escapado de seus proprietários, e o Quilombo dos Palmares chegou a abrigar mais de 30 mil pessoas. Zumbi chegou até a ganhar uma data em sua homenagem, que instiga a conscientização do negro no geral, o Dia da Consciência Negra. A data é comemorada todos os anos no dia de seu falecimento desde 2003 no calendário escolar e desde 2011 como feriado nacional. Nei falava da importância da data muito antes disso. Num dos versos, diz: “Foi a 20 de novembro, data para lembrar e refletir”.

Depois da forte introdução, começam as violas caipiras a chorar em Lundu Chorado. Composta por Nei, a música tem como temática o lundu, considerado um dos gêneros que deram início à música popular brasileira. O lundu influenciaria o maxixe, que seria uma das bases do samba. O nome da música é tirado de um dos poemas de Domingos Caldas Barbosa (1740-1800), autor de lundus, pai das Modinhas, sacerdote e poeta brasileiro, filho de um português com uma escrava angolana. Lereno (seu pseudônimo) era um símbolo da miscigenada cultura do Brasil. A letra é uma bela poesia sobre um escravo que está se sentindo atraído por sua sinhá. Muito se fala sobre as relações entre os proprietários homens e as escravas, mas o contrário acontecia quase que na mesma proporção. O refrão canta: “Meu caro senhor/olha a sua sinhá/tá me olhando com dengo/pra me enfeitiçar”. Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba já haviam usado temática semelhante em “Patrão, Prenda Seu Gado”: “Eu vim preso da Bahia/só porque fui namorado/de uma dona de eu, laiá”.

A música seguinte homenageia de forma indireta uma das figuras mais importantes do samba brasileiro: a mineira Tia Eulália, que nasce em Minas Gerias, mas é criada na Serrinha, Rio de Janeiro. De forma indireta pois a inspiração para “Tia Eulália na Xiba” não fora exatamente a Tia Eulália do Império Serrano, dona da carteirinha de número 1 de uma das mais importantes escolas de samba do Brasil e exímia dançarina de Jongo. Pelo menos é o que diz Nei Lopes em entrevista para Tárik de Souza no livro “MPB: Histórias e Memórias da Canção Brasileira, Volume 2”. Nei afirma que a música não fora inspirada em Tia Eulália do Império Serrano, mas que acaba tornando-se uma homenagem mesmo assim pelas coincidências que apresenta. Fala também um pouco sobre a influência da xiba, ritmo africano com instrumentos de cordas dedilháveis, cantos e palmas. Confira trecho da entrevista:

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“Tárik de Souza: Antes de sair o segundo disco com o Wilson Moreira, que levou três anos, você lançou um disco chamado Negro Mesmo. Queria que você falasse um pouco desse disco. Nele você se aprofunda mais na cultura negra?

Nei Lopes: É, isso! A gente aprofundou não só tematicamente, quanto estilisticamente em termos de música. Tem vários gêneros brasileiros estilizados, que a gente utilizou, como em “Tia Eulália na Xiba”. 

Tárik de Souza: O que é a xiba?


Nei Lopes: O meu irmão, estou me referindo agora ao clarinetista que se frustrou, porque o cachorro uivava quando ele ensaiava, ele é o herói da família. Ele foi à guerra, participou ativamente da guerra e, no período que antecedeu a ida dele pra Itália, ele servia – acho que era um eixo de segurança – em Angra dos Reis e Barra Mansa. Ele ficava lá, e quando vinha, dizia: – Pô, rapaz, – eu era pequeno, na época dele na guerra –, tem uma música engraçada lá, que os caras ficam tocando, aqueles arruaceiros, quer ver? Pegava o cavaquinho e fazia. Era um negócio mais ou menos assim (solfeja). Passou isso pra mim, e disse: – Ah, isso se chama xiba. Uma tia da mulher dele, se chamava Tia Eulália, e ela era de Além Paraíba. Aí criei uma história, “Tia Eulália na Xiba”. A Tia Eulália, fundadora do Império Serrano, morreu também achando que eu tinha feito uma homenagem a ela… Então fica. Porque ela também era de Além Paraíba. É bom que ela tenha partido com essa ideia. Mas não foi exatamente pra ela que foi feita “Tia Eulália na Xiba”. E toda a letra, que eu acho, modéstia à parte, uma das melhores que fiz, são referências a esse meu irmão. Quando eu fiz a música e foi gravada, ele estava vivo ainda. Eu falo: “Ela é veterana na guerra da Itália/mas ainda estraçalha no bolim bolacho”. Uma porção de referências a ele, a Além Paraíba. Era um irmão realmente muito especial. Todos foram especiais, mas esse deixou uma memória muito mais forte.”

Tia Eulália não inspira diretamente “Tia Eulália na Xiba”, mas recebe homenagem.
Imagem: Diego Mendes/Divulgação

Com batuques tipicamente africanos, os cavaquinhos rolam soltos em “Vou Te Buscar”, quarta música do álbum, que figura também na coletânea “Partido Alto”, lançada no ano seguinte, 1984. A música é o tema mais romântico do álbum, apesar da exaltação rítmica. Além de falar de ir buscar a amada, Nei também fala da força dos santos na luta até que chegue o dia da busca.

A música serve de ponte para uma das melhores músicas do álbum, “Jongo do Irmão Café”, composta por Nei e seu eterno companheiro Wilson Moreira. A música faz uma brilhante analogia entre o café e o negro. Isso, segundo o próprio Nei Lopes, é influência de uma poesia de Nicomedes Santa Cruz, poeta afro-peruano. A poesia em questão levava a analogia com a qual Nei Lopes se inspirou para escrever “Jongo do Irmão Café”. Essa ideia fica bastante evidente durante toda a música, mas o refrão se destaca: “Auê, meu irmão café/Mesmo usados, moídos, pilados, vendidos, trocados, estamos de pé/Olha nós aí, meu irmão café”. Além disso, a música tem características do Jongo (o mesmo que dançava Tia Eulália), ritmo africano trazido pelos escravos ao Brasil, que assim como o maxixe, também é uma das principais influências do samba.

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Em seguida, somos agraciados com uma receita de moqueca de fato em forma de música em “Moqueca de Idalina”. A música é mais uma prova de que o álbum não trata apenas de música afro-brasileira, mas trata também de toda a cultura africana, incluindo a culinária. “Moqueca de Idalina” não é a única música a falar sobre isso. A seguinte, “Efun Oguedê”, também fala sobre culinária, mas de um ponto de vista espiritual. Efun oguedê é um tipo de farinha feita com banana de São Tomé. Pega-se a banana não muito madura, corta-se em fatias e coloca-se ao sol para secar. Dias depois, ela é pisada no pilão e passada na peneira. A farinha é usada em oferendas, como por exemplo as feitas ao orixá Xangô, e a música ensina a preparação através da letra.

“Solução Urgente” é talvez a música mais sincopada do álbum. Remete bem ao samba malandro mais sofisticado que se popularizou bastante nos anos 70, década anterior à do lançamento de “Negro Mesmo”. Uma levada calma, tranquila, com uma cuíca se estrangulando ao fundo enquanto palavras do que parece um pedido de ajuda são proferidas por Nei Lopes e Carlão Elegante, ambos compositores da música. Parece um pedido de ajuda pois a letra descreve que o sambista está procurando uma solução urgentemente para mudar de vida, mas quase todas elas envolvem mudar os hábitos que o tornam sambista – a primeira providência é parar de beber e deixar a boemia; a segunda, que não é um hábito que ele precisa deixar, mas algo que precisa voltar a fazer, é dar clemência a seus orixás; a terceira é parar de compor, ou como a letra descreve: “Deixar de ouvir as estrelas/deixar de entendê-las, falando de amor”.

O fim do álbum se aproxima, e “Água de Moringa” volta a jogar luz sobre as raízes do samba e os estilos que construíram o ritmo mais completo do Brasil. Viola e sanfona acompanham a música inteira, anunciando o maxixe. A música também é composição dos amigos Wilson Moreira e Nei Lopes.

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A última faixa do álbum, “Que Zungu”, é uma homenagem aos negros de Angola e do Caribe, como o próprio Nei anuncia no começo da música: Esse som é pros meus irmãozinhos de Angola e do Caribe”. O nome da música é uma brincadeira com uma palavra de origem africana, zungu, que significa “confusão”. Várias outras palavras de origem africana que são corriqueiras no português brasileiro são apresentadas na letra da música, para mostrar ao brasileiro que a cultura africana está mais inserida no nosso dia-a-dia do que pensamos:

“Tichico foi na quitanda
Comprar dendê e fubá pro angu
Mocotó, guandu, quiabo,
Inhame, jiló, maxixe e chuchu
Lá, um bangalafumenga
Puxou um pango de aracaju
Tichico foi no cachimbo
Ai, meu zâmbi, que arenga
Ai zâmbi, que zungu!”

Nei Lopes atinge seu auge musical e lírico em “Negro Mesmo”, e prova de uma vez por todas que o samba é muito mais que um gênero isolado, mas a espinha dorsal da música popular brasileira.

Além de exímio compositor, Nei é também formado em Direito e Ciências Sociais pela UFRJ, conferencista, palestrante e escritor com vasta obra inteiramente baseada em seus estudos sobre o povo africano e sua cultura.

O álbum ainda conta com texto do compositor e escritor Almir Blanc na contra-capa, que pode ser lido na íntegra aqui.

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“Negro Mesmo” pode ser ouvido na íntegra abaixo, no Youtube:

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